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BURST NOISE #1 • FARWARMTH

burstnoise

 

‘What if death is nothing but sound?’
‘Electrical noise.’
‘You hear it forever. Sound all around. How awful’
‘Uniform, white.’

 

Se para Don Delillo, em “White Noise”, o ruído branco é encarado como uma forma metafórica para a eterna e imutável morte, nesta rúbrica o burst noise será o seu perfeito inverso, no espectro de ruído não-branco, ou no sentido mais simbólico no sentido de vida, de criação, de nascimento.  O burst ou impulse noise é quase o grito inicial, o grito do Ipiranga da independência de um ser do útero materno, um choque multilateral com a vida, a criação ou um inicio. Não é muito diferente daquilo que se procura nesta rúbrica que não tem periodização, não tem datas, não tem limites, mas certamente terá um fim. Através dela procuramos dar a conhecer, ou pelo menos disponibilizar informação sobre alguns dos projetos – na sua maioria, mas não na sua totalidade, portugueses – ligados à música eletrónica e suas descendentes, que nos despertam a curiosidade e a atenção por um motivo ou outro. Estes artigos são elaborados depois de conversas ou entrevistas com os artistas escolhidos, a dedo, para o propósito. E a nossa primeira rúbrica incide sobre Afonso Arrepia Ferreira, aka FARWARMTH, um dos cabecilhas da label e promotora Alienação.

A Alienação procura, acima de tudo, “lançar trabalhos de novos artistas ligados à música eletrónica tanto na sua vertente experimental como na música de dança, não excluindo possíveis projetos fora desses rótulos” contando já com o primeiro longa-duração de FARWARMTH e com trabalhos, entre outros, de Rui Campos, trash CAN, d//s e PURGA. Em vista estão alguns lançamentos mantidos em mistério e planos para o lançamento de edições com compilações de artistas em formato k7.

A promotora tem prosperado, acima de tudo, na capital, através de inúmeros concertos em salas como o DAMAS, Zaratan, EKA Palace, Lounge: “É natural que a concentração do nosso público tenha mais peso na capital pois é onde realizamos mais eventos.”. Com tantas passagens por salas lisboetas, com 16 lançamentos (que podem e devem ser ouvidos no Bandcamp da label) é de admirar que apenas há um par de meses a Alienação tenha celebrado o seu primeiro aniversário. 4 de fevereiro de 2016 foi a sua data de nascimento, segundo Afonso: “dia em que mostrei o meu primeiro álbum ao João Melgueira. Amigo esse que me propôs a ideia de começar uma netlabel/promotora para divulgarmos tanto online como ao vivo o crescente número de projetos dentro da música eletrónica em Portugal”.

No entanto, a bonança tem-se alargado aos quatro ventos, acima de tudo à cidade invicta, onde a Alienação se vai estrear no dia 29 de abril, no mítico Passos Manuel, depois de três passagens a norte, sendo que a mais recente foi no Juno, em Braga, para uma casa praticamente cheia. Quando inquirido sobre as maiores dificuldades enquanto promotora, Afonso responde: “Apesar de haver um grande número de salas por vezes os donos ou curadores desses locais nem sempre estão abertos a disponibilizar o espaço. Felizmente isso cada vez acontece menos e o número de eventos, desde uma série de concertos a apresentações de EPs e álbuns, é cada vez maior e melhor recebido tanto pelos locais como pelo público.”.

Se o Porto apenas assiste agora à estreia da Alienação, isso também vai ao encontro de algumas das queixas mais recorrentes dos portuenses, de que faltam espaços que abriguem e apostem nestes projetos – falta variedade, e falta uma aposta consistente e assertiva na música eletrónica. Falta que, no entanto, tem vindo a ser colmatada por promotoras como a Puro Fun que trouxe à invicta Moor Mother com Mada Treku, e que tem agendado em parceria com a Macho Alfa para 26 de maio, nada mais, nada menos que James Ferraro (com Ducktails e Typhonian Highlife), também no Passos Manuel.

 

FARWARMTH e as pulsações arrítmicas

 
A primeira memória que tenho de compor algo creio que foi por volta dos meus 10 anos, num autocarro que fazia a ligação entre o Porto e Bragança. Trazia o meu portátil, oferecido pelo programa e-escolas, ao colo com um software para escrever partituras que quando terminadas era possível selecionar um instrumento e ouvi-lo tocar a peça. Anos após esse interesse ficou de lado e deu lugar bandas de metal que nunca funcionaram. Por entre um par de episódios desses creio que desenvolvi um interesse pela improvisação ao piano e uma certa vontade de me desprender um pouco de ritmos fixos e música escrita. Nessa altura conheci algumas pessoas que me deram a conhecer uma mão cheia de artistas dentro da eletrónica na sua vertente experimental e contemporânea – o que me ajudou a canalizar tais erupções improvisacionais. Desde as aulas de instrumento, bandas de metal, e o que as pessoas à minha volta me oferecem, penso que tudo contou para o que hoje apresento como o meu trabalho.”

Com apenas 18 anos, Afonso Arrepia Ferreira, para além de ter co-criado a Alienação com João Melgueira, estreou-se com Beneath the Pulse, em 2016, um dos longa-duração dos mais interessantes dos últimos tempos, que demonstra já uma maturidade artística atípica da idade. Disco que, segundo Afonso, “teve um feito de catapulta, no sentido de me ter lançado numa série de concertos ao longo do ano. O feedback foi dado maioritariamente online e foi bastante positivo, recebi convites de diversos coletivos artísticos como a ZigurArtists para atuar por várias salas em Lisboa e além disso, através da Alienação e do meu colega de editora João Melgueira, foi-me possível marcar outras tantas datas na capital.”.

Beneath the Pulse transborda de uma melancolia desdita, que nos remete para um simbolismo explosivo de Rimbaud a um mais decadente e mergulhado em ópio de Camilo Pessanha. É um álbum autobiográfico que adquiriu o nome “numa ida ao hospital, que na altura era frequente devido a um problema de coração, os batimentos que se aceleravam sozinhos por razão nenhuma e a falta de ar”. Um álbum, quiçá, sobre as dores de crescimento com um processo de produção descrito como “em camadas de pianos acústicos e sintetizadores com guitarras e xilofones esticados e transformados”. Ouvimos de tudo neste disco, uma parte da essência de Afonso, que admite que o álbum é acima de tudo autobiográfico, mas também somos capazes de ouvir ecos do nosso próprio passado num exercício de apropriação de que chamamos de “audição”. Ouvimos, como que numa retrospetiva matura e conscienciosa, ecos da adolescência, entre a inocência nefasta de quem saiu da infância e a curiosidade infinita que balança nas possibilidades em aberto, para nos lembrarmos com um trago de saudade e desilusão que nos corria na saliva dos primeiros amores.

Quando inquirido sobre novos projetos no horizonte, Afonso revela está a trabalhar no primeiro álbum de PURGA depois de terem lançado o primeiro EP gravado ao vivo, no Desterro. Também já começou a desenhar os esboços do próximo álbum de FARWARMTH, que terá um elemento acústico mais presente: “Elevando também a componente eletrónica, este trabalho contém algumas peças compostas para instrumentistas e momentos de improviso pelas mãos de jovens músicos como a Victoria Mailho, do Porto, na flauta transversal e a Bruna de Moura, de Lisboa, no violoncelo. Vai contar também com composição e produção adicional do baterista Pedro Menezes, de Braga, que me acompanha por vezes ao vivo como foi o caso da abertura para o concerto de Kara-Lis Coverdale na ZDB no passado mês de outubro. Menciono as cidades de onde cada elemento provém porque creio que esta teia entre criadores e intérpretes que se estende pelo país é de importância para o conceito do álbum, que não posso para já revelar.”

Podem encontrar a Alienação no Bandcamp e no Facebook, e também seguir os passos de FARWARMTH na sua página de Facebook.

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Por Sara Dias / 26 Abril, 2017

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