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Nico • A metamorfose da Barbie numa Living Dead Doll

20 de Março, 2017 ArtigosCatarina Reis

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Nico foi apenas a faceta mais visível de Christa Päffgen. Dúvidas há quanto à data e ao local do seu nascimento, tendo em conta os momentos conturbados que se viviam numa Europa onde o nazismo ganhava terreno e a 2ª Guerra Mundial parecia inevitável. No entanto, há uma certa tendência para considerar mais provável que Christa tenha nascido em Colónia a 16 de Outubro de 1938, filha de pais de origem espanhola e jugoslava. Pensa-se que o seu pai, a par de servir o exército do Terceiro Reich, também encobriria judeus, tendo essa circunstância determinado a sua eliminação por parte do regime. Devido aos bombardeamentos levados a cabo pelos Aliados, muitos dos dias da infância de Christa foram passados no refúgio dos abrigos, ao mesmo tempo que a própria Alemanha era invadida pela União Soviética. Christa cresceu assim como uma menina séria e circunspecta, nunca conseguindo recuperar das atrocidades presenciadas e da ausência de uma figura paternal na sua vida.

Em 1946 mudou-se com a mãe para Berlim. Eram tempos difíceis e por isso abandonou a escola começando a vender lingerie aos treze anos. A sua beleza ariana chamou a atenção das pessoas certas e, ao fim de alguns anos, começou a trabalhar como modelo para a Vogue, Elle e mesmo Coco Chanel, viajando por toda a Europa, especialmente Paris. Foi o fotógrafo Herbert Tobias que a baptizou como Nico por achar que Christa era um nome demasiado anguloso para singrar no mundo da moda.

Em 1959 a formosura de Nico transportou-a para o set do filme La Dolce Vita de Federico Fellini e, em 1960, a Agência de Modelos Ford proporcionou-lhe uma estadia em Nova Iorque. Na cidade de todos os sonhos, ela matriculou-se na Lee Strasberg’s Method School com o objectivo de também consolidar a sua carreira de actriz. Ficou na mesma turma que Marilyn Monroe.

Entretanto regressou à Europa e, em 1962, nasceu o seu filho Ari, fruto do relacionamento com o actor Alain Delon, que nunca reconheceu a paternidade. A instabilidade associada à carreira de modelo e actriz levou a que a guarda de Ari fosse entregue aos pais de Delon.

Em 1964 Nico conhece Brian Jones e Andrew Loog Oldham, respectivamente guitarrista e manager dos The Rolling Stones. Apesar de se ter envolvido com Jones, ambos foram determinantes na sua entrada no mundo da música, permitindo-lhe gravar em 1965 o single “I’m Not Sayin” pela Immediate Records com a produção de Jimmy Page. Nesta altura, Nico também se relacionou com Bob Dylan, que a incentivou a seguir carreira e até lhe cedeu uma canção como forma de encorajamento. Uma vez em Nova Iorque, Dylan levou-a à Factory e apresentou-a a Andy Warhol. Este, vidrado na sua fisionomia burilada e vendo no nome de Nico o anagrama de Icon, transformou-a numa das suas muitas musas.

Inicialmente as colaborações com o artista de pop art limitaram-se a aparições nos seus filmes experimentais nomeadamente no polémico Chelsea Girls (1966). Entretanto Warhol tinha-se tornado manager dos The Velvet Underground de Lou Reed e John Cale. Para quebrar a estética escura e monótona da banda, introduziu Nico como vocalista. Esta inclusão não foi consensual pois, sendo Nico surda de um ouvido, estava sempre a ser acusada de estar fora de tom e a sua performance não era reconhecida. Os atritos resultantes do envolvimento com Lou Reed também não ajudaram muito. Ainda assim, ela foi vocalista principal em “Femme Fatale”, “All Tomorrow’s Parties”, “I’ll Be Your Mirror” e desempenhou o papel de backup singer em “Sunday Morning”. Em Março de 1967 saiu The Velvet Underground and Nico, o famoso álbum da capa da banana concebida por Andy Warhol, que atingiu o 13º lugar na “Lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos” da revista Rolling Stone.

 


The Velvet Underground and Nico: 1 Sunday Morning (00:00); 2 I'm Waiting for the Man (02:53); 3 Femme Fatale (07:34); 4 Venus in Furs (10:12); 5 Run Run Run (15:24); 6 All Tomorrow's Parties (19:48); 7 Heroin (25:47); 8 There She Goes Again (33:00); 9 I'll Be Your Mirror (35:43); 10 The Black Angel's Death Song (37:55); 11 European Son (41:10)

 

A entrada de Nico nos The Velvet Underground foi tão discreta quanto a sua saída. Ainda participou com a banda nos eventos performativos dos Exploding Plastic Inevitable de Andy Warhol mas, entretanto, começou a cantar a solo em bares contando com as colaborações de Tim Buckley, Jackson Browne e dos próprios The Velvet Underground.

No Verão de 1967 (o conhecido Summer of Love e um dos momentos altos do movimento hippie) Nico conheceu Jim Morrison na Califórnia. No pico da filosofia Peace and Love, o seu relacionamento ultrapassou inevitavelmente a amizade. Como modelo, Nico vivia num mundo de aparências e futilidades que não lhe dava a confiança e notoriedade necessárias para avançar a nível artístico com a sua carreira a solo. Foi Morrison quem lhe deu o empurrão final ao ensinar-lhe o seu método para escrever canções: registar sonhos e imagens em bruto para depois, com a eventual inspiração de autores clássicos, transformar em poesia. Aqueles foram tempos muito profícuos em termos de sonhos e imagens já que Nico e Jim passavam grande parte do seu tempo a consumir peyote, um cacto com propriedades alucinogénias semelhantes ao LSD que crescia livremente no deserto da Califórnia. Nico ficou eternamente agradecida a Jim Morrison por esta lição e referiu-o várias vezes ao longo da sua carreira.

 

Chelsea Girl – 1967


 


Chelsea Girl: 1 The Fairest of Seasons (00:00); 2 These Days (4:08); 3 Little Sister (7:41); 4 Winter Song (12:08); 5 It Was a Pleasure Then (15:29); 6 Chelsea Girls (23:34); 7 I'll Keep It With Mine (30:59); 8 Somewhere There's a Father (34:20); 9 Wrap Your Troubles In Dreams (36:39); 10 Eulogy to Lenny Bruce (41:50)

 

Em Outubro de 1967 Nico grava, pela Verve Records em Nova Iorque, o seu primeiro álbum a solo, Chelsea Girl. Da separação dos The Velvet Underground resultou uma divisão de canções das quais Nico aproveitou “Little Sister” e “Wrap Your Trouble in Dreams”. “I’ll Keep It With Mine” tinha-lhe sido cedida por Bob Dylan há uns anos atrás. A sonoridade revelou-se muito simples e associada à folk e pop dos anos 60, assente em guitarras e teclados. O produtor Tom Wilson recusou-se a inserir elementos de percussão e, em vez disso, introduziu arranjos de instrumentos de corda e de sopro que muito desagradaram a Nico pelo tom paradisíaco que davam às suas canções. Destacou-se a canção “It Was a Pleasure Then”, em que Nico apareceu também como compositora. Com cerca de oito minutos, este é o tema mais longo e menos acessível do álbum e também a faixa-presságio do tom que pautaria o resto da sua carreira a solo. Assim começa a faceta de Nico que poucos conhecerão e cujos principais ingredientes são a dissonância, o experimentalismo e o atonalismo.

 

The Marble Index – 1968


 


The Marble Index: 1 Prelude (00:00); 2 Lawns of Dawns (00:59); 3 No One Is There (04:11); 4 Ari's Song (07:47); 5 Facing the Wind (11:08); 6 Julius Caesar (16:05); 7 Frozen Warnings (21:06); 8 Evening of Light (25:08)

 

Habituada desde muito nova a ser autónoma, poderemos ser induzidos a pensar que Nico se aproveitou da sua aparência como forma de sobrevivência para conseguir uma rede de contactos que a ajudaria a concretizar as suas ideias. Querendo descolar-se da imagem associada ao vazio da moda por ter atingido a confiança artística que almejava como poetisa songwriter, Nico mudou radicalmente de visual. Aliás, a nova sonoridade sombria assim o exigia. Deixou de ser o sol para se transformar na lua e, deste modo, abandonou o loiro ariano que tão bem a caracterizava passando a pintar o cabelo de preto ou ruivo. O seu vestuário tingiu-se exclusivamente de preto e nos seus pés passaram a andar apenas botas para vincar a agressividade e androgenicidade.

Em Novembro de 1968 Nico grava em Los Angeles pela Elektra Records The Marble Index, produzido por John Cale, o seu colega dos The Velvet Underground. Trata-se de um registo enigmático, extremo e vanguardista, completamente diferente de tudo o que se fazia na América ainda a viver os resquícios folk dos hippies que celebravam a Paz e o Amor, algo que Nico não sentia dentro de si e que transpareceu para o tom obscuro do álbum. Desta vez todas as letras e músicas foram escritas por Nico, um grande passo em relação ao álbum anterior. Numa altura tão colorida musicalmente, a digestão de The Marble Index ainda foi mais difícil por ser uma carta completamente fora do baralho. A sonoridade afastou-se do folk e aproximou-se do volk (música folclórica alemã). Um dos elementos primordiais na definição da musicalidade foi a utilização do harmónio, uma espécie de órgão de válvulas associado ao paganismo pelo seu som ancestral. Este regresso às origens constitui um dos pressupostos do movimento proto-punk. Não está totalmente desvendada a história de como é que o harmónio foi parar às mãos de Nico mas pensa-se que tenha sido através de Leonard Cohen. Nico desenvolveu uma forma única de o tocar porque, como não dominava o instrumento, tocava-o de um modo repetitivo. O harmónio gerou uma atmosfera mórbida de suspense que contrabalançava com a sua voz monocórdica e grave, que chegava a lembrar um coro gregoriano. Cale enriqueceu toda a composição com arranjos musicais, tornando as canções mais complexas através da introdução de vários efeitos sonoros. Tendo como inspiração o trabalho que desenvolveu com o compositor minimalista La Monte Young e influências da música clássica europeia, nomeadamente do compositor alemão Wagner, Cale explorou os extremos do sistema tonal. Como adepto do movimento no wave que desconstruía os cânones e axiomas pré-concebidos, preferiu esta base em detrimento das influências orientais que, fruto das incursões hippies à Índia, inundavam o panorama musical. Esta roupagem satisfez plenamente Nico, que se comoveu com o trabalho de Cale. Em consequência disso a colaboração entre ambos estendeu-se por mais três álbuns.

Tal como Jim Morrison sugerira para a escrita das letras das músicas, Nico viu neste trabalho uma espécie de purga para extravasar as paisagens psicóticas que povoavam o seu interior, decorrentes de traumas de infância, desgostos amorosos e da dependência de heroína. Para exorcizar o que lhe ia na alma ela recorreu à enunciação (enumeração de factos sem grande emoção) o que torna as músicas etéreas, amorfas e surreais. Devido à sua instabilidade e modo de materializar os seus demónios há quem a compare à poetisa Sylvia Plath. “Lawn of Dawns” é, claramente, uma faixa que remete para o tempo passado com Morrisson na Califórnia. “Ari’s Song” é uma desoladora e desconfortável canção de embalar que Nico dedica ao seu filho, cuja tutela lhe foi retirada. “Facing the World” é muito dissonante e incomoda pela colagem inquietante de sons. Em “Evening of Light” os elementos electrónicos têm um papel muito forte na criação de uma atmosfera trágica, sinistra e, simultaneamente, hipnotizante. Iggy Pop foi um dos protagonistas no videoclip desta canção.



The Marble Index foi caracterizado como art rock, uma vez que força manifestamente as fronteiras entre o que é considerado entretenimento e o que é considerado arte. Foi classificado como inacessível por ser frio e repleto de sons estranhos, o que se reflectiu no reduzido sucesso comercial. Isso e o comportamento irresponsável de Nico ditaram o fim da colaboração com a Elektra Records.

Em 1969 Nico conhece o realizador de cinema da Nouvelle Vague francesa Phillipe Garrel com quem desenvolve um relacionamento conturbado, mas relativamente longo. Ela participou como actriz e colaborou na banda sonora de vários dos seus filmes. Algumas das fotografias tiradas nos sets foram usadas como capas para os álbuns.  

 

Desertshore – 1970


 


Desertshore: 1 Janitor of Lunacy (00:00); 2 The Falconer (04:05); 3 My Only Child (09:49); 4 Le Petit Chevalier (13:20); 5 Abschied (14:35); 6 Afraid (17:41); 7 Mutterlein (21:12); 8 All That Is My Own (25:53)

 

A The Marble Index seguiu-se, em 1970, Desertshore editado pela Reprise Records em Paris. A John Cale junta-se, na produção, Joe Boyd, um adepto do naturalismo e da contenção. Tais preferências levaram a que os arranjos musicais se tornassem mais simples dando mais destaque ao tom monocórdico de Nico e ao seu harmónio. As temáticas e motivações da cantora mantêm-se, mas denotam-se pequenos vislumbres de ternura que poderão ter origem na colaboração de Ari, filho de Nico. Ari canta em “Le Petit Chevalier” e aparece com a mãe na capa do álbum, uma fotografia tirada no set de La Cicatrice Intérieure de Garrel. “Janitor of Lunacy” é dedicada a Brian Jones, o amante de Nico que a ajudou a dar os primeiros passos no mundo da música, falecido em 1969. A receita das vendas deste álbum foi reduzida constituindo um dos factores que ditaram o afastamento da Reprise e a pausa de quatro anos que se seguiu.

 

The End – 1974


 


The End: 1 It Has Not Taken Long (00:00); 2 Secret Side (04:12); 3 You Forget to Answer (08:20); 4 Innocent and Vain (13:12); 5 Valley of the Kings (17:10); 6 We've Got the Gold (21:07); 7 The End (26:51); 8 Das Lied der Deutschen (36:28)

 

Em 1974, The End é editado sob a chancela da Island Records de Londres. A grande novidade é que Nico assume um maior controlo nos arranjos musicais embora John Cale se mantenha na produção. Apesar de terem sido acrescentados instrumentos electrónicos pelas mãos de Brian Eno e Phil Manzanera dos Roxy Music, a linha condutora não é quebrada. De salientar os arranjos de sintetizador nos temas “It Has Not Taken Long”, “Innocent and Vain”, “The Valley of Kings” e “You Forgot to Answer”. Esta última faixa é dedicada a Jim Morrison que Nico tentou contactar após a sua morte, sem saber do sucedido. Há também a cover especialmente negra de “The End” dos The Doors quase a fechar o álbum. Cada vez mais o trabalho da cantora se assemelhava a uma marcha fúnebre, à medida que homenageava os seus amantes e mentores. Para capa do álbum foi utilizada uma fotografia tirada no set de Les Hautes Solitudes de Philippe Garrel. Apesar do álbum ter sido apresentado nas Peel Sessions de John Peel, o número reduzido de vendas e a dificuldade em trabalhar com Nico determinaram o fim da parceria com a Island Records.

 

Drama of Exile – 1981


 


Drama of Exile: 1 Genghis Khan (00:00); 2 Purple Lips (03:56); 3 One More Chance (08:10); 4 Henry Hudson (13:54); 5 I'm Waiting for the Man (17:51); 6 Sixty/Forty (22:08); 7 The Sphinx (27:02); 8 Orly Fight (30:35); 9 Heroes (34:40)


 

Nos anos de pausa que se seguiram, Nico entrou em vários filmes de Garrel. Apesar de se ter mantido em Nova Iorque e ter actuado muitas vezes ao vivo, apenas em 1981 volta à carga com Drama of Exile. Não deixa de ser curioso como é que, apesar do pouco reconhecimento atribuído à cantora, este trabalho acabou por ser alvo de batalhas de direitos entre editoras e produtores, sendo editado pela britânica Aura, pela Invisible Records de Chicago e outras. E, no meio de toda a confusão gerada, Nico só queria dinheiro para alimentar o seu vício. Neste álbum figura uma versão de “I’m Waiting for the Man” dos The Velvet Underground e uma de “Heroes” de David Bowie. John Cale não colaborou na produção e a sua ausência nota-se nos arranjos musicais que, apesar do tom post-punk, acusam influências orientais. Talvez este facto tenha ajudado a que este tenha sido o álbum de Nico mais bem recebido pela crítica.

 

Camera Obscura – 1985


 


Camera Obscura: 1 Camera Obscura; 2 Tanatore; 3 Win a Few; 4 Das Lied vom einsamen Mädchen; 5 Fearfull in Danger; 6 My Heart is Empty; 7 Into the Arena.
Nota: Nesta compilação faltam os temas “My Funny Valentine” e “König” que também integraram o alinhamento original do álbum.


 

Em 1982 a cantora muda-se para Manchester. Foi um período particularmente miserável em que perdia todo o tempo à procura de droga. Acompanhou o desenvolvimento do movimento gótico e chegou a actuar com os Bauhaus. Talvez por isso o seu registo seguinte apresentasse uma sonoridade mais gothic rock, com uma utilização pronunciada dos sintetizadores para a criação de ambiências mais sombrias. Assim, em 1985, Nico grava em Londres e pela Beggars Banquet Records o que seria o seu último trabalho, Camera Obscura, cuja capa é uma fotografia da autoria de Anton Corbijn. Cale voltou à produção mas as gravações e a tour que se seguiu tiveram os The Faction como banda de suporte. Em 1992 o teclista James Young escreveu o livro Songs That They Never Play on the Radio, Nico The Last Bohemian onde descreve o caótico clima que se viveu nessa altura fruto dos períodos de ressaca e apoteose que tornavam quase impossível um trabalho que exigia método e organização. Nestes tempos, durante as actuações Nico mantinha-se estática e sempre de copo e cigarro em punho. A sua fragilidade demonstrava como estava demasiado consumida pelas drogas para se dar ao trabalho de expressar qualquer emoção ou imprimir qualquer melodia à sua prestação.

 

Morte


 
A 18 de Julho de 1988 Nico, que estava a passar férias em Ibiza com o filho Ari, morreu num insólito acidente de bicicleta. Apesar de já há alguns anos ter deixado a heroína e estar a consumir metadona, o seu estado de saúde estava muito enfraquecido. Pensa-se que a exposição solar terá desencadeado uma insolação que levou à queda de bicicleta e à consequente hemorragia cerebral que ditou o seu fim. Poderá ser feita a leitura de que Nico quis fugir do sol mas, ironicamente, o sol acabou por a matar… As suas cinzas foram depositadas na campa da mãe no Cemitério Grunewald em Berlim numa cerimónia fúnebre em que alguns amigos puseram a tocar num gravador o tema “Mutterlein”, de Desertshore, canção que Nico dedicara às figuras da maternidade na sua vida: a sua mãe e a sua tia.

 

Legado deixado


 
Todo o trabalho editado após Chelsea Girl mostra um vislumbre do que poderia ter sido a carreira vanguardista de Nico. A dependência das drogas e o seu comportamento instável levaram a que nunca se conseguisse associar apenas a uma editora que publicasse toda a sua discografia. Assim, todo o trabalho ficou fragmentado por editoras em diferentes cantos do planeta. Este seu legado, apesar de desconhecido do público em geral, suplantou a colaboração com os The Velvet Underground pelo seu génio e intransigência extrema. A cantora continuou a bater na mesma tecla apesar de não ser reconhecida pelo público e bipolarizar a crítica da altura. Em 1978, Lester Bangs dissertou sobre o tríptico constituído pelos álbuns The Marble Index, Desertshore e The End num artigo intitulado Your Shadow Is Scared Of You – An Attempt Not To Be Frightened by Nico onde, apesar de reconhecer que está perante uma obra-prima e um depoimento extremo, também considera que é uma tortura ouvi-lo.

Nico não teve paralelo no mundo da música e há quem considere que define, por si só, um género distinto. Para além disso, pelo seu visual e postura, terá constituído um protótipo para os movimentos gótico e post-punk. Entre as personalidades do mundo da música influenciadas por esta sonoridade particular contam-se Zola Jesus, PJ Harvey, Siouxsie Sioux, Björk, Dead Can Dance e a banda canadiana The Marble Index, cujo nome está longe de ser uma mera coincidência.

 

Tributos prestados


 
John Cale, para assinalar o génio turbulento de Nico que tão bem conhecia, organizou, em 2008 e em 2013, dois concertos de homenagem intitulados de When Past And Future Collide - Life Along The Borderline: A Tribute To Nico. O primeiro marcou o 20º aniversário da sua morte, teve lugar no Royal Albert Hall em Londres e contou com as colaborações de nomes como Peter Murphy, Lisa Gerrard, Fiery Furnaces, Mark Linkous e Mark Lanegan. O segundo marcou o 25º aniversário da sua morte, ocorreu no Brooklyn Academy of Music em Nova Iorque e contou com a presença de Kim Gordon, Peaches, Sharon Van Etten, Greg Dulli, Alison Mosshart e Joan As Police Woman entre outros.

Em 1991, Philippe Garrel realizou o filme J’entends plus la guitare que dedicou a Nico e aos agitados anos que viveram juntos. Em 1995 Susanne Ofteringer realizou um documentário sobre a vida da cantora - Nico Icon.



 

No final de 2016 começou a ser filmado o biopic Nico, 1988 realizado por Susanna Nicchiarelli. O papel principal está muito bem entregue a Trine Dyrholm, uma actriz dinamarquesa que, à semelhança de Nico, também é singersongwriter. Embora esteja contemplada a inserção de flashbacks para o passado em que Trine recriará canções de Nico, este filme vai retratar essencialmente o último ano de vida da cantora. Daí a necessidade de escrever esta espécie de biografia.

É uma pena que estas homenagens apareçam depois da morte de Nico mas, pelo que sabemos dela, também não seria pessoa para encontrar felicidade no reconhecimento por parte das grandes massas. Ficou mais do que provado que socialmente era uma pessoa complexa e desajustada. A título de exemplo, é conhecida a situação em que, de visita ao filho Ari que estava em coma, se lembrou de gravar os sons das máquinas de suporte de vida para incluir numa música. Se isto não é dedicação a uma causa não sei o que será. Talvez seja a causa errada no momento errado mas Nico parecia ver na música uma maneira de resolver as suas mágoas interiores.

 

Nota: Este autor utiliza o Antigo Acordo Ortográfico.

 
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