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Leonard Cohen • Let us (not) compare mythologies

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Leonard Cohen deixou-nos no passado dia 7 de novembro. Deixou-nos, de facto, catorze álbuns de estúdio, deixou-nos hinos que percorreram gerações, deixou-nos mais de 300 versões de “Hallelujah” e deixou-nos em lágrimas, antes e depois. Mas deixou-nos também, dia 7 de novembro, treze livros de poesia e dois romances.

Recordamos Cohen como um dos maiores cantautores dos tempos modernos – somos lembrados a cada nova canção, – mas frequentemente nos esquecemos de que foi precisamente na escrita que se iniciou e que foi nela que se gerou o génio. Nascido em 1934 no Canadá, no seio de uma família judia, intelectual e de classe-média, foi desde cedo encorajado a desenvolver o seu interesse pela poesia e pela música, encontrando na teologia judaica e nas histórias do velho testamento muito do sumo para o seu futuro trabalho. Sabemos que numa altura em que atuava já em pequenos cafés e bares de Montreal, o jovem Leonard viria a conhecer o trabalho de Yeats e de García Lorca – que este último se viria a tornar uma inegável influência na sua própria obra – e que a poesia se manifestava já então como sua grande paixão. Terá sido, porém, na Universidade McGill, onde estudou Inglês durante quatro anos, que a escrita foi vislumbrada pela primeira vez como eventual ocupação a tempo inteiro, levando Cohen a dar-lhe prioridade face aos próprios estudos. E, no entanto, foi lá que leu Tolstoi, Proust, Eliot, Joyce e Pound, que foi introduzido a um círculo de poetas cujo papel foi de extrema importância na sua vida, e que publicou os seus primeiros poemas. Um primeiro livro de poesia, Let us Compare Mythologies, seria publicado em 1956, um ano depois da sua graduação.

Cohen viveu os seguintes onze anos entre empregos de naturezas distintas, escrevendo e sonhando poder viver e sobreviver da sua escrita. A publicação de The Spice-Box of the Earth em 1961, um sucesso de crítica e de vendas que estabeleceu o autor como voz relevante no panorama literário, prefigurou-se brevemente como o sonho tornado realidade. Durante um período particularmente próspero, Cohen publicou as coleções de poesia Flowers for Hitler em 1964 e Parasites of Heaven em 1966, bem como os romances The Favorite Game em 1963 e Beautiful Losers em 1966. Em breve Cohen aperceber-se-ia de que apenas a escrita não o poderia sustentar financeiramente pelo que se voltou de novo para a música, sua velha e fiel amiga, que no final de contas se afigurava como um “veículo natural” para a sua poesia. Em 1967, volvidos 33 anos de vida, quatro livros de poesia e dois romances publicados, Cohen instala-se no infame Chelsea Hotel, em Nova Iorque, e a oportunidade de uma carreira musical é recebida de braços abertos. A poesia, que continuará a ser gravada em papel, é agora também cantada e musicada.

É a poesia que, em último caso, lhe atravessa a vida, qual fiel amante com quem trai qualquer mulher e trespassa toda a musa. E, de facto, também as mulheres desempenham, do início ao fim, papel central na obra de Cohen, eterno objeto de fascínio e assombro. É para elas – Marianne, Suzanne, quem sabe até Janis Joplin com quem é dito ter-se envolvido brevemente naquele Chelsea Hotel – que frequentemente escreve e para quem depois canta, muitas vezes dirigindo-se-lhes diretamente. A acompanhá-las, Deus, a angústia, a morte – cada dia mais próxima –, o sagrado e o profano, elementos que por vezes conferem à sua poesia um tom de elegia que nos é, no entanto, próximo e familiar. Os detalhes reais do quotidiano que aproximam o público de si são assim incorporados numa escrita alimentada pelo religioso, ainda que por nenhuma religião institucionalizada em particular: “anything, Roman Catholicism, Buddhism, LSD, I’m for anything that works”, diz Cohen a certa altura.

Falar de Cohen enquanto escritor e poeta assume uma nova importância quando, poucas semanas antes da sua morte, um outro famoso cantautor alcançara um marco histórico ao ser galardoado com o prémio Nobel da Literatura. A atribuição do prémio a Bob Dylan foi contestada por muitos, por diversos e variados motivos, e por muitos foi também defendido que teria sido de maior justeza premiar Cohen. Ora, se Dylan foi ou não merecedor do Nobel ou se Cohen seria mais justo vencedor caberá aos entendidos afirmar, mas que o acontecimento nos sirva para que possamos hoje reapreciar o papel e estatuto daqueles que escrevem letras para músicas. A partir daqui conseguimos, pelo menos, chegar a uma distinção básica e radical entre entertainers, por um lado, e indivíduos dignos de serem considerados à receção de um prémio literário, por outro.

Numa entrevista à revista Rolling Stone em 2001, Cohen admitia nunca ter dignificado o seu trabalho com o termo “poesia”, conceito que preferia pensar como um veredicto ao invés de uma intenção – veredicto esse que caberia a uma outra geração determinar. Ainda que se dissesse satisfeito com o termo inglês songwriter, esta sua afirmação deixará porventura entrever o desejo de vir a ser reconhecido como poeta, na verdadeira aceção e em toda a extensão da palavra. Felizmente nos confiou a nós – a outra geração – a tarefa de o consagrar como poeta que foi. Possamos viver à altura desse dever.

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Por Camila Lobo / 10 Dezembro, 2016
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