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Altar of Plagues • De oprimidos a monarcas

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Em pleno século XXI pós-modernista, a humanidade já testemunhou progressos significativos nas mais diversas áreas concebíveis, não escapando a música a esta abrangência de áreas suscetíveis a avanços. Por muito que a nostalgia e as consequentes saudades estejam inerentes aquilo que uma vez foi e hoje não é mais, os ciclos evolucionários fluem naturalmente e são responsáveis por revelações de coisas interessantes até esse ponto ocultas, e sobretudo por lufadas de ar fresco.

O Black Metal é um daqueles géneros musicais em que a audiência – regra geral – sente um incontestável apego àquilo que são as raízes do género. Darkthrone, Emperor, Burzum (Varg Vikernes), Mayhem, Bathory e Dissection fazem parte dos grandes nomes daquilo que é por muitos considerada a derradeira génese do subgénero marginalizado mas indubitavelmente autêntico que é o Black Metal. Contudo, os últimos 10 anos trouxeram todo um movimento de Black Metal americano que – para desagrado de muitos dos ouvintes que se fazem notar elitistas “trv cvlt” – concedeu ao mundo um conjunto de bandas igualmente autênticas aos seus antecedentes de género, mas cada uma delas com um “take” diferente nisto do black metal. Wolves in the Throne Room, An Autumn for Crippled Children, Ash Borer, Deafheaven, Rival Youth Cults Emerge… e, entre outras, os Altar of Plagues.

Os Altar of Plagues foram um trio (subsequentemente tornado em dupla) oriundo da Irlanda, composto pelo multi-instrumentista James Kelly, pelo baterista Johnny King e pelo baixista Dave Condon. O que faz da banda irlandesa um mecanismo essencial ao Black Metal da atualidade é a abordagem que mostram para com um género de sonoridades bastante solidifcadas, remodelando-o com elementos de subgéneros como o Pós-metal, o Pós-rock, o Death Metal, o Doom Metal, o Extreme Metal e a música experimental. A visão artística dos Altar of Plagues fez-se sentir com o promissor e apocalíptico disco de estreia White Tomb, sendo a posição do grupo solidificada com o subsequente lançamento do mais ambicioso, arrojado e sobretudo cru Mammal. Com dois discos formidáveis emoldurados na parede dos empreendimentos, os Altar of Plagues encontraram-se a eles mesmos no processo de uma ascensão demasiado rápida e significativa para dois anos de carreira. Todavia, foi em 2013 que os irlandeses atingiram o apogeu das suas carreiras, bem como um dos pináculos de qualquer movimento inerente ao black metal.

Teethed Glory and Injury é o trabalho em questão, que ilibou os Altar of Plagues de qualquer réstia de dúvida que houvesse relativamente à criatividade, competência e capacidade de realização que constantemente o duo/trio transpirou. Teethed Glory and Injury é um dos únicos discos que realmente pode orgulhosamente intitular-se de “Pós-Black Metal” – não por esta ser uma descrição hipster arbitrária e pretensiosa, mas porque é isso mesmo que o terceiro disco dos Altar of Plagues fez ao Black Metal moderno: transcendeu-o através do equilíbrio entre o experimentalismo mais coeso que a banda já concebeu e o espírito aguçado que fez do Black Metal um género tão especial desde o primeiro dia. Insuportavelmente dissonante, tragicamente belo. Frio como o inverno mais acentuado, humano como a primavera mais calorosa. Teethed Glory and Injury é o paradoxo que permitiu aos Altar of Plagues passarem de oprimidos a monarcas do género.

É com muita infelicidade que o digo: os Altar of Plagues são hoje uma banda que, embora se mostre ainda recetiva para algumas atuações ao vivo, já não é. A banda irlandesa tinha efetivas razões de ainda ser, e prognosticar aquilo que os Altar of Plagues podiam ter sido com mais um ou dois discos de estúdio deixa-me seriamente preocupado com todas as outras bandas que andam a espalhar a palavra do Black Metal no tempo presente. Porém, a rotura de uma banda é normalmente uma decisão de cariz pessoal, e sabemos que os Altar of Plagues são, mais do que apenas músicos, seres humanos. Seres genuínos, dos únicos envolvidos no mundo da música que ainda se preocupam com a audiência para a qual constroem arte, que mesmo depois do fim ainda se mostram aptas e disponíveis para tocar em qualquer sítio humilde que os receba de braços abertos. Uma atitude destas é de prezar.

Os Altar of Plagues têm concerto agendado para a edição deste ano do Amplifest, que irá acontecer nos dias 19 e 20 de Setembro, e muito provavelmente será esta a última oportunidade que teremos para ver os irlandeses fazerem o que fazem melhor em território lusitano.

Três vénias e um obrigado por tudo.

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Por Rafael Trindade / 12 Agosto, 2015

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Rafael, músico (bateria, vibrafone, marimba, glockenspiel, órgão, guitarra, etc...). Coleccionador ávido de CD's, vinis e outras tantas coisas relacionadas com música.

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