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Rock made in civilização | AMA #1

10 de Janeiro, 2015 ArtigosJohnnyA

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“São horríveis notícias para os pessimistas”


O rock está vivo! E de boa saúde. Estive agora com ele no parque e mostrou-me as análises ao sangue. Impecáveis. São horríveis notícias para os pessimistas que usavam o discurso fúnebre formatado do “Ai e tal, nos anos não-sei-o-quê é que era bom”. Continua a ser, porque as pessoas inteligentes e capazes de fazer música não morreram com a queda do muro de Berlim, nem desapareceram com o primeiro disco da Tonicha. Prova evidente do que escrevo é o álbum de estreia dos The Black Chakra, El Maya.

the black chakra

“Sons para ouvir com tremoço e marisco”


Casa bem o tactear do baixo de Pedro Almeida, com as vibrações da guitarra de Pedro Duarte em conjugação com os pontuais, precisos e circunstanciais toques da bateria do Marco, um relógio suíço a quem, por acaso, ensinaram a tocar bateria. Onde não faltam os teclados de Daniel Valente, instrumento que, aliás, diz muito ao psychadelic rock.O devido destaque não pode deixar de ser dado ao que mais caracteriza a alma de El Maya, a voz de João Isidro. Arrastada na libertação das sílabas no seu tom muito próprio, torna toda esta sonoridade em algo com uma versatilidade quase infinita.

Não é mentira se disserem que todas as músicas deste trabalho podem servir de banda sonora para ler, por exemplo, Saramago, Dostoiévski ou Manuel Luís Goucha, mas serve também para o chazinho da reunião de avós, para celebrações de vários tipos, para ouvir no habitual almoço de nudistas ou no lanche com o pessoal do emprego. Sons para ouvir com tremoço e marisco e para aumentar o volume quando as testemunhas de jeová nos batem à porta. Para ouvir com um copo de cerveja. Música para celebrar a amizade, em liberdade. E para ouvir, independentemente da idade.

O rock está vivo! E convida-nos a viajar a seu bel-prazer por entre as cordas das guitarras a ostentar a sedução no gingar, com todos os outros instrumentos a acompanhar, como que se tratasse de uma reunião de amigos. Bem, é provável que se trate disso mesmo, porque se é bom ouvirmos com quem gostamos, aposto que deve ser ainda melhor criar e tocar com quem nos diz muito. “The Desert Calls” transmite exactamente isso, um trabalho feito por amigos que nos parece dizer “Larga a pose. Abana o tronco. Sente a tua alma a preencher o teu corpo.”


“um vocalista parolo que canta por cima de uma guitarra”


O rock está vivo! E ainda bem, porque é delicioso ouvir “Tropic Bound”, uma das quatro músicas presentes no disco, e perceber que é música com maturidade e que não são “Lálálás” de um vocalista parolo que canta por cima de uma guitarra que se troca entre dois acordes. Não! É uma sonoridade adulta, encorpada e que se dedica a passar uma mensagem. Mas mais do que isso, e a parte mais interessante, é o convite que faz: uma convocatória à libertação pela música. E não procurem aqui uma compreensão técnica daquilo que os instrumentos produzem, mas dediquem-se a apreender, da forma que bem entenderem, o lado fantasista e esotérico do que ouvem. El Maya pode ser um longo beijo na boca do surrealismo, porque mesmo sem darem conta, vão sentir-se beijados no fim.

Acho que já escrevi isto, mas faz sentido recordar os pessimistas: o rock está vivo!
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