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Samba de Guerrilha

10 de Abril, 2017 ArtigosLuca Argel

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Mandei meu dicionário às favas / Mudo é quem só se comunica com palavras


- “Filosofia do Samba”, Candeia


 

Pensando bem, talvez tenha tudo começado naquele pequeno apartamento em Botafogo, há seis anos, comigo tentando montar, a pedido de uma amiga norte-americana, uma pequena playlist de música brasileira. A tarefa era simples, o pedido não guardava nenhuma exigência específica, mas, talvez por isso mesmo, o assunto que poderia ter sido resolvido em 15 minutinhos de pesquisa no falecido Grooveshark (que deus o tenha em bom lugar) acabou se arrastando por horas, dias, semanas de obsessivas anotações a cada nova lembrança, deste cantor, daquela banda, daquela versão, a divisão por estilos, por épocas, a narrativa sugerida pela ordem das músicas, e etc. Nunca cheguei a dar a playlist por terminada, como é óbvio. Mas ficou o hábito de colecionar músicas segundo tais e quais critérios, construir histórias ligando uma a outra, observar a recorrência de assuntos, de expressões, de toda uma forma particular que a música brasileira tem de encarar a realidade, e a si própria. Muito útil me foi, e tem sido ainda, este hábito.

Pouco tempo depois eu me mudaria para Portugal, e quis o destino que eu começasse a trabalhar com música brasileira. Como cantor, como DJ, e até como pesquisador, estando ela bastante presente na minha tese de mestrado, é possível dizer que praticamente tudo que faço hoje é um eterno aprimoramento e expansão daquela primeira tentativa de playlist. Descobri que apresentar nossos universos musicais locais a ouvidos estrangeiros é uma tarefa meio demiúrgica. Pois se praticamente toda a música brasileira que minha amiga norte-americana conhecia era aquela que eu lhe mostrava, então, pelo menos para ela, a “música brasileira” era a minha música brasileira. Mesmo não criando nada de novo, no simples facto de escolher, excluir, dar mais ou menos relevância a esta ou aquela canção, já se está a criar um novo universo representativo que, a partir do já existente, o deforma e corrige, em consonância não apenas com nossas preferências estéticas, mas com o que estas refletem de nossas posições políticas, classes sociais, situações geográficas, históricas e experiências subjetivas. Quer dizer, uma playlist (ou uma antologia, ou qualquer tipo de seleção, por assim dizer) é tanto um retrato daquele universo que se está tentando representar, quanto um auto-retrato do selecionador.

Ora, se fazer uma playlist para uma única pessoa implica em todas essas coisas, o mesmo vale, e multiplica-se, quando se trata de um DJ set, ou de um alinhamento para um concerto cujo público não seja totalmente familiarizado com o gênero a ser executado. E quando estes fatores se alinham, e eles costumam se alinhar bastante no meu caso particular de estrangeiro num país que compartilha comigo o mesmo idioma, abre-se uma potente oportunidade para praticar o que gosto de pensar como “guerrilha”.

Não que em Portugal não se seja familiarizado com música brasileira. Bem pelo contrário. Quisera eu que no Brasil houvesse tanto espaço e interesse por música portuguesa quanto há aqui pela brasileira . Contudo, uma coisa é ter a música brasileira dentro do seu horizonte de conhecimentos ou preferências, e outra coisa é vivenciá-la como parte fundamental da sua própria cultura enquanto indivíduo e também da cultura da sociedade na qual você cresceu e construiu suas relações com pessoas e locais, cultivou seus laços afetivos, viveu, enfim, a maior parte da sua história. Embora eu confesse já ter conhecido portugueses que tenham essa vivência da música brasileira tal qual um brasileiro, eles acabam por ser, naturalmente, uma exceção à regra. E no caso específico do samba, que é do que eu pretendo tratar aqui, esta questão da vivência cultural é ainda mais significativa, pois estamos diante de um gênero musical cuja manifestação se assenta profundamente sobre elementos que em muito ultrapassam a sua própria condição de “gênero musical”. E para ilustrar o que quero dizer com isso, passo a citar o estudioso que mais tem norteado minhas reflexões a respeito do assunto, o historiador carioca Luiz Antônio Simas:

Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente. Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora a alegria brasileira do carnaval é um reducionismo completo.

Então vejamos, se esse reducionismo ocorre sistematicamente mesmo no Brasil, mesmo no Rio de Janeiro, onde o gênero nasceu, imagine fora do Brasil… Mas é aí justamente que começa a se desenhar a possibilidade da guerrilha.

 

O que adianta eu trabalhar demais,
se o que eu ganho é pouco?
Se cada dia eu vou mais pra trás,
nessa vida levando soco?
E quem tem muito tá querendo mais,
e quem não tem tá no sufoco,
vamos lá rapaziada,
tá na hora da virada vamos dar o troco.
Vamos botar lenha nesse fogo,
vamos virar esse jogo
que é jogo de carta marcada
o nosso time não está no degredo
vamos à luta sem medo
que é hora do tudo ou nada.

(“Virada”, Noca da Portela)

 

Se a estratégia da guerrilha é, digamos, utilizar em benefício próprio a familiaridade com o terreno de batalha, os seus atalhos, esconderijos e subtilezas naturais, então o conceito é perfeitamente adequado à minha proposta. Dou um exemplo concreto: há alguns anos faço parte de um coletivo de DJs chamado “Tropicáustica” (…). Temos alguns critérios básicos de escolha de repertório que são conscientemente políticos. Um deles é, por exemplo, não passar músicas de conteúdo sexista ou racista. Por outro lado, sem deixar de lado a animação da festa, procuramos sempre dar valor a músicas com letras que contenham mensagens críticas, de resistência e justiça social, ou até misturando trechos de discursos e falas que consideramos pertinentes, em meio a temas instrumentais.

Já disse que o caso do samba é particularmente interessante por tratar-se, mais que um gênero, de um complexo cultural. Porém, na impossibilidade evidente de se transplantar este complexo cultural, na sua integralidade, de um país para outro, a minha intenção é, primeiramente, dar a perceber um pouco da sua complexidade (para evitar os reducionismos mais comuns) e, uma vez contextualizadas as suas premissas básicas (um pouco da sua história e do seu significado cultural), exibir aquele recorte de repertório que julgo ser o mais potente em termos de alinhamento entre o seu discurso verbal e o seu discurso musical.

 

Meu avô já foi escravo
Mas viveu com valentia
Descumpria a ordem dada
Agitava a escravaria
Vergalhão, corrente, tronco
Era quase todo dia
Quanto mais ele apanhava
Menos ele obedecia

(“Toque de São Bento Grande de Angola”, Paulo César Pinheiro)

 

Então podemos começar pela seguinte afirmação: o samba surge como resposta a um projeto civilizatório excludente. Este processo vem sendo levado a cabo desde o início da colonização do Brasil, e persiste até os dias atuais, tendo assumido diversas faces e estratégias ao longo da história. Sem sombra de dúvida, o elemento mais importante deste processo, do ponto de vista do que mais influenciou a definição dos traços culturais brasileiros, foi a escravidão. Assumindo estas duas ideias iniciais, já se pode ao menos compreender porque, por exemplo, o samba nasce no Rio de Janeiro, na virada do século XIX para o século XX. Não será coincidência, por um lado, que este período tenha correspondido aos primeiros anos após a abolição da escravatura no Brasil, nem, por outro, que a cidade do Rio de Janeiro possua aquele que foi o maior porto de entrada de pessoas escravizadas de que se tem notícia na história da humanidade, o Cais do Valongo. Este cais recebeu, em apenas 20 anos (de 1811 a 1831), meio milhão de pessoas escravizadas, dos 4 milhões de africanos que chegaram ao país nesta condição, de 1530 a 1850.

“Acabar com a escravidão não é o bastante, é preciso destruir a sua obra”, costumava dizer um célebre escritor pernambucano, abolicionista, chamado Joaquim Nabuco. A verdade é que é muitíssimo estreita a relação da escravidão, ou melhor dizendo, da sua “obra”, com o aparecimento do samba enquanto complexo cultural.

Para além de ter sido o maior porto de entrada de pessoas escravizadas da história, há outros dados impressionantes que podem dar ao leitor a dimensão profunda com que a escravidão marcou, e ao falar de escravidão estamos naturalmente falando da presença da cultura africana, a formação da cultura brasileira. Por volta de 1840, um terço da população do Rio de Janeiro era composta por emigrados de África, contabilizando a maior população urbana de pessoas escravizadas registrada desde o Império Romano. A concentração era tão grande que, em meados do século XIX, o Rio chegou a ser a maior cidade africana do mundo. Isto é, superava em número de habitantes africanos até mesmo as maiores cidades de África. Uma cultura não pode passar impune por coisas desta magnitude – e contudo, foi (e é) exatamente isso que as elites brasileiras parecem desejar.

 



 

Longe de ter representado uma virada positiva em termos de justiça social e equiparação de direitos, a tardia abolição da escravatura, em 1888, legou a uma geração de intelectuais e políticos brasileiros uma questão grave: como lidar com a massiva população negra recém alforriada? Como reintegrar na sociedade este povo, com seus hábitos e particularidades? A resposta dada a estas questões foram medidas que inequivocamente tencionavam promover um “branqueamento” racial e cultural no país, em que todos os traços de africanidade aparentes nas cidades brasileiras seriam tratados como excrescências a serem suprimidas e extirpadas. Seguiram-se, no início do passado século, o estímulo às vagas de imigração europeia para o Brasil (baseadas em teorias pseudo-científicas sustentadas por pensadores como Silvio Romero, de que a miscigenação dos brancos com os negros supostamente “depuraria” a raça, gradativamente embranquecendo a população devido à superioridade biológica dos brancos sobre os pretos); as grandes reformas urbanas “higienizadoras” (que, no caso do Rio de Janeiro, significaram a expulsão da população negra e pobre do centro da cidade para os subúrbios); e o surgimento de dispositivos legais como a “Lei de Vadiagem”, que vedava a prática da “vadiagem” nas cidades brasileiras, sem que no seu texto ficasse explicado o que era a tal “vadiagem”. Trata-se de uma parente não muito distante das atuais leis anti-terrorismo, que na prática não passam de um salvo conduto para que a polícia efetue arbitrariamente prisões, agressões, apreensões, invasões de domicílio, e etc. O samba, bem como tudo e todos que orbitavam o seu universo, foram, naturalmente, alvos preferenciais.

A mais eloquente e estarrecedora evidência do quão violento foi este processo é o facto de que o maior acervo de arte sacra afro-brasileira pertença a ninguém menos que o museu da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Será devido ao interesse da PMERJ pelas religiosidades de matriz africana? Definitivamente não. É apenas o fruto de décadas de apreensões, invasões de terreiros (templos), repressão a toda e qualquer manifestação cultural negra, sempre legitimadas por leis como a tal “Lei de Vadiagem”.

 

Vamos nos unir que eu sei que há jeito

E mostrar que nós temos direito

Pelo menos a compreensão

Senão um dia

Por qualquer pretexto

Nos botam cabresto

e nos dão ração

(“Bandeira da Fé”, Zé Catimba/Martinho da Vila)

 

Esta lei, apesar de ter caído em desuso nas últimas décadas, só foi efetivamente retirada do código penal brasileiro em 2012. Mas entretanto continuaram se sofisticando as formas de dominação e domesticação das manifestações culturais negras, naquilo que elas sempre possuíram de potencial agregador e mobilizador de suas comunidades. A inevitável popularização do samba durante a chamada Era do Rádio, na primeira metade do século XX, o crescimento vertiginoso do carnaval carioca enquanto festejo popular, e o alçamento do gênero musical enquanto representante máximo da cultura brasileira internacionalmente, precipitaram uma atitude de relativa tolerância por parte dos poderes institucionais para com o samba, onde há, por um lado, o interesse em promovê-lo como exemplo positivo da riqueza cultural produzida pela mestiçagem do povo brasileiro, e por outro, a tentativa de despojá-lo de toda a história de violência contida em sua gênese, da sua importância enquanto símbolo de pertencimento específico de uma parcela da população (pobres e negros), e sobretudo dos profundos laços que ele sempre possuiu com as religiões afro-brasileiras, com os locais originários em que foi criado, e enfim, com todo o já mencionado complexo cultural sem o qual o samba fica reduzido ao seu mero “exotismo” estético e, por isso mesmo, pronto a ser devorado pela indústria fonográfica e pelo turismo como mais um bem de consumo.

 



 

E assim segue a história do samba, que ainda hoje tem de lidar com as heranças da escravidão, conviver com as suas contradições internas, negociar seu espaço com o poder institucional, reinventar-se diariamente para poder sobreviver. Nestes sambas específicos que espalhei pelo meu texto, como explosivos num campo minado, enxergo uma poderosa coerência entre o que o samba representa, enquanto gênero musical, isto é, enquanto som, ritmo, vibração, e o que nos dizem as suas letras. Para mim, esta coerência é precisamente o que faz deles obras poéticas extraordinárias da língua portuguesa, ainda que pouco reconhecidas como tal. Sua sofisticação nada vulgar, a despeito da simplicidade da linguagem, as tornam armas poderosas que venho trazendo para cá, para o meu arsenal de guerrilha.

E não gostaria de terminar sem deixar de recomendar que se ouça um último samba, muito especial, que sintetiza em sua letra tantos assuntos mencionados neste texto: o medo da revolta dos negros, a tentativa de domesticação do samba (da qual a carnavalização faz parte), as relações comunitárias construídas em seu seio, e seu potencial disruptivo em meio ao cenário de violência e desigualdade social onde ele floresce.

 



 

Nota: Este texto foi publicado originalmente na revista Cão Celeste, n. 10. Editora Averno, 2017.
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