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Vodafone Paredes de Coura 2016 • A antevisão

14 de Agosto, 2016 ArtigosJoão Rocha

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Agosto é já o mês onde entramos nos metros finais da corrida que são os Festivais de Verão. Continua a ser impressionante que um país tão pequeno como o nosso continue a ter uma oferta tão extensa, variada de espectáculos de cariz musical, e quanto mais se instaura esta realidade na nossa sociedade, mais se intensifica a discussão de se ainda alguém vai a festivais por gostar de música.

A verdade é que os festivais não são de todo a melhor forma de apreciar a música por si só, e nem isso almejam oferecer. Os festivais são, como o nome indica, uma festa que celebra toda a plenitude da área que abraçam, que altera a vida dos que lá estão e que (ao contrário de um mero concerto) também se altera e vai sofrendo mutações pelos que lá estão. Os anos vão passando, e a incrível primeira vez de muitos é a repetida última vez de quem vai desde sempre. Há sempre algo que os faz voltar, e apesar de ocupar grande percentagem na decisão, nem sempre é o cartaz o factor decisivo.

O Vodafone Paredes de Coura é provavelmente o melhor caso português para constatarmos esta situação. Dos mais antigos a realizarem-se em Portugal, todos os anos recebe novos públicos em grande parte atraídos pelas histórias mirabolantes que ouvem das primeiras fornadas. Os primeiros chegam, e vão moldando o ambiente ao tipicismo inerente da sua geração, e os segundos recebem-nos de olhos cerrados prontos a criticar e a soltar o típico “Paredes já não é o que era”. No fim da semana já ninguém sabe quais são quais, e Coura permanece uma vez mais Coura. Esta é a magia do famoso ambiente que reina no seu acampamento (este ano com a promessa de um espaço aumentado e melhorado), um espírito de empatia e abertura que apesar de muitas vezes receber chuvadas, nunca as deixa conquistar o lugar aos dias solarengos.

Na gama dos festivais onde se insere, mais nenhum consegue manter durante tanto tempo o seu nome associado com a terra que o recebe. A verdade é que a vila de Paredes de Coura e os seus habitantes fazem tanto parte do Festival, como os nomes que compõem o seu cartaz. Para celebrar essa dualidade a organização leva novamente os concertos à vila, e durante quatro noites os festivaleiros experienciam a não tão dura realidade de desfrutar de música num local não exclusivo para eles. Dançam e bebem com a senhora do café que lhes serviu o pequeno almoço nessa mesma manhã, recebem uma caneca de vinho de um qualquer sujeito de bigode farfalhudo, e na manhã seguinte, com a ressaca em cima vão passar por essas mesmas pessoas e dirigir-lhes um sorriso de cumplicidade. Este sentimento de acolhimento trespassa para todo o evento em si, da ida ao Intermarché, à partilha de detergente durante a lavagem da loiça, à garrafa de mistura duvidosa que beberão durante um qualquer after à beira rio.

O rio é outro dos factores que diferencia o Vodafone Paredes de Coura do resto dos seus pares. Todos os que já fomos temos histórias dentro de águas geladas para contar, e os que vêm pela primeira vez conhecem dezenas de histórias associadas a ele. O facto de apanhar Sol à beira água com o pessoal entre copos e brincadeiras, já é bom por si só, mas neste festival o factor música nunca é deixado de lado (situação cada vez mais rara entre os seus pares) e o Palco Jazz, que floresce na relva, sabe sempre escolher os tons perfeitos para ser a banda sonora ideal debaixo do calor, e muitas vezes causar as performances mais surpreendentes de todo o festival.

Mas apesar de todas as maravilhas emocionais e palpáveis que Coura tem para oferecer, é no seu cartaz que recai o peso de vender o Festival. A edição deste ano não conta com um dos mais memoráveis ou refrescantes cartazes das últimas edições, para além de ser assombrado com o cancelamento de uma das atracções deste ano. Sharon Jones, com os seus Dap Kings, é uma força soul da natureza, e prometia igualar, ou até mesmo destronar o memorável concerto de Charles Bradley.

No entanto, o facto é que o cartaz deste ano demonstra que a organização optou por não dar tanto relevo a escolhas mediáticas em prol de uma certa coesão musical, o que, e depois do concerto de Lykke li que assistimos o ano passado, talvez ainda venhamos a agradecer. Ainda assim, os festivaleiros que irão a Coura terão o privilégio de testemunhar o regresso de James Murphy aka LCD Soundsystem, nome maior desta edição, e que promete justificar ao vivo a razão pela qual é um dos nomes maiores do panorama musical actual. Atentos ao que se tem feito este ano a nível musical, Paredes de Coura traz a si também alguns dos álbuns mais aclamados de 2016. Nesse sentido, aconselhamos os concertos de Kevin Morby e de Whitney que trazem nesta fase de saturação dentro do género, uma nova aragem ao folk e indie rock. Para quem quiser partir tudo e rebolar pela colina abaixo, as atenções recaem no psicadelismo exuberante dos King Gizzard & The Lizard Wizard, e nos já históricos Cage the Elephant. É interessante reparar, que numa edição muito mais voltada para para um ambiente mais rock, onde os Thee Oh Sees e os Suuns são alguns dos nomes mais apetecíveis, é de louvar a procura de versatilidade, fazendo com que nomes de destaque do electro-pop marquem também presença. Com álbuns deste ano, os Chvrches e Shura, asseguram a tarefa de instaurar uma vibe mais dançavel no matagal.

Apesar de um cartaz não tão brilhante, tarefa difícil de superar após o boom mediático de 2015, espera-se para a edição deste ano excelentes concertos e uma semana sonora bem mais linear do que em outros anos. O ambiente esse continuará a ser o mesmo, iremos ficar frustrados, acolher, ser acolhidos, sorrir e pular com garrafas na mão, e na fim da semana, com uma bagagem cheia de novas memórias, o “Paredes já não é o mesmo” será um repetido “Até para o ano Couraíso!”

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