wav@wavmagazine.net | 2014 | PT
a
WAV

Daft Punk – Homework (1997) | Máquina do Tempo #10

mdt2

 

20 de janeiro de 1997. Enquanto o Reino Unido nadava alegremente num oceano de britpop, uma revolta musical tinha a sua nascente no outro lado do canal. Por outro lado, eu tinha dois anos e estaria provavelmente a babar-me para cima de um qualquer brinquedo, longe de imaginar o impacto que o álbum de estreia de Thomas Bangalter e Guy-Man de Homem-Christo viria a ter em mim ou em toda a indústria da música eletrónica.

Para os fãs casuais de Daft Punk, mais familiarizados com o universalmente amado Discovery, de 2001, ou com a música que esteve nas bocas do mundo em 2013 – “Get Lucky”, do Random Access Memories -, recuar vinte anos e ouvir o seu primeiro projeto pode ser um exercício quase extraterrestre. Com uma discografia em constante evolução sonora, Homework está praticamente separado das tão célebres vozes robóticas ou dos acordes espaciais, sendo a sua atmosfera infinitamente mais crua, mais visceralmente experimental e mais primitiva.

Mas como é que estes miúdos franceses – começaram a carreira aos dezoito anos – mudaram ao certo o curso da música eletrónica (e não só) para sempre? O álbum foi uma lufada de ar fresco a nível musical, mas há toda uma série de outros fatores onde o duo comandava também a linha da frente.

Gravar um álbum em casa era algo completamente inconvencional nos anos 90. Feito maioritariamente no quarto de Thomas, de forma assumidamente experimental e como se fossem miúdos a divertirem-se com brinquedos, esta maneira de criar e fazer música foi algo que inspirou uma quantidade sem fim de músicos quando se aperceberam que um álbum tão bem produzido e tão icónico podia ser feito de forma barata. Estes jovens parisienses abriram o caminho para tantos artistas por serem tão progressivos quanto foram; uma música como a “Rollin’ & Scratchin’”, por exemplo, mesmo sendo tão dissonante e áspera, é uma autêntica aula sobre técnicas criativas de produção, porque muitos dos “grunhidos” dessa faixa foram obtidos com um sintetizador ligado a um pedal de distorção e através de muitas experiências com o jack que os ligava. A prova de que estas técnicas experimentais, tanto de gravação como de composição, tiveram um impacto enorme pode ser observado, por exemplo, no fenómeno Tame Impala: Kevin Parker grava todas as músicas em casa, sozinho com os seus instrumentos, e também utiliza métodos sobre os quais um engenheiro de som teria pesadelos, como ligar a guitarra diretamente ao computador e daí gravar uma das mais populares melodias de guitarra dos últimos anos. Ainda tão ressonante como há vinte anos atrás, Homework é o exemplo perfeito do quanto se pode fazer com tão pouco.

Na altura de assinarem por uma editora, optaram pela Virgin porque foi a única que aceitou as suas exigências: os Daft Punk manteriam os direitos de todos os masters das gravações, e não podia ser tirada nenhuma fotografia em que os rostos de Thomas e Guy-Man estivessem expostos – alínea posta no contrato devido à timidez dos músicos franceses. Em 1997 ainda não se tinham transformado nos robôs que hoje conhecemos mas já rejeitavam a persona de rockstars que as revistas e os media queriam cultivar em tudo o que era popular na altura. Esta mensagem de que a música é que é o produto, e não eles enquanto celebridades, inspirou e continua a inspirar muitos artistas a focarem-se na música e a ignorarem a fama, como é o caso de Frank Ocean, por exemplo, que faz questão de se isolar dos media durante anos para se poder concentrar no seu trabalho. Há sempre uma aura de enigma e misticismo à volta dos Daft Punk e isso estende-se até aos dias de hoje (aliás, quanto mais tempo temos de esperar por uma nova tour?).

Para além de tudo isso, Homework foi a porta de entrada a um movimento musical prestes a romper as costuras do mainstream. Fazendo parte de um grupo de artistas que iriam criar as raízes da cena eletrónica francesa da década seguinte – como os Air ou os Cassius -, os Daft Punk estavam confortavelmente na frente dessa revolução, e tudo graças ao seu álbum de estreia. Mesmo que inicialmente a sua ideia fosse ir lançando singles ao longo dos anos 90, rapidamente perceberam que o material que tinham era bom o suficiente para constituir um álbum inteiro. E ainda bem, porque a experiência é completamente diferente, quase como se de um álbum conceptual se tratasse, certamente imersivo e autêntico do início ao fim.

 

daft-punk-1200x800

 

“Daftendirekt” abre o álbum com uma voz filtrada, incessantemente repetindo a frase “The funk back to the punk, come on!”. Esta exclamação, aliada ao beat forte que a acompanha, é o teaser perfeito daquilo que podemos esperar do álbum: um conjunto de ritmos tão agressivos quanto dançantes. E esta referência ao punk é certeira; a terceira faixa, “Revolution 909” – um claro piscar de olho à “Revolution 9” dos Beatles e uma homenagem à famosa drum machine, Roland TR-909 – é contra o governo e contra as autoridades francesas, demasiado ignorantes para saberem que as festas de techno e house não eram apenas sobre drogas, fazendo com que as raves fossem constantemente vítimas de rusgas policiais – alguém grita “Spot the music and go home!” no início da música.

Mas se Homework tem um lado mais cru, áspero e agressivo, como se pode ouvir em “Alive” – uma das suas composições mais minimalistas, bombeada do início ao fim com um pulsar implacável -, “Rollin’ & Scratchin’” ou “Rock’n Roll”, também tem outro bem mais relaxado e chill, como a soalheira “Fresh”, onde uma guitarra toca as notas de uma brisa oceânica, ou as vibrações sonoras de “Phoenix”, que pega num sample da “Don’t Go Breaking My Heart” do Elton John e da Kiki Dee, baixa-lhe um tom e meio, e faz a festa sozinha.

“Around the World” é a música que encapsula o som dos Daft Punk no seu estado mais acessível: uma melodia de sintetizador, tão minimalista quanto catchy, uma linha de baixo acabada de sair dos tempos do disco dos anos 70, e um refrão insistente. E quem se pode esquecer do seu icónico videoclip, realizado por Michael Gondry, que contava com múmias e robôs numa dança sincronizada coletiva, popularizando ainda mais a música e o duo francês? Mas se a voz ocupa um dos principais papéis em “Around the World”, noutras o mesmo efeito é atingido utilizando uma variedade enorme de sons; as oscilações tontas e carregadas de groove em “Indo Silver Club”, o grunhido torturante que gera a energia de “Rollin’ & Scratchin’”, ou a guitarra mergulhada em ácidos de wah-wah em “Da Funk”.

“Da Funk” é certamente uma das músicas mais cool que Thomas e Guy-Man alguma vez compuseram, mas defini-la é uma tarefa que se revela desgastante. Será techno? Hip-hop? Funk? Rock? A verdade é que a música incorpora todos estes estilos de uma maneira ou doutra e dá-lhes uma roupagem completamente diferente, tornando-se em algo pujante e esmagador, e não é de estranhar que tenha sido esta a principal causadora de todo o fenómeno Daft Punk. Muito se deve também ao videoclip algo kafkaesco, realizado por Spike Jonze, que seguia um homem envergando uma máscara de cão na cabeça, a andar pela cidade, com uma mão a carregar uma muleta e na outra uma boombox que explodia a “Da Funk” a alto som. Este lado mais surreal decerto pôs as pessoas a falar sobre o duo francês; era uma abordagem única a um videoclip de estreia e o impacto falou por si mesmo – “Da Funk” chegaria mesmo a vender mais cópias que o próprio Homework.

“High Fidelity” é um caso fascinante e a prova viva do quão à frente estavam os Daft Punk. O sampling, verdade seja dita, não era algo novo na altura, mas foi nesta música que um dos seus usos mais extremados foi levado a cabo; aplicaram uma abordagem esquizofrénica ao clássico de Billy Joel, “Just The Way You Are”, e ainda que nunca tenha sido confirmado por eles se foi de facto esta a música que usaram – no álbum inteiro só existe um sample creditado; “Hot Shot”, da cantora Karen Young, que pode ser ouvido numa das faixas mais explosivamente dançáveis de todo o álbum, “Indo Silver Club” -, os excertos flagrantes de saxofone, teclas e voz tornam-se óbvios que foram estas as cobaias, mesmo que a música os leve a um nível tão absurdo, tão separado da composição original e do seu contexto. O génio aqui reside no facto de eles usarem parte das técnicas de produção do hip-hop do início dos anos 80, que consistiam em criar uma colagem sonora, usando pequenos excertos de um conjunto de artistas ou sons (e raramente creditando-os); os excertos usados nesta música, ainda que venham todos da mesma composição de Billy Joel, e a maneira como estes miúdos franceses os trabalharam, são um dos melhores exemplos da atitude dos Daft Punk em pegar em regras e convenções estabelecidas e usá-las como bem lhes apetece.

Ouvir o álbum pela primeira vez é uma experiência sem igual; um ouvinte não habituado a este tipo de sons, tão diferentes das demais bandas e artistas, provavelmente achará as músicas quase irreconhecíveis entre si, sem personalidade ou características suficientes para que se possam chamar de “música”. Pode não fazer sentido ao início, mas também nunca nada verdadeiramente inovador faz, e é esse fator de novidade que dá azo ao misticismo; os Daft Punk fizeram música eletrónica na sua forma mais hipnótica e inumana. Quando artistas como o Fatboy Slim ou os Chemical Brothers traziam vocalistas convidados e usavam samples de músicas de rock, o duo francês provou que o techno e o house podiam ser tão divertidos quanto o mais pop da pop, sem nunca perder a sua essência hipnótica e acídica. O álbum tem este efeito incrível de beliscar sinapses e nunca mais abandonar o cérebro de quem o ouve.

Eles conseguiram fazer aquilo que todos os músicos anseiam e passam uma carreira inteira a tentar: pôr os ouvintes a questionarem-se em como foi possível fazer algo assim. Completamente distante do som da Eurodance que se vivia por todo o lado na altura, este primeiro álbum dos miúdos franceses fez com que as pessoas se apercebessem que com imaginação, criatividade, respeito pelos pais da música house (não é por acaso que o álbum contém uma faixa chamada “Teachers”, onde o duo enumera todos os seus heróis musicais e criativos, desde Brian Wilson a Dr. Dre) e algum equipamento decente, é possível criar boa música.

Homework não soa datado, em contraste com qualquer outro álbum de música eletrónica da altura, e tudo isto se deve à visão e dedicação de Thomas e Guy-Man. Se tivesse sido lançado ontem ninguém questionava a sua presença; é assim tão intemporal e tão à frente do seu tempo. Eles perceberam realmente a música eletrónica logo no seu álbum de estreia, e isso porque introduziram uma nova abordagem na criação de música eletrónica que não se desviava por completo das sensibilidades pop, fazendo com que as suas músicas se tornassem em clássicos instantâneos.

Se nos anos 60 e 70 tantos miúdos foram inspirados por Jimi Hendrix e Eric Clapton a pegarem numa guitarra elétrica, também hoje em dia tantos outros colocam o duo francês num pedestal não distante dos deuses das seis cordas. Aquilo que eles influenciaram é inegável e ao mesmo tempo incrivelmente diversificado, desde os The Avalanches até ao LA Priest, passando por tantas colaborações com o Kanye West (que chegou a usar um sample duma música dos franceses em 2008, resultante num enorme sucesso que o catapultou para o mainstream) ou, no último ano, The Weeknd, com um dos maiores hits da sua carreira. A frase “The sound of tomorrow, the music of today” pode ser ouvida na segunda faixa de Homework e agora, passados vinte anos, podemos apreciar o quão profética foi realmente esta declaração.

Enquanto tantas bandas nos anos 90 trabalhavam para criar um mundo onde a música eletrónica se fundia com o rock, os Daft Punk imaginavam um em que a música eletrónica era o rock. E os robôs fizeram bem o seu trabalho de casa; estavam à frente daquele que viria a ser o som do século XXI, já em 1997.

Share Button

Comentarios

comentarios

Por Pedro Gomes / 1 Fevereiro, 2017

Deixar um comentário

About the author /


~