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Joy Division - Unknown Pleasures (1979) | Máquina do Tempo #13

26 de Março, 2017 ArtigosInês Calçôa

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É o óbvio? Talvez. Poderá parecer mais uma evocação alternativa? Também. Mas é aquele que mais me diz enquanto álbum basilar da minha educação sentimental.

Estava-se na década de 70, eu ainda nem era projeto e só o viria a ser anos e anos mais tarde. Com pena digo: quem me dera ter uma real forma de me transportar aos seventies. Tanta coisa, tanto experimentalismo, a entrada da eletrónica no mundo musical! Elevavam-se vozes do punk, materializava-se o metal, começava a fazer-se o aquecimento do disco. Mil texturas e realidades, que procuravam explicar mais e melhor o que ia na cabeça e coração de cada um.  Entre 1976 e 1980, com quatro anos de curta existência e apenas um álbum editado com toda a banda viva, são, talvez, dos quartetos mais marcantes da música: Joy Division (rebatizados após problemas).

Final da primeira década do século XXI, ao descobrir uma banda francesa de covers dos anos 70 e 80, cruzo-me com uma “Love Will Tear Us Apart” feliz. Com risos de crianças, sons de uma tarde de praia, com a rebentação das ondas por trás. Tinha os meus 17 anos, e procurava sonoridades alternativas à coleção de vinis da família, e ao que se ouvia nos corredores da secundária. Algo ali me pareceu estranho... Mas... O amor... há de separar-nos? E crianças a rirem, como que felizes na praia? Confesso que não prestei a atenção que deveria. Não muito tempo depois, mas já na faculdade, vejo um Control que me levará definitivamente a “casa”: o lugar comum de quem acha a melancolia algo de normal e aceitável. De quem se sente bem a ouvi-la. De quem não está com crises existenciais, porque aceita a existência como ela vai aparecendo.

Passam-se dias até que ouça mais alguma coisa sem ser Joy Division (não, não estou a esquecer-me de nada: até o despertador mudou e o toque de telefone que ainda hoje é o mesmo, três telefones depois). Toda uma textura diferente. O baixo de Peter Hook (que anos mais tarde ouviria em Lisboa) a construir algo mais do que o simples preenchimento habitual do baixo, a tarola de Stephen Morris desafiante e persistente, os arranjos eletrizantes de Bernard Summer, e talvez o que mais me prende ainda hoje, a voz estranha de um rapaz que quando gravou o que eu estava a ouvir, era pouco mais velho que eu. Foi possivelmente a sua poesia depressiva, pesada, inquieta, mas robusta, que me prendeu.

Muito viria a ler sobre a curta vida de uma das minhas bandas de eleição, mas uma coisa me ficou desde essa altura: Unknown Pleasures é O álbum. Aquele a que regresso quando o mood assim o dita. Não, não o voltei a ouvir com a urgência frenética e fanática daqueles dias. Seria impossível. Viveria imersa na perpétua necessidade de salvação, e linha de baixo hipnótica, da minha faixa favorita:Disorder”. Os sentimentos evocados até à exaustão “Feelings, Feelings, Feelings”.

Este não é um registo de uma só tirada. Existem várias velocidades dentro do mesmo mecanismo. Várias sombras e tons do chamado post-punk que ajudaram a cunhar.

“When will it end? / Where will it end?”. O pedido apoteótico de Ian na segunda faixa do álbum, “Day of the Lords”, acompanha aquela que considero a música mais diversificada em termos sonoros, deste registo. Como se de uma grande procissão se tratasse.

“Candidate” fala-me de aproximações. Toda a música sugere um misterioso rondar de quem não sabe como chegar a quem está perto, mas longe em termos de universo pessoal (coisa que viria a ouvir em “Transmission” de forma mais clara). O destrancar de portas marca o início de “Insight”. Grande protagonismo da voz de Ian, bem como de alguns efeitos eletrónicos, numa espécie de hiato, como que de um refrão de repetição única se tratasse. “New Dawn Fades” mostra um lado melancólico da banda, que não descende diretamente da sonoridade dos registos anteriores (EP’s da era pós Warsaw). Uma bateria menos agressiva, com uma linha de baixo mais demorada.

A faixas mais claustrofóbica do álbum? “She’s Lost Control”. Relacionada com os problemas de saúde de Curtis, incute-me uma inegável sensação de eminente ocorrência de algo, uma espécie de sexto sentido da desgraça.  Ser apanhada, não sabendo quando. A scenerie de uma “Shadowplay” com tempo para o protagonismo da guitarra de Summer e um ritmo certeiro (com recorrência ao toque do esmalte), uma correria desmedida que lhes valeria uma aparição televisiva para a história.

A “dançabilidade” de Unknonw Pleasures concentra-se em “Wilderness” e na faixa seguinte. Mais afastada de cenários pesados e sombrios, há algum espaço para a energia adolescente que viríamos a conhecer em bandas muito mais tardias, nas irreverências dos primeiros dez anos deste século (aquelas que estavam muito na moda, quando descobri esta preciosidade). Somos então acelerados por uma bateria martelada e uma letra veloz (pouco monótona no entanto, a duas vozes até!), na dançável “Interzone”. O final do álbum é bem mais lento, marcado por compassadas batidas e notas de baixo. Vidros quebrados. “We were strangers/ For way to long” ecoa longamente. Um desfecho magnético, de um álbum pesado.

E o que fica depois? Depois de ter ouvido a masterpiece que ainda hoje me assombra, se a ouvir demasiado, mas onde tenho de voltar amiúde? Fica aquilo que for ficando: um registo cuja perceção vai mudando.  Uma certeza: não é por existir mil t-shirts iguais por esse mundo fora, ou por se achar que os seus prazeres desconhecidos já são demasiado conhecidos que vão deixar de me dizer muito, e de forma muito íntima.
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