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Bob Dylan: Se não vai a bem, vai a mal

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Na passada quinta-feira, 13 de outubro, quase que consegui criar a minha primeira alegoria. Levantei-me, não sei bem como, e preparei-me para ir para a faculdade. Rotina normal: escolho uma música, preparo o café, debruço o meu corpo quase que à força debaixo de água e desperto para a rotina sarcástica que é a nossa, a do ser humano. O mundo passava todo despercebido aos meus olhos, até a chuva que caía sobre mim. Ouvia música, como sempre, e padecia de uma vontade enorme de ficar na cama. Para meu espanto, e após finalizar finalmente todo o processo burocrático de aluna universitária no estrangeiro, sentei-me numa cadeira da minha primeira aula da tarde e montei a minha primeira notícia para ir para o estúdio. Qual o meu espanto quando, na primeira página de todos os websites que eu procurava, o rosto que emergia do meio de tanta diversificação de lettering e publicidade era o de Dylan, singelo, igual a ele mesmo, como sempre foi desde que me lembro de lhe ter reconhecido o rosto pela primeira vez. Aqui começa, então, a alegoria que vos tentava criar (e, claro, fracassei).

É verdade, Dylan ganhou o Prémio Nobel de Literatura do ano presente. É verdade, foi o primeiro músico em toda a história desta premiação a ser galardoado. É verdade, já se falava nisto desde 2014 quando por Estocolmo sussurravam que o nome de Robert Allen Zimmerman era bastante discutido. Supõe-se que este ano tudo tenha ficado num balanço duro entre Murakami e Dylan, o jurado decidiu, Dylan ganhou o prémio. E agora? Às 13 horas os noticiários avançavam com a notícia, meia hora depois as redes sociais pareciam-se às chamas do inferno.

Qual o meu espanto quando, depois de já ter ouvido “Buckets of Rain” (enquanto passeava pelas ruas molhadas de Valência), eu me sentir sozinha diante de um ecrã cheio de dissertações acerca do sucedido. Os meus olhos brilhavam, mas os de muitos, pelos vistos não. Li de tudo, nunca insultuoso, sempre com aquele cunho intelectual. Li tentativas falhadas e algumas bastante persuasivas de tomar esta nomeação de ponta – a sério que vos incomoda que um músico seja premiado? Senti-me nos corredores da minha antiga escola de secundário, em que todos faziam pouco do sucedido, e encadeavam-se em discursos tórridos, sufocantes e sucessivos, mas nunca realistas. Tudo isto não só me perturbou como, confesso, deixou-me um bocado triste.

Acredito que para António Lobo Antunes tenha sido (embora o mesmo assuma o contrário) uma derrota esquisita, e acredito que para os restantes grandes escritores e filósofos tenha sido uma sensação um quanto agridoce. Mas, para todos os que não aceitaram a premiação, não devia passar de agridoce para amargo. E nem agridoce deveria ser.

Bob Dylan foi questionado toda a sua vida sobre a sua veia artística, há quem afirme que sempre foi mais poeta que cantor, há quem ainda aprecie a sua arte plástica. Ele próprio, com uma destreza indiscutível, criou alegorias e letras para canções cujo caráter quase que esotérico nunca antes tinha sido cantado. A sua voz sempre fora questionada tecnicamente, mas as palavras que dela saem são, indubitavelmente, narrativas de chorar e pedir mais. Bob Dylan foi o primeiro artista nos anos 60 a preocupar-se seriamente com a questão literária em torno da música, embarcando numa batalha que lhe resultou numa discografia com histórias que um dia eu não me importava de contar aos meus filhos. Criou personagens e construiu-lhes quase que um rosto, só que lhes deu vida a canta-las. É esse o problema? Que o Homem que nos disse para sermos eternamente jovens seja um músico e não um escritor? Não estaremos perante uma questão de perspectivas, novamente?

Quantas vezes tantos músicos de calibre não terão estado fechados num estúdio durante horas a tentar escrever uma letra para uma música pronta. Quantas vezes não terão falhado consecutivamente até acertarem na Palavra certa. Dylan conta-nos histórias enternecedoras enquanto toca guitarra. Deu voz a variadíssimos temas sem nunca falar neles em concreto. Trouxe-nos calor ao folk, mudou a conceção de rock…

Mas, sabem? Não me preocupo muito. Hostilidade é algo a quem Dylan (este sintagma precisa de um sujeito) já estava habituado, é algo a que todos os artistas audazes estão habituados. E estou felicíssima que o Mundo avance desta forma, mesmo que ainda exista quem não apoie esta decisão. O Nobel de Literatura pode não ter ido para um de tantos os que se escondem atrás das câmaras, ou que se escondem atrás da tinta e do papel.  Mas vejamos isto como uma porta aberta, e foi Dylan que a abriu.

Maria de Carvalho
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Por Wav / 24 Outubro, 2016
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