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Slint - Spiderland (1991) | Máquina do Tempo #8

11 de Abril, 2015 ArtigosSara Dias

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slint spiderland

No auge da minha adolescência e do péssimo gosto musical infelizmente adjacente, encontrei por mero acaso (sorte, ou fado, ainda não sei) um álbum que mudou a minha vida. E não falo em termos musicais apenas, já que neste álbum encontrei compreensão, encontrei a expressão daquilo que reprimia e assim, de certa forma, encontrei uma libertação. Foi assim que realmente me apaixonei pelo mundo da música, razão pela qual me traz aqui, a este pequeno artigo. Esse álbum é o Spiderland, dos Slint.

Recuando aproximadamente duas décadas, e parafraseando o documentário "Breadcrumb Trail" sobre a banda, estejam conscientes que durante os próximos dias (aqui, nas próximas linhas) estamos em Louisville. Em plena inércia de aborrecimento, não estamos em Londres, muito menos em Nova Iorque. Esta inércia prolonga-se ao panorama musical, onde encontramos uma grande predominância do punk e thrash. Predominam sonoridades "sujas", abrasivas e imediatas. Alguns membros dos Slint passaram mesmo por bandas deste género, como é o caso de Squirrel Bait e Maurice, ou ainda Languid & Flaccid. E se nesse contexto era necessária uma revolução, essa consuma-se a Março de 1991.

A revolução de Spiderland provém de um rock mais cuidado, pensado e introspectivo. Temos linhas de guitarra muito mais limpas e prolongadas que abrem espaço a letras que para além de poéticas, são narrativas. Cada tema é uma história. Até então, nunca se tinha ouvido nada assim, era uma sonoridade "sui generis", díspar. Tal como Stuart Braithwaite, guitarrista dos Mogwai, afirmou na reedição do Spiderland em 2014: "When I heard Spiderland, it was unlike anything I'd heard before. I still don't know if I've heard anything else like it, now." Porém, eu vou mais longe: este álbum é um marco, o início do post-rock, e facilmente reconhecemos a sua influência em alguns dos melhores álbuns de post-rock, como é grande exemplo o Come On Die Young dos Mogwai. No entanto, penso que não podemos delimitar o Spiderland a apenas um género, existem bandas demasiado sublimes para tal (outro exemplo óbvio é GY!BE).

Comecemos pela capa do álbum. Quem tirou a mítica fotografia da capa foi, nada mais nada menos que Will Oldham. Este nome não vos diz nada? Se não, passo a explicar: Will Oldham é nada mais, nada menos, Bonnie Prince Billy a partir de 1998. Antes gravou sob o nome de Palace Brothers e Palace Music, projectos que contaram com a participação de Britt Walford (baterista dos Slint).

Um dos aspetos vitais para a qualidade deste longa duração foi a escolha de produtor. Na minha opinião, Steve Albini falhou redondamente na produção de Tweez, que ficou "over produced", acima de tudo com sonoridades muito artificiais. Com isto, o antecessor de Spiderland perdeu muita da sua qualidade original e, até, a essência do que são os Slint, levando à saída do baixista Ethan Buckler da banda. Este álbum teria ganho com uma produção mais simples, sem grandes adições e invenções. Pelo contrário, e com a produção de Brian Paulson, Spiderland soa muito mais natural, muito mais próximo e despretensioso. No entanto, Steve Albini acertou em cheio quando considerou que apesar do fracasso comercial deste álbum na altura do seu lançamento (que na realidade também se deveu ao facto da banda já ter acabado nessa altura) este seria um marco: "In 10 years' time, it will be a landmark and you'll have to scramble to buy a copy then. Beat the rush."

Slint


Esta jornada inicia-se com "Breadcrumb Trail", tema carregado de misticismo e metáforas intrigantes, que se espelham quer na sua instrumentalização, quer na sua letra. O narrador, aqui na voz de Brian, encontra-se numa feira de Carnaval, onde conhece uma cartomante. Mas em vez de ficar a conhecer o seu futuro, este entrega-se de corpo e alma ao presente na figura da montanha russa já que descarta a comodidade e segurança do conhecimento do futuro, pelo momento presente, com os seus altos e baixos inerentes. Seguidamemente, encontramos o tema "Nosferatu Man" inspirado no filme de 1922, "Nosferatu", que nos confronta com um homem que tem tudo o que se pode desejar e deita tudo a perder pelo futuro e pelo mundo das possibilidades. Nestes dois temas, apesar de termos narradores antagónicos, encontramos em ambos acordes dissonantes com notas muito agudas, o que lhes dá alguma congruência melódica. Estes acabam por ser também os temas menos introspetivos, denotando-se ainda alguma (ainda que pequena) influência de thrash que provém essencialmente do anterior longa duração Tweez.

Conceptualmente, à medida que se entranha neste álbum, a atmosfera torna-se mais "dark", deprimente e abissal. Cada vez se mergulha mais fundo na direcção de um fosso oceânico, o oxigénio rarifica.

Passamos a "Don, Aman". Neste tema existe uma relação proporcional exata entre o instrumental e a letra da música, sendo que retrata perfeitamente a ansiedade, o ódio e o sentimento de exclusão do  narrador. Existe um "crescendo" no ritmo e na distorção, com ausência de percussão, já que é Walford quem canta, aliás, nos sussurra ao ouvido neste tema.  Voltando, já no fim, ao seu ritmo inicial.  A nossa viagem continua com "Washer", sendo que este é o meu tema favorito do álbum e quiçá de sempre. Encontramos um tema progressivo, de acreção da angústia, que explode num sinfonia de distorção. Aqui, toda a tensão extravia-se, voltando ao ritmo inicial no último minuto e meio. Novamente encontramos um paralelismo instrumental entre as músicas no seu "crescendo" que se dissemina para o ritmo inicial nos instantes finais. A letra deste tema eleva-se à categoria de poesia, quer pela sua forma, quer pelo seu conteúdo: a minha percepção geral é de que este poema é um carta de alguém que já definha fisicamente, mas que não consegue a tão aguardada paz espiritual que advém da morte. Esta carta dirige-se a alguém amado está a lidar com um trauma, talvez ligado com a morte deste mesmo narrador : "Promise me, the sun will rise again". Para além disto, esta música contém uma das minhas passagens literárias favoritas de sempre:
"I know, it's dark outside / Don't be afraid. / Every time I ever cried for fear, / Was just a mistake that I made. / Wash yourself in your tears, / And build your church / On the strength of your faith."

"For Dinner..." é o único tema puramente instrumental e ambiental deste álbum, e talvez por isso, por lhe faltar a poesia que até agora elogiei incessantemente, acaba por ser o tema mais subvalorizado aqui presente. No entanto, este assume-se como pedra basilar do post-rock que conhecemos: em termos melódicos e a sua abordagem conceptual. Relembro que estamos em 1991, e as consideradas grandes bandas deste género (não quero, no entanto, confinar essas bandas a apenas a esse género, porém em categorias generalizadas, acabam por ser as bandas que o representam melhor) como GY!BE, Mogwai, Sigur Rós e Explosions in the Sky formam-se já aproximadamente meia década depois. É impossível não encontrar rastros desta "For Dinner..." nessas e em tantas outras bandas. Aliás, não é por coincidência que "Like Herod", tema presente no álbum de 1997, Young Team, inicialmente se chamava "Slint".

Quando, no nosso mergulho, chegamos a "Good Morning, Captain", o sufoco já toma conta da mente, os pulmões já se enchem, lentamente, de água. A letra deste tema baseia-se no poema de Samuel Taylor Coleridge , "The Rime of the Anceint Mariner". Em resumo, este poema narra a história de um marinheiro cuja embarcação é desviada da sua rota devido a uma tempestade. Estes voltam à rota com a ajuda de um Albatroz que o marinheiro acaba por matar. A calma regressa aos mares, mas de tal forma acentuada que se torna impossível navegar. Na estagnação, encontram um barco abandonado, tripulado figuradamente pela "morte" e por uma mulher quase morta, em extremo sofrimento. A morte acaba por levar toda a tripulação, ficando o marinheiro com a sua punição: uma vida de sofrimento, em que viaja pelo mundo, como em penitência, contando a sua história. A minha interpretação desta letra passa por um paralelismo com o saudosismo em Fernando Pessoa, na figura de Álvaro de Campos: aqui temos um diálogo entre o "eu" presente, aquele que pede para entrar, aquele que perdeu tudo e vê a sua vida a afundar como um navio num horizonte longínquo. Esse "eu" presente sente falta do seu "eu" passado, quer voltar a ser ele, mas sabe que esse "eu" passado nem sequer o reconhece, daí nem o deixar entrar em casa. Em termos instrumentais novamente existe um paralelismo entre estas duas últimas músicas, que abandonam o ritmo progressivo, mantendo um ritmo estável, recheado de harmonias entre David Pajo e Brian McMahan.

Depois da tempestade vem a bonança: quando chegamos ao fim deste mergulho claustrofóbico, o que encontramos é um tesouro. Spiderland é um dos melhores álbuns de sempre, uma masterpiece extraviada pela ironia do tempo, e ainda que comece a amealhar cada vez mais ouvintes, continua a ser um dos álbuns mais subvalorizados de sempre.
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