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Faith No More - Angel Dust (1992) | Máquina do Tempo #6

07 de Março, 2015 ArtigosBruno Santos

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faith no more angel dust

Angel Dust. Pó de anjo. Nome comum para a droga PCP, Fenilciclidina. Nome do quarto disco da banda californiana Faith No More. Talvez a obra mais interessante da carreira desta grande banda que já contou com uma torrente de membros nas suas fileiras. Jim Martin, Chuck Mosley, Courtney Love,...

É o primeiro disco que contou com o talento de composição do vocalista Mike Patton, visto que em The Real Thing a sua contribuição ficou-se pelas letras. Nesta altura, cerca de um ano e meio após o sucesso de The Real Thing, Billy Gould (baixo) , Mike Bordin (bateria), Jim Martin (guitarra), Roddy Bottum (teclas) e Mike Patton (voz) juntaram-se para criar esta obra psicadélica e psicopata de hard rock, metal, disco, country, easy listening e tudo o mais que quiserem misturar. É uma espécie de salada russa mas com muito vidro e pregos ferrugentos à mistura.

Vamos por partes.

Só conheci os Faith No More a fundo durante a altura da minha "revolução musical". A altura em que se descobre que há algo mais nos CDs e na rádio e nos protótipos de playlists que já apareciam nos meados de 90. Talvez a altura em que estive mais virado para a música pesada. E este disco marcou-me porque apresentava uma vertente bastante ordenada e caótica que me virou os sentidos do avesso. Na altura nem sabia o que era Mr.Bungle mas felizmente mais tarde (obrigado António Freitas) vim a descobrir esse maná de desordem. Já tinha visto o video de "Epic" e tive aquele colega que me dizia "Epá, Faith No More é uma granda malha pá!", mas eu acredito que cada coisa e em especial a música tem o seu tempo para entrar na nossa vida.

E agora um pouco de história.

Em 1989 The Real Thing rebentou literalmente com o público e a crítica. Se os dois discos anteriores mostravam já a veia pesada e funky dos FNM, este disco mostrou toda uma outra paleta de cores e que colou. Metaleiros empedernidos, malta do techno, trolhas e doutores todos se deixaram contagiar por exitos tais como "From Out of Nowhere", "Epic" ou "Falling to Pieces". Tudo muito bem.

Um ano e meio de tournées e os FNM rasgaram tudo o que tinham rabiscado para o quarto disco e começaram do zero, para desagrado do guitarrista Jim Martin que viria a dar por finalizada a sua contribuição na vida deste quinteto californiano após o disco. Vamos lá enfiar as mãos, sem luvas, nesta salada russa. Angel Dust é um disco de alguns refrões orelhudos e outros dementes. É um disco onde o talento vocal de Mike Patton se começa a alargar, dúvidas houvessem. 14 músicas compõem este disco (15 em edição japonesa), 60 minutos de crooning, gritos, ritmos frenéticos, melodias bonitas ou headbanging. Escolham. O buffet está aberto.

Faith-No-More-2

"Land of Sunshine", o primeiro tema, fala-nos da motivação. A motivação artificial ou natural. Mike Patton canta-nos como um vendedor de infomerciais, com aqueles risos loucos que parecem dizer "hahahaha, otário...". Ou talvez seja uma forma dele lidar com os seus demónios. "Does life seem worthwhile to you?" pergunta no refrão. Se não parecer, "Where's how to order!". Peça e tenha, consuma, seja um adulto como os outros.

"Caffeine"... ah, que música. Os gritos dementes dos pesadelos e insónias provocadas pela única droga do Mike. Cafeína. Uma experiência de privação de sono foi o combustível desta obra prima. Bordin, Martin e Gould encarregam-se de manter um ritmo frenético e pesado ao longo desta música enquanto Roddy Bottum vai mantendo um registo estratrosférico ao longo da diatribe de nonsense (ou não) que o Patton debita aos gritos, ao longo da música. "Relax, it's just a phase... you'll grow out of it." diz-nos ele em jeito de aviso. Pois sim...

"Midlife Crisis". Bom, o título não fala por si. Escrita não como uma experiência pessoal mas como a interpretação. Teve durante algum tempo o título provisório de "Madonna" porque Mike Patton pensava que ela estaria a passar por uma crise de identidade ou de sentimentos à flor da pele e tentou interpretá-la. "You're perfect, yes it's true. But without me you're only you", talvez uma das linhas mais significativas deste disco.

"RV". Uma espécie de súmula do "lixo branco" dos parques de campismo americanos. Calminha, uma espécie de estrada lisa de bom alcatrão após as ruas esburacadas que foram os temas anteriores. Um piano quase de caixa de música abre as hostilidades para um registo em sussurro sobre a televisão, os emigrantes, os filhos, as expectativas, tudo e nada de quem passa a vida sentado num sofá, numa caravana.

"Smaller and Smaller". Aí vamos nós de novo, agarrem-se ao fundo das calças. Num sentido  esta música fala (para mim) do sonho de quem produz e do facto de se ser engolido no mar de sermos todos, de algum modo, quem produz. E quem esmaga. "I'll keep coming back, smaller and smaller, squash me, smaller and smaller, under the charity, smaller and smaller..."

"Everything's Ruined". A comparação lado a lado do amor humano ao amor pelo dinheiro. O sonho americano acarinhando o material e o humano. As relações vistas como números num papel, certinhas e no entanto balançadas num mundo caótico e imprevisível. O investimento numa relação adulta, cantada de um modo alegre. "Everyone knew this feeling was best, of course we must invest. A penny won't do, no.". O calculismo como pior forma de encarar a vida. Grande música. "Now everything's ruined..."

"Malpractice" é mais uma peça doente (passe a expressão) deste quinteto. Depois dos ritmos bonitos do tema anterior votamos a uma peça demente sobre um tema quase de Cronenberg, parece-me. Algo na onda do "Nip/Tuck". Ou talvez um toquezinho de prazer na transformação, algo quase de "Hellraiser". Demente, frenética, com uma parte perto do fim com um pianinho para poder respirar e voltar a mergulhar na insanidade. Vamos lá? Vamos.

"Kindergarten" é talvez uma espécie de tampão de normalidade após "Malpractice", mais calma e mais ordenada. Revi muito nesta letra a fase de não se saber bem o que se quer nem o que não se quer. Entre o ser, o poder ter sido e aquilo que era esperado de mim. Talvez por isso quarde memórias dissonantes dela.

"Be Aggressive". Hehehehe, é sobre um broche. Dito pelo próprio Roddy Bottum, homossexual assumido. É fazer um broche só pelo gozo. "I swallow, i swallow...". "What someone else would leave behind and spit it out, let go to waste i claim as mine." Mais claro que isto só vidro. Bom ritmo e as cheerleaders no refrão dão uma piada à música. Talvez agora haja quem não cante isto por verem imagens de fellatio na cabeça (passe a expressão...) mas olhem, azar...

"A Small Victory" sempre me pareceu falar da necessidade incutida de vencer. E da má adaptação que isso gera quando se perde. Uma pequena vitória, uma vitória pírrica. Todos os sinónimos que se usam para declarar uma perda menor como uma pequena vitória. Um dos singles do disco e que me lembra uma história sobre uma rapariga que conheci e que gostava desta música. Mas, dizia ela "ele é tão lindo mas deve ser paneleiro". Isto numa altura em que a internet era uma miragem e a MTV não passava escandaleira todos os dias era informação a mais. Muito à frente essa miúda. "Crack Hitler" é uma canção sobre um dealer de droga, negro, que se julgava Hitler. A ironia... O início da música tem uma guitarra reminiscente do tema do "Shaft", para completar a peça. Ouçam e vão perceber.

"Jizzlobber" é para mim o melhor tema do disco. Frenético, um teclado quase irritante a marcar a "melodia" e uma batida pesada com guitarras a rasgar e gritos a acompanhar. Talvez o trabalho mais vincado de Jim Martin em todo o disco. Sempre fiquei indeciso entre ser uma música sobre um masturbador compulsivo ou uma vítima de violação mas em todo o caso o sujeito do tema tem uma imagem negra e completamente destruída de si. Uma excelente música. A melhor e mais negra pesada e irritante de todo o disco. Irritante pelo constante martelar de sintetizador.

"Midnight Cowboy" é um instrumental. A versão do tema original de John Barry do filme com o mesmo nome. Vejam o filme, vale a pena. "Easy" é outra versão (talvez a mais cansativa porque terá sido a mais tocada) do original dos Commodores, onde Mike Patton mostra que sabe mesmo cantar. Lá está, para quem ainda tivesse dúvidas...

Em suma e depois desta longa seca que vos dei, na opinião deste vosso ilustre amigo, Angel Dust é o melhor disco da carreira dos Faith no More até agora. É para mim o disco que marca o princípio da decadência. Não me levem a mal, os discos seguintes têm boas músicas mas... não são bons discos. O ponto de rotura é este Angel Dust. A subida. A maravilha da decadência. A queda. Uma obra prima.
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