16
TER
17
QUA
18
QUI
19
SEX
20
SAB
21
DOM
22
SEG
23
TER
24
QUA
25
QUI
26
SEX
27
SAB
28
DOM
29
SEG
30
TER
31
QUA
1
QUI
2
SEX
3
SAB
4
DOM
5
SEG
6
TER
7
QUA
8
QUI
9
SEX
10
SAB
11
DOM
12
SEG
13
TER
14
QUA
15
QUI
16
SEX

Lost in Reverie • O 25º aniversário de Loveless

03 de Novembro, 2016 ArtigosSara Dias

Partilhar no Facebook Partilhar no Google+ Partilhar no Twitter Partilhar no Tumblr

Leonard Cohen • Let us (not) compare mythologies

Jameson Urban Routes 2016 • O que esperar - Parte 2/2
LOVELESS SONOPRESS_POCKETPAC_6PP_UP1201161.indd

 

“The back of a girl in pink underwear, she leans at a big window, looking over Tokyo”


 

4 de novembro de 1991. É a data de lançamento de um dos discos mais influentes da história do shoegaze, da década de 90, e quiçá devido às suas influências tão abertamente amplas e assumidas, um dos lançamentos mais importantes da história da música contemporânea. Um quarto de século depois, Loveless não só se mantem vivo como floresce por todo lado: desde os iPod até ao computador, ou melhor ainda, em formato vinil ou CD numa das prateleiras prediletas lá de casa.

O que distingue Loveless de tantos outros discos não é só a sua inovação ou a sua genialidade associada à figura de Kevin Shields, é antes e acima de tudo, a forma como nos penetra no corpo, como cresce a cada audição. Este disco tem a capacidade de se tornar uma constante num mundo onde a música consegue ser efémera – com todo este acesso a quasi-infinitas possibilidades via as mais variadas formas de streams, um álbum acaba por se tornar passageiro. Hoje em dia, ouvimos mais álbuns que seria possível imaginar nos anos 90, não temos que comprar e a descoberta de novos artistas é cada vez mais facilitada: mas uma boa parte, senão mesmo a maioria, destes artistas ou álbuns andam connosco meses, se tanto. No entanto, há um espaço consumado para aqueles álbuns a que voltamos invariavelmente nas mais diversas fases da nossa vida, que se tornam quase parte do nosso quotidiano – e por extensão, marcam a nossa vida. São álbuns que transcendem a música uma vez que são uma tradução muito próxima, – e provavelmente até a mais próxima possível - daquilo que sentimos. É nesta transcendência, nesta relação tão pessoal que reside a razão pela qual voltamos sempre a Loveless, como num regresso mais-que-aguardado a casa.

Loveless tem uma essência e uma identidade muito própria – é a magnum opus dos My Bloody Valentine e do shoegaze em si. Remete-nos para a contemplação, talvez uma contemplação sôfrega, ainda assim. Não será difícil de imaginar Charlotte apenas com as suas cuecas cor de rosas de tom tão pálido quanto a sua pele, com headphones na cabeça, deitada na cama de um qualquer hotel sobre a cidade de Tóquio. Quarto esse iluminado pelos tons cinzentos de uma manhã morrinhenta e calado num silêncio, apenas entrecortado pelo barulho citadino 50 andares abaixo. No leitor de discos portátil – todos tivemos um destes em 2002, e já temos saudades decerto – ouvimos “Sometimes”. Talvez no nosso quarto às escuras, sem a mesma beleza oriental e sem a mesma ostentação pictórica (que tentei transmitir numa referência direta, mas reescrita de Lost in Translation), já tenhamos feito mesmo isto. É aqui que Loveless chega mais fundo: envolve-nos de uma melancolia sonolenta e serena manchada a erotismo e volúpia longínquos, de corpos intocáveis.

 

 “Close my eyes


Feel me now


I don't know how you could not love me now


You will know, with her feet down to the ground


Over there, and I want true love to grow


You can't hide, oh no, from the way I feel


 

24vmv7o MBV a atuar em Brisbane, Australia, 16 de novembro de 1991. Via OffsetGuitars forum.

 

Difundimo-nos numa quimera paradoxal que nos faz oscilar entre as guitarras densas, ruidosas e distorcidas de Kevin Shields e as vocais etéreas e sensuais de Bilinda Butcher. As letras, tal como nós, deambulam numa poesia vaga de palavras quasi-soltas, sempre com múltiplos sentidos e intangível à razão humana. Planeado a ser gravado em cinco dias, Loveless foi gravado durante dois anos (1989-1991) em dezanove estúdios diferentes – num processo de quase corte e colagem, Shields compôs o álbum praticamente sozinho. Em entrevista à revista Select, sobre a faixa “When You Sleep”, em 1992, Shields afirma: "We recorded the drums in September '89. The guitar was done in December. The bass was done in… er… April. 1990 we're in, now. Then nothing happens for a year really." So it doesn't have vocals at this stage? "No." Does it have words? "No." Does it even have a title? "No. It has a song number. 'Song 12' it was called. And… I'm trying to remember… the melody line was done in '91. The vocals were '91. There were huge gaps though. Months and months of not touching songs. Years. I used to forget what tunings I'd used."

Para além da troca de estúdios, o álbum também conheceu vários engenheiros de som: Nick Robbins e Harold Burgon, que segundo Shields, pouco contribuíram. É aqui que Alan Moulder entra em cena, para a gravação do EP Glider, em setembro 1990, por pressão da Creation Records. É em Moulder que Shields encontra o comparsa perfeito para a criação e materialização da sua ideia inicial. Neste EP já encontramos “Soon” faixa que mais tarde veio integrar Loveless. No entanto, Moulder saiu para trabalhar com os Ride, e Shields escolheu Anjali Dutt que assistiu na gravação das partes vocais de Kevin e de algumas pistas de guitarra. Em fevereiro de 1991 sai o EP Tremolo, que contem a faixa “To Here Knows Where”, também incluída no segundo longa-duração da banda irlandesa. Maulder, o engenheiro de som predileto de Shields, ainda voltou, mas quando se deu conta do escasso material que estes ainda tinham, optou por sair para trabalhar com os, já gigantes, The Jesus and The Mary Chain. Só em maio de 1991 é que Bilinda Butcher entra em estúdio para gravar as partes vocais, com Guy Fixen como engenheiro de som, que recorda: "We weren't allowed to listen while either of them were doing a vocal. You'd have to watch the meters on the tape machine to see if anyone was singing. If it stopped, you knew you had to stop the tape and take it back to the top.".

Para além de um processo de corte e colagem, Loveless também passou por um longo processo de experimentação. Com o epicentro em Kevin Shields – que acabou por afastar os outros membros dos My Bloody Valentine do processo de gravação – Loveless tem influências da Wall of Sound criado por Phil Spector e amplamente usado por Brian Wilson, em adição, o álbum foi completamente gravado em mono (não existe efeito de profundidade, a qualidade é menor que em stereo, dando um efeito lo-fi às pistas de guitarra). A distorção e a sonoridade distinta do álbum, de acordo com Shields, não provém de pedais como seria expectável. Afirma mesmo que nunca usou pedais chorus nem flanger como as restantes bandas de shoegaze. Toda a abordagem em estúdio foi feita de maneira diferente ao habitual: com um uso constante do tremolo da guitarra resultando no efeito conhecido como glide guitar que faz com que as cordas cedam ligeiramente e que o som alterne entre o afinado e o desafinado; com o uso de samples de feedbacks de guitarras que concedem ao álbum um ambiente atmosférico e mais denso; samples de bateria, alguns desses em loops como em “Soon”; e por fim, uma abordagem da voz enquanto instrumento, como mais uma textura sonora, um som que não se sobrepõe mas que se funde com os restantes sons do álbum. Novamente em citação de uma entrevista à revista Select, Shields afirma: "On 'When You Sleep' it sounds like me and Bilinda singing together, but it's just me – me slowed down and me speeded up at the same time. Some songs we sang over and over until we got bored – usually between 12 and 18 times. I started sorting through the tapes and it did my head in, so I just played them all together and it was really good – like one, vaguely distinct voice."

Loveless não é sobre o que diz: é sobre o que não diz, o que deixa implícito, sobre os pequenos fragmentos que se perdem no espaço in-between. É nos espaços vazios, nas palavras que ficaram por dizer, na vagueza das palavras ditas, naquele espaço que a palavra e a compreensão não chegam, que o disco encontra o seu apogeu. É do que fica “perdido na tradução” que Loveless se alimenta, acima de tudo que nos alimenta.

 

“Charlotte lies in bed awake. The clock says 4 a.m. Finally she gives up trying to sleep. (….) A hotel message envelope is under the door. She opens to see a typed note from the operator. From: Mr. Harris. Message: Are you awake? She smiles like she’s gotten a valentine”


 

 
por
em Artigos

Lost in Reverie • O 25º aniversário de Loveless
Queres receber novidades?
Comentários
http://www.MOTORdoctor.PT
Contactos
WAV | 2018
Facebook WAV Twitter WAV Youtube WAV Flickr WAV RSS WAV
Queres receber novidades?