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Neue Deutsche Welle – Um love affair pela identidade alemã

15 de Junho, 2016 ArtigosCatarina Reis

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The Bug e o Cubismo Sonoro

NOS Primavera Sound 2016 • O que esperar – Parte 3/3
1 Ocupas em Berlim, 1982

Não é possível referir este movimento artístico, que nasceu em Berlim, sem o enquadrar devidamente na derrotada Alemanha a sofrer o rescaldo da 2ª Guerra Mundial, cuja principal consequência foi a sua divisão pelas potências vencedoras. Tendo em conta a importância económica de Berlim, apesar da cidade se encontrar bem no interior do sector soviético, também esta foi repartida. A parte Ocidental ficou sob a alçada do capitalismo e da liberdade de expressão vigentes nos países pertencentes à NATO. A parte Oriental ficou incluída na Cortina de Ferro Soviética onde vigorava o comunismo, o controlo de imprensa e a repressão do associativismo. Inicialmente todas as partes pareciam empenhadas na reconstrução e reorganização da Alemanha, mas com o passar do tempo, as diferenças ideológicas levaram a que se instaurasse um clima de desconfiança que ficou conhecido por Guerra Fria. Na iminência de uma 3ª Guerra Mundial ambos os Blocos investiram em tecnologia, armamento nuclear e espionagem travando jogos psicológicos e competindo ferozmente em eventos desportivos e na corrida ao Espaço como forma de mostrar o seu poder.

Berlim Ocidental tornou-se, portanto, uma ilha e uma prisão. Ficou para a história o Bloqueio de Berlim em que, entre 1948 e 1949 a União Soviética cortou todos os acessos terrestres à parte ocidental da cidade, obrigando os países da NATO a criar uma ponte aérea para fornecer mantimentos à população. O cúmulo do isolamento foi atingido a 13 de agosto de 1961. Nessa manhã, os berlinenses acordaram com a sua cidade dividida artificialmente já que, durante a madrugada, a União Soviética mobilizara toda a mão-de-obra disponível para erigir, em seu território, o Muro de Berlim. Este muro, com cerca de 155 km de perímetro, delimitou Berlim Ocidental durante 22 anos. Para além de consequências sociais, este isolamento também se refletiu na arquitetura da cidade, já que a capacidade de reconstruir os edifícios destruídos durante os bombardeamentos foi praticamente aniquilada. Tendo em conta este enquadramento agreste e, para evitar que Berlim Ocidental se transformasse num local ermo e suscetível de ser engolido pela União Soviética, foram criados incentivos para promover a fixação de população. Para além do nível de vida ser muito baixo, eram atribuídos subsídios e isenção do serviço militar obrigatório a quem lá fixasse residência. Deste modo, aos idosos que persistiam estoicamente no lugar onde sempre viveram juntaram-se imigrantes, hooligans, desertores, ocupas, hippies, punks, músicos, cineastas e artistas. O principal destino deste movimento migratório foi o bairro de Kreuzberg, cercado em três frentes pelo Muro de Berlim.

E porque a droga sempre funcionou como um desbloqueador de atritos à criação no meio artístico, é curioso verificar que o fornecedor deste bairro era mesmo Berlim Oriental. O haxixe e a heroína vinham do Afeganistão que, em 1979, foi invadido pela União Soviética. Já o LSD era produzido em Berlim Oriental com o sentimento de ter na mão o envenenamento e o consequente enfraquecimento do capitalismo. Permanece um mistério como é que a drogaria contornava o apertado controlo aplicado nas imediações do Muro de Berlim. Não será descontextualizado pensar que os guardas tinham aqui um passatempo para as suas horas mortas de vigilância e uma preciosa ajuda na rudimentar economia familiar que o comunismo lhes impunha.

Em terra de ninguém, a anarquia e a filosofia “Do It Yourself” do movimento punk proliferaram, criando-se um micro-ecossistema pleno de inspiração, experimentalismo e avant-garde, resultante também da intersecção de diferentes culturas e backgrounds. Enquanto no Reino Unido o aparecimento do punk estava associado ao proletariado, na Alemanha os principais apoiantes eram jovens que ainda estudavam. O fim do boom económico do início dos anos 70 teve um grande impacto nas gerações mais novas. O falhanço nas políticas de desarmamento de ambos os Blocos ainda aumentou mais o ceticismo que culminou na recusa do pacifismo do movimento hippie. Procurava-se encontrar uma nova forma de expressão que celebrasse o urbanismo e o charme áspero das regiões industriais. Para materializar essa opção, os cabelos curtos começaram a ser usados em detrimento dos longos cabelos associados aos hippies. O medo do futuro e a constante ameaça nuclear fizeram com que o slogan “No Future” fizesse todo o sentido e fosse utilizado como forma de rebelião contra as gerações mais velhas.

Em 1978, o britânico Mark Reeder mudou-se para Berlim como representante da Factory e da Virgin Records. Os seus conhecimentos como Engenheiro de Som facilitaram a sua integração no panorama musical. Embora o que o tenha levado a empreender esta mudança tenha sido o novo rock progressivo e a música eletrónica experimental, cedo se apercebeu que o Krautrock, apesar de não ter desaparecido, estava a ser substituído por um novo movimento. A associação momentânea de um determinado conjunto de condições físicas, políticas, culturais e simbólicas despoletara uma dinâmica muito inventiva e imprevisível. O aparecimento desta nova corrente surgira da necessidade de, num país fragmentado há 30 anos onde as decisões eram tomadas à margem dos interesses dos próprios alemães, construir uma nova identidade alemã. Tendo em conta a concentração de artistas por metro quadrado, Berlim Ocidental constituiu o nicho ideal para o nascimento desta nova vanguarda. A geração de então não se revia nos erros das gerações anteriores e não queria mais pagar por um passado no qual não interferira. É ilustrativa desta aversão com o passado o que se passou no único concerto dos Joy Division em Berlim. Mark Reeder desunhou-se para os trazer à cidade emparedada por achar que se enquadravam perfeitamente na sonoridade da nova vaga. Contudo, como os uniformes usados pelos membros da banda tinham demasiadas semelhanças com as fardas da juventude hitleriana, o concerto ficou, logo à partida, condenado a fracassar.

O movimento vanguardista emergente foi batizado, em 1979, com o nome de Neue Deutsche Welle (NDW) que significa, literalmente, New Wave Alemã. Este termo teve duas origens marcantes. Foi o rótulo que Burkhard Seiler, dono da loja de disco Zensor, atribuiu à prateleira onde dispunha os discos das novas bandas alemãs de sonoridade sombria. Esta designação foi reforçada por Alfred Hilsberg, dono da ZickZack Records, que o utilizou no seu artigo “Neue Deutsche Welle – From Grey Cities’Wall” publicado na Sounds em outubro de 1979. Na ausência de apoios à divulgação e distribuição, as lojas de discos tornaram-se importantes interfaces com o público e eram o ponto de encontro dos artistas. O SO 36 (cujo nome remete para o código postal da zona do bairro de Kreuzberg onde se localizava) era um antigo supermercado que foi convertido em sala de concertos e performances. Transformou-se no CBGB berlinense e constituía o local onde todos queriam tocar e que todos frequentavam para conhecer projetos alheios.

 

2 Einstürzende Neubauten no Festival “Berlin Atonal” no S0 36 em 1982

 

A NDW, embora tivesse por base o Punk, a New Wave e influências eletrónicas da chamada Berlin School, caracterizou-se por ser um movimento que, por princípio, rejeitava a cultura Anglo-Americana. Uma vez que a sonoridade era bastante heterogénea a NDW instalou-se, acima de tudo, como uma corrente estética. Se inicialmente se mantinha a formação punk clássica de guitarra, baixo e bateria, com o passar do tempo surgiram bandas que adicionaram experimentação sofisticada através do uso de sintetizadores, explorando-se assim a relação ser humano – máquina. Sintetizadores como o Korg MS20 e o Yamaha DX7 tornaram-se disponíveis a baixo preço devido ao aumento da procura. A NDW surgiu numa altura de acentuados avanços tecnológicos em que os artistas testavam as fronteiras. Os músicos, apesar de não serem profissionais, demonstravam grande capacidade de adaptação às novas tecnologias e, simplesmente, faziam o melhor que podiam. Todo esse empenho transparecia no seu trabalho. Bandas como os Einstürzende Neubauten recorriam a todo o tipo de instrumentos rudimentares e improváveis a que conseguissem deitar a mão, incluindo eletrodomésticos. Entre os seus fornecedores encontravam-se os estaleiros de obras.

 

3 Mais um espaço ocupado para fins recreativos em Berlim, 1981

 

As incoerências no processo de desnazificação conduzido pelos países da NATO continuavam à vista de todos. Pessoas que outrora tinham pactuado com o Regime Nazi continuavam a ocupar posições governativas de destaque. Por outro lado, estava sempre presente o medo da eventual invasão comunista. Assim, os nomes das bandas eram praticamente todos em alemão e remetiam para o passado e presente do país. A título de exemplo, o nome da banda ZK fazia referência ao medo da invasão comunista e aos campos de trabalho na Sibéria, pois ZK era a abreviatura de Zaklyuchennyi que significa prisioneiro em russo. O nome da banda D.A.F era a abreviatura de Deutsch-Amerikanische-Freundschaft que designava, depreciativamente, a amizade oportunista e desigual que os Estados Unidos travaram com a Alemanha. Já o projeto Freiwillige Selbstkontrolle tinha o objetivo de difamar o comité que foi criado para classificar os filmes em exibição na Alemanha Ocidental. O vocalista dos Fehlfarben trabalhava na linha de montagem da multinacional americana Xerox e escolheu, para nome da sua banda, a palavra que designava os erros de impressão. Os Die Krupps devem o seu nome à poderosa família Krupps, detentora do monopólio industrial da produção de armamento antes e durante a 2ª Guerra Mundial. O objetivo dos X-mal Deutschland era enaltecer a Alemanha como país já que X-mal significa inúmeras vezes. Na banda feminina Mania D, o D é um elogio à Alemanha. Já que Einstürzende Neubauten significa abate de novos edifícios, é natural pensar que o nome derivava da permanente tensão com a polícia originada pela ocupação de edifícios vazios para fins culturais e habitacionais. Esta pequena amostra permite-nos concluir que tudo tinha um significado real e, musicalmente, tirava-se partido da fonética particular da língua alemã que tornava a sonoridade mais fria, áspera e cortante. Quanto às letras, os temas eram bem reais e não oníricos ou utópicos, havendo confronto em vez de harmonia. Se no punk britânico as letras eram diretas e sem grandes artefactos, na NDW as letras eram peculiares, tinham ambições artísticas e envolviam citações de grandes clássicos.

Foram muitos os projetos que foram aparecendo da simples vontade de criar algo que refletisse o estado de espírito e que servisse para dissipar energias. Gudrun Gut esteve envolvida nas Mania D que entretanto se transformaram nas Malaria!. Nina Hagen foi uma das poucas pessoas a conseguir autorização para se mudar de Berlim Oriental para Berlim Ocidental. Fundou a Nina Hagen Band que, em 1978, editou o seu álbum homónimo onde se incluía o hit Auf’m Bahnhof Zoo que fazia alusão à estação de comboios do Jardim Zoológico, o único local de saída de Berlim Ocidental e um sítio de toxicodependência e prostituição imortalizado por Christiane F. na sua autobiografia que, em Portugal, ficou conhecida como “Os Filhos da Droga”.

Mas conseguiram estes artistas fugir indefinidamente à indústria ou acabaram por, inevitavelmente, ser apanhados? O aumento de publicidade originado não só pelo artigo de Alfred Hilsberg mas também pela televisão e rádio levou a que a EMI e a CBS cedo reconhecessem o potencial desta vaga e começassem a apoiar este som extensivamente. A partir de 1983 tudo mudou quando a indústria discográfica começou a incluir debaixo do guarda-chuva NDW tudo o que fosse cantado em alemão. A inclusão da televisão e da rádio nos principais meios de divulgação fez com que muitas bandas NDW, ao tentarem uma adaptação à nova realidade, se tivessem subjugado a regras que os faziam abdicar dos seus próprios princípios. Estas circunstâncias foram determinantes na divisão do movimento em duas categorias: a underground com fundações “Do It Yourself” e a mainstream que, longe das raízes originais, invadiu o mercado. Um dos hits mais badalados foi 99 Luftballons de Nena. A génese da componente mainstream esteve relacionada com o clima artístico que se estabeleceu em algumas cidades pequenas que apoiavam, com infraestruturas e instrumentos, os músicos que tocassem música popular alemã (Schlager). Estas bandas estavam longe da influência do Punk e Dark Wave mas também eram genuinamente alemãs, embora as letras fossem menos rebuscadas. Este alargamento ao Schlager fez com que as fronteiras do movimento ficassem enfraquecidas.

No entanto, ainda hoje Berlim funciona como retiro de inspiração para residências artísticas. David Bowie, ao mudar-se para a cidade em 1976, criou um precedente e uma espécie de regra que ditava que todo o artista digno desse nome deveria ter o seu período de Berlim. Os anos que Bowie lá passou foram dos mais criativos da sua vida, tendo culminado com a gravação da famosa Trilogia de Berlim (“Low” (1977), “Heroes” (1978) e “Lodger” (1979)) nos Hansa Studios e com a ajuda de Tony Visconti e Brian Eno. A David Bowie seguiu-se Iggy Pop que deu em Berlim os primeiros passos na sua carreira a solo editando, em 1977, os álbuns “The Idiot” e “Lust for Life”. Em 1982, também o australiano Nick Cave e os seus Birthday Party, desiludidos com a cena musical londrina e sem conseguirem suportar o elevado custo de vida, se mudam para a cidade. Foram eles que lançaram a moda dos cabelos espetados e dos sapatos pontiagudos.

Os Einstürzende Neubauten foram das poucas bandas que conseguiram fazer uma ténue passagem para o mainstream sem comprometerem a sua atitude. Uma vez que as suas atuações envolviam a produção de som a partir de objetos metálicos e, muitas vezes, atos de destruição em pleno palco foram considerados os Pais do Industrial. Constituíram influências basilares para bandas como Depeche Mode, Nine Inch Nails, Rammstein ou Marilyn Manson. Quanto à componente electrónica da música alemã, esta continuou a evoluir e originou o panorama Techno que ainda hoje floresce em Berlim, representado por nomes como Modeselektor, Apparat e Moderat. Já Nina Hagen é considerada uma das Madrinhas do Punk tendo influenciado artistas como Siouxsie Sioux, PJ Harvey ou Courtney Love.

 

4 Nina Hagen em 1982

 

A meu ver, a evolução da própria NDW foi um presságio da queda do Muro de Berlim e da consequente reunificação do país em 1989. A Alemanha queria ser una, mas considerando toda a heterogeneidade gerada pela divisão do território, o esbatimento das fronteiras da NDW pode ser visto com uma resposta à necessidade de criar espaço para todos no processo da devolução da Alemanha aos alemães. Deste modo, embora a incorporação da componente mainstream na NDW pareça ter uma conotação negativa, também pode ser interpretada como um passo de transição fundamental e em direção ao futuro. O Muro caiu e, embora ainda prevaleçam alguns resquícios daqueles tempos, o clima em Berlim Ocidental nunca mais foi o mesmo. Estudos revelam que os anos 80 são a década preferida dos alemães por ter sido nessa altura que a constante tensão entre política e cultura permitiu a definição de ideais e a formalização de uma luta com base avant-garde por algo profundamente nacionalista. Passados 27 anos da queda do Muro, Berlim não esquece esse período tão especial e, após a morte de David Bowie em janeiro de 2016, os residentes da cidade lançaram uma petição online para mudar o nome da Hauptstasse (rua onde Bowie viveu) para David Bowie Strasse.

 

5 David Bowie junto ao muro em 1977

A NDW foi um fenómeno que continua a influenciar o panorama musical contemporâneo e a partir do qual se diferenciaram muitas correntes estéticas que hoje se estabeleceram como género: EBM (Electric Body Music), New Beat, Industrial, Trance, Dark Wave, Electrocash, Dance Punk, Minimal Techno, Synth Pop, Acid House e Electro Punk.
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