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Mastodon - Crack the Skye (2009) | Máquina do Tempo #14

24 de Março, 2019 ArtigosPedro Sarmento

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Tudo começou com o fogo, o elemento vermelho. Da destruição, da morte, da remissão e do poder. Seguiu-se a água. A azul fluidez, a demência líquida de e pelas criaturas marítimas. Depois veio a terra. A montanha que se ergue bem alto, a gruta que se esconde tão fundo. Remission, Leviathan e Blood Mountain: assim se cumpre o caminho de Mastodon. A história ditou que fosse o éter, o elemento místico que preenche o vazio entre a terra e o universo, o próximo passo. Um autêntico salto para o desconhecido, para o espaço, para a quintessência. Crack the Skye não foi apenas uma mudança de direcção, mais uma expansão para todos os lados, planos e dimensões. Nas palavras de Troy Sanders, baixista/vocalista:

Crack the Skye is a departure from everything we’ve previously recorded, (…) we kind of strapped on our aeroshells and departed from Earth, and then captained to the ethereal element of the universe.”

Dez anos passaram desde o lançamento do magistral trabalho do quarteto de Atlanta, e o momento é ideal para a retrospectiva homenagem. De todos os seus trabalhos posteriores, ainda que do agrado da maioria dos fãs, nenhum é colocado no pedestal que só a Crack the Skye se reserva. A influência de rock progressivo é inegável. Rush, King Crimson, Pink Floyd, todos eles com o seu quinhão de homenagem na obra. Conceptualmente, o álbum assenta numa mistura de estética da Rússia czarista, deslocamento astral e atalhos no contínuo espaço-tempo. Tudo isto é cozinhado numa narrativa que revolve em torno de um personagem paraplégico, cujo único modo de movimentação é através de out-of-body experiences. Nestas viagens, percorre o espaço sideral até que, por descuido, rompe o dourado cordão umbilical que lhe permite o regresso ao corpo e se vê perdido num reino espiritual, sendo encaminhado para personificar Rasputin, o grande místico russo. Simultaneamente, o álbum é também uma homenagem à irmã do baterista, Skye Dailor, que cometeu suicídio com 14 anos. Curiosamente, é este o primeiro trabalho da banda em que Brann Dailor partilha as funções de vocalista, prática que se viria a consolidar nas obras seguintes.

Nesta viagem da máquina do tempo, reencarnamos o protagonista do álbum e viajamos ao longo das suas sete magníficas paragens, despendendo o tempo necessário à devida contemplação. Uma viagem dentro de uma viagem. Uma meta-viagem e um meta-protagonista.

Despertamos. Não nos conseguimos mexer. Paralisados, olhamo-nos de fora de nós próprios. Somos projecção imaterial. Soa “Oblivion”. O gravíssimo dó do riff inicial vinca a letargia em que nos encontramos. A dado momento, somos catapultados e lançados à deriva aos ombros de um novo motivo musical. Num gesto audacioso, a banda confronta-nos com a voz de Brann Dailor, seguida de Troy Sanders e por fim Brent Hinds, não passam ainda dois minutos do início do álbum. Todas elas possuem texturas particularmente diferentes, lembrando entidades divinas com idiossincrasias vincadas que se espalham através do cosmos. Como que encerrados num ciclo, a estrutura da composição repete-se e estamos presos no oblívio, presos no oblívio, presos no oblívio.

Do fundo do vazio universal, quebramos as impossibilidades físicas e escutamos o resultado sonoro da teoria das cordas. “Divinations” é primeiro um banjo que se sente em seis batidas, mas que rapidamente se funde numa valsa alucinante com a entrada da bateria. O nosso percurso afunila-se. O que outrora nos parecia aberto, torna-se um túnel. O que se nos afigurava negro, vira brilho espiritual e eles estão em todo lado, assumindo todas as formas. Não há como escapar. Em conluio, combinam ajudar-nos. Nesse segundo minuto da composição, escutamos um riff de surf rock que nos transporta para Pulp Fiction, para “Misirlou”. Mas já não sabemos o que isso é. Não sabemos nada, não somos nada, mas sê-lo-emos em breve: a mando das misteriosas entidades espirituais, surfamos a corrente cósmica ao estilo de um qualquer Surfista Prateado sem matéria, e somos transportados para o seio místico do czarismo russo, para o corpo do misterioso Rasputin.

O rasgado riff mostra-nos o que somos. Somos éter que se cola e se mistura. Somos “Quintessence”. O velho sábio russo sabe que algo de errado se passa, algo está diferente com ele. Como um parasita paciente, segredamos-lhe que está tudo bem, que basta que se deixe ir. O marado motivo melódico imita alguém que sofre de psicose, que se debate internamente, e, num nível superior, as mudanças de nuance entre as várias secções do tema reforçam essa ideia. O final é aceitação. Viemos para ficar e Rasputin sabe isso. Aceita-o. Aceita-nos.

Belo, de uma beleza apaziguadora e hipnotizante. Belo como o sorriso de quem aceita, sem reservas, quem é, quem foi e quem será. Assim começa “The Czar”, o tetríptico sonoro do álbum. O nosso destino está selado: a tentativa falhada de usurpação da coroa por Rasputin leva-nos à fuga, ao medo. As guitarras frenéticas do minuto quatro indicam-nos que escapar é a única solução, ainda que simultaneamente salvação e perdição, sentença e absolvição. Num último infrutífero esforço, somos encurralados e assassinados, a nossa alma separada do invólucro físico. A par com Rasputin, somos projecção astral, conteúdo sem matéria. Por cima das nossas cabeças, uma espiral de cores impossíveis revela-nos a falha no céu. Por ali seguiremos os dois, “leaving material world behind”.

Ritmo e lamento. Entra “Ghost of Karelia”. A frase musical é própria do nosso estado: derivamos, lamentamos, assumimos. A nossa alma e a de Rasputin são agora aliadas. Em conjunto, traçamos o plano final para retornar ao início, à matéria de cada um, e começamos a viagem com “Crack the Skye”. Os demoníacos pulmões vibram as cordas vocais de Scott Kelly, o amigo de Neurosis, que duela com a angelical voz de Brann Dailor, simbolizando o embate que enfrentamos nesta viagem de regresso. O inimigo é o mal, o ser das trevas, o negro. A metáfora com a catástrofe que abalou a família do baterista é dolorosa. Lembrando o suicídio da irmã criança, num comovente verso tirado do baú da infância, cheio de dor e saudade, surge:

Momma don’t let them take her
Take her down
Please tell Lucifer he can’t have this one
Her spirits too strong

O confronto final abre com “The Last Baron”. Aqui, com a orientação e apoio de Rasputin, decidiremos o nosso fado. O tema mais épico da discografia da banda abrange uns propositados 13 minutos místicos. Neste espaço-tempo, enfrentaremos tudo. Passamos pela balada melancólica, marchamos ao som da tarola militar, prontos para o combate, relembramos o sentimento de oblívio e vazio com riffs ao estilo da primeira faixa, homenageamos os deuses do rock progressivo de décadas passadas (com carinho especial para os magníficos Rush e o seu cromático “YYZ”). Vencemos tudo. Seguimos triunfantes e a recompensa é o melhor riff que a banda já produziu, rompendo todos os nossos sentidos, ao minuto 8:20. Podemos senti-lo, apetece trincá-lo. É um organismo vivo por si. Palpável. A nossa viagem terminou e agora resta a memória, a lembrança de que tudo impossível foi possível.

De volta ao nosso eu não-metafísico, olhando para um qualquer ecrã luminoso que projecta este texto digitalmente, é assim que recordamos o quando, o quem e o quê: 2009, Mastodon, Crack the Skye.

 

Nota: Este autor utiliza o Antigo Acordo Ortográfico.
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