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The Smiths – The Queen is Dead (1986) | Máquina do Tempo #3

01 de Fevereiro, 2015 ArtigosBruno Santos

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Visceral, mas com classe.


Nunca fiz isto antes de um modo sintético. Para mim a música é primordial, pouco compatível com palavras curtas e explicações certeiras, dada a interpretações dúbias. Cresci a ouvir rádio e música. Isso não fez de mim um melómano com um vasto conhecimento da área mas criou em mim uma curiosidade por sons e sensações novas. Avivou-me o espírito para manter recordações de músicas que ouvi enquanto era mais novo, para as poder re-descobrir e explorar enquanto mais velho.

A primeira vez que ouvi The Smiths era muito novo, tinha talvez 9 ou 10 anos e vi o vídeo do "What Difference Does It Make?" na RTP, no intervalo de qualquer programa para encher chouriço. Sim, em tempos idos a RTP sabia encher chouriço com alguma qualidade. Eu que o diga, porque dum desses momentos retive uma das minhas músicas favoritas do Joe Jackson, "Right and wrong" ou uma xaropada dos Asia (calma, acalmem esses corações porque o Steve Carrell mandou emoldurar um poster dos Asia no "Virgem aos 40") chamada "Go" com um vídeo sci-fi todo porreiro. A primeira imagem que retive do video dos The Smiths foi: "Porque é que este senhor anda com um molho de bróculos na mão? Deve ser maluco!"

E é, na verdade. Aquele senhor é um pouco maluco e desbocado. E neste disco, The Queen is Dead ele relembra-nos disso. Tem a ombridade de se assumir como bigmouth que é, se bem que ele se esteja também a referir aos seus críticos e assumir o certo flair dramático da sua persona ao dizer "Bigmouth strikes again and I've got no right to take my place in the human race". É um desbocado, cínico e romântico, este Steven Patrick Morrissey. E por outro lado, conta com uma tapeçaria (perdoem-me o exagero, mas é) sonora exímia. A bateria sempre eficaz, ora dançante ora mais relaxada do Mike Joyce, o baixo firme e melódico do Andy Rourke e as malhas fenomenais, daquelas inesquecíveis, do Johnny Marr. Que o diga o Noel Gallagher que no meio daquela pronúncia inenarrável tece os mais rasgados elogios a Marr usando duzentos "fucking" antes de qualquer adjectivo para exemplificar a música dele.

The Queen is Dead. Vamos começar já pelo óbvio. Este disco tem para mim aquela que será a melhor música dos The Smiths e uma daquelas músicas que não deixa ninguém indiferente: "There's a Light That Never Goes Out". Alienação, exclusão, estranheza social, medo, comiseração, exagero, esperança, amor, desamor. Sensações a que de algum modo nos podemos ligar, num momento ou outro da nossa vida. A canção é belíssima, uma subida suportada por um arranjo de cordas sintetizado por Marr e umas ligeiras notas de flauta do mesmo no fim da música. Um exemplo acabado de uma música eterna.

Existe também um tema subjacente a todo o disco, tanto nas letras como nos arranjos. Uma espécie de remoque à crítica, um "piss off" dado com requintes de malvadez e doçura aos críticos da banda. "Cemetry Gates" refere isso de algum modo, quando uma das personagens faz suas as palavras de Keats e de Yeats e as usa com falsa propriedade. Outro exemplo da música dos The Smiths e da sua capacidade de fazerem músicas bonitas com um assunto mais sério ou irónico. Uma espécie de bombom de vinagre. "Bigmouth Strikes Again" é o exemplo polido deste "vão-se f****, senhores da música". De novo uma batida alegre, rápida, um baixo galopante e uma guitarra quase funky levam a mensagem de que era tudo uma brincadeira, senhores. Mas a brincar a brincar...

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A brincar sentimo-nos a ouvir "Frankly, Mr.Shankly" com a seu ritmo "tss-pum tss-pum", quase circense enquanto Moz reclama dinheiros devidos à banda com uma urgência de diva. Talvez um dos momentos mais bem humorados de todo o disco, a roçar o humor negro em linhas como "But sometimes I'd feel more fulfilled making Christmas cards with the mentally ill".

"I Know It's Over" é talvez o momento mais cândido de todo o disco. Aquele em que o retrato pintado é de tal modo realista, um reflexo ao espelho. A melodia é realmente triste e o verso que começa "If you're so funny...". A solidão reconhecida pelo solitário e as causas da mesma esmiuçadas a estilete: "It takes guts to be gentle and kind".

"Some Girls Are Bigger Than Others" é uma música estranha. O início com a bateria mais elevada, o fade, depois o regresso com tudo mais nivelado. Uma letra quase frívola sobre uma melodia (em especial o baixo desta música, é excelente) quase etérea. Não faço ideia o que lhes passou pela cabeça mas é uma música muito agradável, quase com laivos de "olha vamos acabar aqui o álbum, faz aí uma malha fixe que eu vou falar sobre raparigas grandes, barris de cerveja e a Cleópatra". E assim ficou.

"Vicar in a Tutu" é outro momento bem disposto do disco. Na verdade, parece haver uma tendência de criar músicas bem dispostas para letras mais ligeiras e este é um destes exemplos neste álbum. "The Queen Is Dead" revela um assunto muito querido a Morrissey que eu vou apelidar de "Inglesidade". O seu despeito por entidades ou instituições tidas como marcas de se ser inglês, a família real, os heróis do passado, a verdadeira noção para ele do que é ser inglês e as suas aproximações a alguma xenofobia. Morrissey sempre travou uma espécie de luta com este seu conceito, umas vezes mais desbocado, outras mais brando.

"The Boy with the Thorn in His Side" revela de novo a faceta romântica mas ao mesmo tempo desesperada de Morrissey. A melodia é fantástica (lá está, belas melodias para temas soturnos) e a letra espelha a frustração do mensageiro em ser levado a sério. Mas a luta entre a ironia e a acreditação é essa mesma, lição que o Moz já deve ter aprendido por estas alturas. "Never Had No One Ever", ao contrário do que possa parecer, não é uma canção de amor. É uma canção sobre o sentimento de estar deslocado durante a sua vida até ao momento. De não ter laços nem ligações ao sítio que se chama "casa".

Correndo o risco de contradizer as minhas linhas iniciais, farto-me de encontrar significados nas letras deste disco e nas melodias também. É um disco cheio, bom, grande em todos os sentidos. Para os fãs poderá ser o melhor, o pior, é uma questão de gosto. Para mim é o melhor disco da carreira de uma banda brilhante, de uma banda que elevou a música pop a outra esfera, a uma esfera de sensações e ideias quase proibidas ou intocáveis em termos comerciais. Deprimentes. Mas a ironia reside aí mesmo. Quantas pessoas nos anos 80 não dançaram "There's a Light That Never Goes Out" com alegria? Porque lá está, a música é primordial, é visceral. E nada pode ser mais bonito no mundo da música que um disco visceral tão bem polido como este The Queen is Dead de 1986. Visceral, mas com classe.
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