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Emma Ruth Rundle • Um casamento de sonoridades

Emma-Ruth-Rundle - Cópia

“ I don’t think that that darkness can ever be dissolved or overcome, it just comes in waves. When you’re making this kind of music you sort of reside in that space. ”

 

 
 
 
Some. Heavy. Ocean.

Este não é o primeiro álbum a solo lançado pela Emma Ruth Rundle, que previamente lançou Electric Guitar One, um álbum baseado nos improvisos de guitarra, gravados durante seis semanas na tour europeia de 2010 com Red Sparowes. Electric Guitar One é um álbum de paisagens, no qual a Emma explora sonoridades minimalistas e ambientais e cria toda uma atmosfera de nostalgia que nos remete para um vale inundado de nevoeiro conciso que não nos deixa ver para além da distância da nossa própria mão. Mergulhamos assim numa sinfonia de reverb e de leves distorções que nos são apresentadas sob a forma de 6 faixas, mas que são de uma tal coesão que mais parece uma única faixa continua, uma melancolia contínua, como que condensada em apenas 30 minutos.

Já em Maio de 2014 chegou-nos Some Heavy Ocean, um álbum que se nos apresenta como uma amálgama de influências e géneros: podemos encontrar influências nítidas de folk e de dream pop (“Arms I Know So Well”), mas também influências góticas (que se denota nas letras) e drone com acordes minimalistas e repetitivos, – essa influência sobressai no tema “Living With the Black Dog”. De certa forma, este primeiro longa duração remete-nos para um mistura Mazzy Star e Chelsea Wolfe (acima de tudo no álbum Apokalypsis), com uma abordagem muito mais pessoal, depressiva, melancólica, de certa forma mais pesada. Em entrevista à Noisey, Emma diz que este álbum foi como como uma superação pessoal: “There were things I dealt with in that year: trying to be sober and getting out of a really self-destructive time”. As letras de Some Heavy Ocean são completamente abstratas e metafóricas, não falam de algo em concreto o que proporciona um lapso espacial para o ouvinte se identificar – no entanto, as letras não são geniais e tendem um pouco para alguns clichés. Apesar disto, é um álbum que nos submerge numa onda de nostalgia, de saudade; mergulhamos no nosso próprio vazio, na nossa solidão, e nesse sentido é um álbum com uma atmosfera claustrofóbica. O sofrimento é palpável na voz de Emma Ruth Rundle que nos guia pelas 10 faixas que compõem este álbum, e que acaba por ser o seu ponto mais surpreendente – depois de apenas se dedicar à guitarra nos Red Sparowes, ou da sua voz ser apenas mais uma textura na amalgama sonora que são os Marriages no seu EP de estreia, Kitsune, a voz de Emma torna-se o ponto central deste álbum, e afirma-se como uma das vozes mais interessantes dentro do cenário folk da contemporaneidade.

 
Já no decorrer de 2015 chegou-nos o longa duração de estreia dos Marriages, Salome. Antes, nomeadamente em 2012, surgiu o EP de estreia. Este é um álbum etéreo: as vocais de Emma desvanecem dentro da sinfonia de distorções da sua própria guitarra e do baixo, o que dá origem a atmosfera consistente e densa em Kitsune, onde se denota-se uma influência acrescida de sonoridades típicas de shoegaze. Passados três anos e com um novo baterista Andrew Clinco, chega finalmente Salome. Em comparação a Kitsune, este é um álbum mais conciso e cristalino, chega-nos com sonoridades mais limpas, quer por parte da guitarra e dos vocais da Emma. Porém, apesar desta mesma precisão, este continua a ser um álbum de fusão de géneros e influências como Emma Ruth Rundle já nos tem vindo a habituar ao longo da sua carreira e dos seus mais variados projetos. Salome surge-nos envolto num véu de misticismo, uma vez que Salomé é um nome que nos remete para a personagem bíblica que, por vingança, pediu que a cabeça de João Baptista lhe fosse servida numa bandeja. Apesar de não ser um álbum conceptual, este título serve como metáfora e epígrafe da atmosfera quase-exótica e quase-macabra que o envolve. Salome não é tão imediato quanto aparenta à primeira audição: é um álbum de camadas, e a cada audição ficamos mais perto do seu núcleo, um qualquer oceano pesado, não por nos depararmos com sonoridades pesadas, mas por nos depararmos com uma atmosfera surpreendentemente pesada e densa.

Para além do projeto a solo e dos Marriages – projetos com que, presentemente, anda em tour – Emma Ruth Rundle, depois da saída de Josh Graham em 2008, fez parte de uma das bandas mais sonantes dentro do universo do post-rock e post-metal: os Red Sparowes. Ainda em 2008 gravaram um EP, Aphorisms, apenas disponibilizado online na Amazon e no ano seguinte lançado em formato vinil via Sargent House. Em 2010 chegou-nos The Fear is Excruciating, But Therein Lies the Answer. Este é um álbum de camadas, de sonoridades muito densas e acima de tudo devido à pedal steel guitar de Greg Burns, onde novamente nos deparamo com uma atmosfera melancólica e misantrópica. Depois do lançamento do álbum e da sua subsequente tour, os Red Sparowes entraram num hiatus indeterminado.

Como já nos têm vindo a habituar ao longo das últimas edições, com Marissa Nadler (2014) e Chelsea Wolfe (2013), a Amplificasom volta a brindar o cartaz do Amplifest com mais uma das singer-songwriters mais interessantes da atualidade. Emma Ruth Rundle, a solo, é uma das artistas que poderão ver e ouvir na 5ª edição do Amplifest, que se irá realizar nos dias 19 e 20 de Setembro de 2015, no Hard Club (Porto). Para além da Emma Ruth Rundle estão confirmados: Altar of Plagues, Amenra, Atillla Converge, Filho da Mãe, Full of Hell, Gnaw Their Tongues, Juseph vs. Memoirs of a Secret Empire, Metz, Nate Hall, Stephen O’Malley – membro fundador dos Sunn O))), Wiegedood e William Basinski.

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Por Sara Dias / 12 Julho, 2015

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