16
TER
17
QUA
18
QUI
19
SEX
20
SAB
21
DOM
22
SEG
23
TER
24
QUA
25
QUI
26
SEX
27
SAB
28
DOM
29
SEG
30
TER
31
QUA
1
QUI
2
SEX
3
SAB
4
DOM
5
SEG
6
TER
7
QUA
8
QUI
9
SEX
10
SAB
11
DOM
12
SEG
13
TER
14
QUA
15
QUI
16
SEX

John Coltrane - A Love Supreme (1965) | Máquina do Tempo #9

09 de Maio, 2015 ArtigosRafael Trindade

Partilhar no Facebook Partilhar no Google+ Partilhar no Twitter Partilhar no Tumblr

NOS Primavera Sound • O que esperar - Dia 1

Unflesh: O Dualismo de Gazelle Twin
john coltrane love supreme

"Pai Nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome"

Há uma mística inexplicável que contorna todo o catálogo discográfico de John Coltrane. Seja a sua primeira fase, de sonoridades jazz mais tradicionais e frenéticas, ou a sua segunda fase, mais livre, experimental e aventureira, Coltrane e a sua respetiva banda executavam uma variedade de jazz que se fazia constantemente sentir mais refinada e omnipotente que outras. Coltrane era mais que um instrumentista, e até mesmo mais que um músico: era um artista que canalizava o poder dos deuses sempre que tocava o seu instrumento (saxofone).

A Love Supreme, lançado em Fevereiro de 1965, foi o derradeiro salto gigante da carreira de John Coltrane por várias razões. Primeiro: foi a amálgama entre o "hard bop" que caracterizou os primeiros trabalhos do saxofonista e as composições "avant-garde" e "free-jazz" que Coltrane mais tarde adaptaria à sua sonoridade. Segundo: A Love Supreme foi e ainda hoje permanece um ícone cultural. Um trabalho artístico que ressoa e eternamente ressoará a todos os níveis espirituais, que definiu e inspirou uma geração (hippie) cuja respondeu e adotou a mensagem de paz e amor universais que Coltrane sempre quis expressar. Mas não é necessário ser-se um "hippie" para entender e adotar como sua a mensagem espiritual de Coltrane. Basta aceitar, abraçar a diferença e sobretudo ser humano.

De facto, se há termo que melhor define John Coltrane, é o termo "espiritual". Toda uma religiosidade contorna inevitavelmente o trabalho de Coltrane, e especialmente A Love Supreme. Houveram e há até rumores que afirmam Deus (sim, o próprio) como a força que teve um diálogo real com Coltrane e que o incentivou a criar este disco. Por muito ridícula que a estória possa soar, acaba por ser até plausível após se ouvir o sagrado A Love Supreme, e apenas o mais convicto ateu não ficará comovido com o disco em questão.

É de valor adiantar que seria impossível um disco como A Love Supreme ser menos que soberbo: os músicos com quem Coltrane trabalhou neste disco são de qualidade, aptidão e capacidade estonteantes. O pianista McCoy Tyner, a derradeira personificação "pianística" da mescla entre a subtileza e a virtuosidade, e também a energética secção rítmica do contrabaixista Jimmy Garrison e do baterista Elvin Jones (uma das minhas grandes inspirações enquanto baterista).

A Love Supreme é uma "tour de force" impactante, uma suite dividida em 4 partes ("Acknowledgement", "Resolution", "Pursuance" e "Psalm") que trata de temas como o amor, a morte, a fé e a redenção. Mais que um disco com quatro músicas, "A Love Supreme" é uma verdadeira homologação que afirma a necessidade e a importância da paz e da fé universais.

É impossível escrever sobre A Love Supreme sem mencionar e detalhar o simbolismo nele existente: "Acknowledgement" simboliza o reconhecimento da existência de uma entidade divina. Sonicamente, caracteriza-se por solos de saxofone divinos (termo propositadamente usado), improvisações de piano impressionantes, performances brilhantes da parte de Jimmy Garrison, com a sua linha de baixo hipnótica, e do baterista Elvin Jones, que marca e executa grooves infecciosos e altamente refinados. "Resolution" ilustra simbolicamente o pedido de redenção por parte do agora-crente. O ritmo deste tema é mais rápido que o do primeiro tema, como se este segundo tema marcasse o início da procura espiritual do protagonista desta aventura. A linha de saxofone de John Coltrane é sem dúvida uma das coisas mais belas que já ouvi na vida. De novo, McCoy Tyner tem o seu momento de brilho, e o baixista Garrison e o baterista Jones constroem o pavimento para que todos estes momentos consigam caminhar em pleno equilíbrio e harmonia.

john coltrane

"Pursuance" é indubitavelmente o tema mais frenético de A Love Supreme, simbolizando a definitiva procura de fé e a sua progressiva intensificação que pode até mesmo levar a auto-destruição do personagem em questão. "Pursuance" começa de imediato com um solo de bateria irrepreensível da parte de Elvin Jones. Nunca o consigo escutar sem ficar de queixo caído, é um momento verdadeiramente espetacular. Sucessivamente, seguem-se grooves rápidos e frenéticos da parte da secção rítmica de Jones e Garrison, acompanhados de um John Coltrane que dá a entrada perfeita a uma improvisação impossível da parte do pianista Tyner. Entra, mais tarde, o líder John Coltrane com um solo de deixar baba no queixo devido à sua posição de motor de intensificação: quando Coltrane entra, a secção rítmica toca progressivamente mais rápido. Estabelece-se mais tarde um silêncio que dá a base perfeita para um solo de contrabaixo da parte de Jimmy Garrison. A capacidade de sincronização da parte destes quatro músicos é soberba.

Finalmente, "Psalm" é a última faixa e estabelece a sua posição como quem se ergue do submundo e se mostra como opulento: "Psalm" simboliza a obtenção da fé e o encontro com Deus. Todo o tema soa a uma experiência solene e cerimonial: um ritual nos céus. Jimmy Garrison e McCoy Tyner acompanham subtilmente a realização do momento sacrilégio enquanto Elvin Jones executa crescendos ao tocar tímpanos... E John Coltrane. O líder virtuoso é a estrela o espetáculo que, ao executar um solo que palavras não conseguem definir devido à sua absoluta beleza, transmite com sucesso a sua mensagem espiritual. Acaba o disco, acaba a viagem e começa o crescimento da fé em cada um de nós.

Pessoalmente, A Love Supreme marcou-me infinitamente por toda a sua religiosidade e crença. Vim de uma família católica e com o tempo cresceu em mim um agnosticismo irrefutável. Hoje sou uma pessoa que se sente dividida: sinto-me inseguro relativamente à existência de uma autoridade, mas sinto também que todo o ser humano precisa de fé em ordem de poder viver feliz, de amar o próximo, de viver em harmonia, paz e em comunhão. Acontecimentos hipócritas como a existência passada de uma Inquisição que castigou e queimou os corpos de não-crentes foram os que me fizeram perder a crença, juntamente com carradas de pesquisa sobre os mesmos. Mas, se realmente existe uma entidade divina, não foi por sua culpa que estes se sucederam, mas sim por culpa nossa, seres humanos, imperfeitos mortais. Nós somos quem habita o mundo e somos nós quem tem o poder de o destruir ou de o reconstruir. Se Deus existe, foi para essa função que ele nos designou: para construirmos, juntos, um mundo melhor.

De qualquer maneira, não consigo evitar a constante dúvida que habitou a minha mente durante toda a minha vida. Talvez precise, também, de uma procura espiritual. Sinto-me precisamente no meio da linha que separa Deus do Mundo, mas talvez A Love Supreme simbolize o elo de união entre a nossa casa e o seu inventor. Sendo a fé um homem de barbas, um abraço de um desconhecido na rua, um pedido de redenção, uma lista de dez mandamentos, um livro repleto de fábulas e contos sobrenaturais ou um simples mas encarecido beijo no rosto, existe amor e existe fé em todos nós.

Obrigado, John Coltrane.

Ámen.
por
em Artigos

John Coltrane - A Love Supreme (1965) | Máquina do Tempo #9
Queres receber novidades?
Comentários
http://www.MOTORdoctor.PT
Contactos
WAV | 2018
Facebook WAV Twitter WAV Youtube WAV Flickr WAV RSS WAV
Queres receber novidades?