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The Bug e o Cubismo Sonoro

16 de Junho, 2016 ArtigosSara Dias

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NOS Primavera Sound 2016: Woman is a Word

Neue Deutsche Welle – Um love affair pela identidade alemã
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“I was standing outside myself trying to stop those hangings with ghost fingers... I am a ghost wanting what every ghost wants-a body-after the Long Time moving through odorless alleys of space where no life is, only the colorless no smell of death... Nobody can breathe and smell it through pink convolutions of gristle laced with crystal snot, time shit and black blood filters of flesh.”

 

Kevin Martin, mais conhecido pelo seu alias The Bug, tem um historial de subversão. No seio de uma família de músicos, de uma sociedade e de uma sociedade conservadora inglesa dos anos 80, Martin encontrou refugiu na música. Mais especificamente numa loja de discos –  Handsome Dick’s, em Weymoth – onde entrou em contacto com as bandas que Martin considerava como contracultura e a rebelião Pós-Punk: Sex Pistols, The Birthday Party ou Joy Division. Numa entrevista á publicação BOMB Magazine Kevin afirma que a música Pós-Punk destruía os livros de regras instituídas e que fazia perguntas sobre tudo e mais alguma coisa, acima de tudo sobre a estrutura da música, da arte, da politica e da lei. O inglês sentiu-se desde cedo atraído pela estética, cultura e filosofia “Do It Yourself” tão comum na Neue Deutsche Welle alemã que envolvia o experimentalismo e a intersecção de diferentes culturas e backgrounds – sendo que começou a compor, a explorar e a produzir com um gravador de quatro pistas e pedais de efeitos. Martin queria afastar-se da harmonia, da melodia e da estrutura musical clássica. Queria pegar num som e destruí-lo e desconstruí-lo, e de seguida reconstruí-lo à forma da sua perspectiva, quase como um pintor cubista de meados do século XX. Apesar de ir buscar alguns conceitos à nova vaga alemã, Kevin Martin foi sempre mestre no cruzamento de géneros, o que não é difícil de compreender através dos lançamentos como The Bug: este cita como as suas maiores influências Iration Steppas e The Disciples. Se nos anos 80 se dedicou ao Noise e ao Industrial, nos anos 90 dedicou-se ao Techno; já com a entrada nos anos 2000 chega-nos uma mistura de Dub com Dancehall e Hip Hop.

Apesar de The Bug ser o seu projeto principal neste momento, Kevin Martin esteve envolvido num punhado de outros projetos como: GOD, Techno Animal, Ice, Curse of the Golden Vampire, Pressure, e King Midas Sound. GOD formou-se em meados dos anos 80, e como o próprio Martin descreve era uma banda que cruzava o Free Jazz e o Noise Rock. No entanto, Kevin Martin sentia-se constrangido e sufocado criativamente pelo tamanho da banda, acabando por não se conseguir “perder na magia da produção”. Conheceu Justin Broadrick (Godflesh, JK Flesh, Jesu, ex-Napalm Death) em tour de GOD e Godflesh e com o tempo tornaram-se mais próximos. Broadrick tornou-se quase um mentor para Martin no que diz respeito a produção e trabalho de estúdio. Foi também devido a esta admiração e a esta amizade que surge Techno Animal onde misturam distorção, Noise e progressão no Techno. A experiência com estes dois projetos - GOD e Techno Animal –  e com Justin são essenciais para a compreensão de como surgiu The Bug, em 1997.

 
“I don’t make music to purely entertain, I make music to overwhelm, to intensify, to antagonize. Music is a necessity, not a choice. (…) I wanted to get lost in sound.”

 

Podemos mesmo dividir a discografia de The Bug em dois momentos, o primeiro simultâneo à actividade de Kevin Martin em Techno Animal. O álbum de estreia como The Bug saiu em 1997, com o nome de Tapping the Conversation. Foi uma colaboração entre Kevin Martin e o DJ Vadim, num disco que visava ser como uma soundtrack alternativa ao filme de Francis Ford Coppola, “The Conversation”. Este álbum afasta-se consideravelmente dos seus sucessores: envolve-se num véu de Trip Hop, de influências Jazz, deixando de parte as nuances de Dub, Dancehall e influências de Ambient que se consumam no seguinte álbum, Pressure lançado pela Rephlex Records, em 2003. O segundo momento, e o mais relevante, traduz-se nos lançamentos de London Zoo em 2008 e Angels & Devils em 2014, ambos pela consagrada Ninja Tunes.

 

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“Dubstep is almost a modification of Dub, it’s making it available to people. Dub is a virus that continues to mutate and evolve and has parallels in literature, art, painting, film. Dub is a cut up methodology. Dub is in the works of Jean-Luc Godard, there is Dub in the techniques of William Burroughs and Brion Gyson. Dub is much more than a form of music.”

 

London Zoo assume-se como a maturação definitiva de The Bug - aqui leva ao extremo o experimentalismo e o cruzamento de géneros, abordando de forma inovadora o Dancehall e o Dub com várias nuances de distorção e reverb desde os beats às vocais, mergulhando também em sonoridades mais dark e glitchy em comparação aos anteriores discos. Parece que encontramos uma selva no centro de Londres; sentimos os nossos instintos primários a emergir, sentimos os nossos sentidos mais apurados, sentimos o cheiro a fruta tropical e a perigo a pairar-nos por cima. Para este álbum Kevin Martin recrutou alguns dos mais importantes vocalistas do Dub como Tippa Irie, Warrior Queen e Spaceape (colaborador frequente do fundador da Hyperdub, Kode9, editora pela quase Martin lança um dos seus alias Pressure). As letras são tão ou mais agressivas que o instrumental, por exemplo em “Poison Dart”:  Through me na sling no gun,a boy think sey me soft / But me a real poison dart! / Through me na sling no gun a gal think sey me soft / But me a real poison dart! / Through me na sling no gun, but a smart the warrior – é de realçar a presença indireta de feminismo nestes versos, uma mulher não precisa de carregar uma arma para ser forte ou pode alguma vez percecionada como fraca: uma mulher é uma guerreira. Ou em “Angry”: My instincts are flawed /I'm starved and too weak to believe / Exoskeletal / Empty and grounded /In an insect malfunction / I tore off my goddamn wings; letras que remetem para self-hatred, auto-destruição, etc.

Já em 2014 chegou-nos com o melhor e mais consagrado longa-duração, Angels & Devils, que conta com colaborações com um punhado de artistas proeminentes como Liz Harris A.K.A Grouper, Copeland ou Death Grips. Neste disco é palpável a continuação de ideias do seu antecessor London Zoo, porém, de certa forma, mais bem pensado e estruturado, mais bem trabalhado e mais detalhado o que o torna um álbum consistente dentro do seu próprio caos “amelódico” – sem deixar de ser igualmente agressivo e brutal. Se atentarmos na tracklist é evidente que o álbum está dividido em duas partes. As primeiras seis faixas representam seis “anjos”, no sentido em que são as faixas mais etéreas e mais introspetivas, marcadas por profundas influências de Trip Hop e vocais quasi-celestiais como as vozes de Liz Harris, Gonjasufi e Copeland. São faixas, vozes e sonoridades que nos sussurram de forma sensual e angelical, mas que logo de seguida, são substituídas por faixas de ritmos frenéticos e coléricos, vozes distorcidas, por exemplo um tipicamente furioso MC Ride que vomita as letras diretamente das entranhas tal como em Death Grips. Esta segunda parte é a parte da agressividade, da ira, dos demónios e do inferno.

 
“Once you’ve had the experience of what music can be like, if you are a perfectionist and obsessive (like I realize I’ve become), you don’t want to compromise. I don’t follow the idea of making any type of compromise in my life, and definitely not in my music: music is my life. (…) I believe in a hardcore mentality. Any art should be a pure reflection of the intention of the person making it, and any degree of compromise along the way is just going to lessen the impact of what that person is trying to do. As far as I’m concerned, the physicality of sound is crucial; it takes you beyond intellectual discourse, to very primal, psychological confrontations.”

 

Para além de uma soberba discografia, Kevin Martin tem a fama de se entregar completamente à sua performance e desafiar os limites do som e do seu impacte no público, e depois da passagem no ano passado pelo Milhões de Festa, onde “apagou dos ouvidos as presentes frequências e desenhou com as suas vibrações o momento mais empolgante do festival”. The Bug retorna a Barcelos desta feita com o seu lado mais caribenho em destaque, com a voz corrosiva de Miss Red e Acid Ragga a puxar aos ritmos mais empolgantes da Jamaica. A 10º edição do festival tem data marcada para 21 a 24 de julho.

(Fontes das citações: “Naked Lunch” de William Burroughs, Bomb Magazine e Dubspot.)

 

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