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Misty Fest: A melhor música nas melhores salas

Jorge Palma Misty Fest

O que podemos retirar deste festival para gente grande? Exatamente o que o slogan diz: ”A melhor música nas melhores salas”. Este ano só tivemos oportunidade de lá ir por dois dias, porém, tencionamos nos anos seguintes apoiar mais e mais as iniciativas da Uguru e companhia em trazer artistas e ter iniciativas que mais nenhuma outra promotora sequer equacionaria trazer ou promover. Kudos Uguru.

Dia 6 de novembro chegou a nossa vez de nos estrearmos no Misty Fest, desta feita com o concerto do grande Jorge Palma – músico que é bem mais do que o detentor do single de sucesso ”Encosta-te a mim”, só para os mais distraídos. Jorge Palma conta com uma carreira de mais de 40 anos e veio especificamente atuar neste dia para apresentar, talvez, o seu álbum de maior sucesso: Bairro do Amor, editado em 1989.

O concerto estava esgotado e o sucesso foi tanto que já marcaram uma data extra: 28 de Janeiro – no mesmo sítio e à mesma hora. “Frágil (I)” iniciou o concerto que de frágil teve pouco, aliás, foram mesmo bem sólidas estas duas horas e meia de concerto, percorrendo do início ao fim as 11 músicas que compõem este Bairro do Amor e ainda acrescentando mais 14 do seu restante repertório e 1 cover de Bob Dylan. Mais não se poderia querer. As músicas mais celebradas desta primeira parte de concerto foram, as já esperadas, ”Frágil”, ”Dá-me Lume” (que arrancou uma grande ovação da plateia) e ”Só”. O público não se conteve em animar o artista e sempre que podia: nos intervalos das músicas, interagia com Jorge Palma e este também não se acanhava e respondia a todas as provocações que lhe faziam, que variavam desde o ”És lindo!” ao ”Toca a Estrela do Mar!”. Foi belo poder ouvir ao vivo as magníficas canções que são ”Minha Senhora da Solidão” e ”Passos Em Volta” entre as outras já referidas em cima, aliás, todo este disco é digno de ser ouvido de uma ponta à outra…

A segunda parte do concerto abriu com Jorge Palma a atirar-se à guitarra em ”Página Em Branco”, um tema que fala sobre ”o nada”, o bloqueio creativo dos músicos, retirado do álbum que saiu em 2011 (o seu último à data) com o mesmo nome, e ”Espécie De Vampiro”. ”Estrela do Mar” tocada só ao piano fez o regozijo dos presentes e ”Deixa-me Rir”, logo de seguida, arrebatou a sala desde as cadeiras de orquestra ao balcão mais longínquo. ”Portugal, Portugal” que contou com os coros de Vicente Palma (filho mais velho do artista), pôs término ao alinhamento regulamentar, porém não foi por muito tempo. A ”Canção de Lisboa” ecoa nos amplificadores do CCB e pouco se pode fazer quando somos arrebatados por esta música, fechamos os olhos e abrimo-los apenas para procurar a nossa para que esta nos liberte do mal… esta música é daquelas na qual o tempo não toca, passados 30 anos a música soa igualzinha à primeira vez que a ouvimos. ”Jeremias – o fora da lei” é tocado ao banjo e ”Encosta-te a mim” apesar de parecer ter sido embutida à pressão neste alinhamento não poderia deixar de ser tocada: muitos aplausos, muitos apupos. ”A Gente Vai Continuar” como que em modo de aviso, encerra o primeiro encore que dá origem, quase imediatamente ao segundo, e já com o público de pé este ‘Palma’s Gang’ arrisca ”Like A Rolling Stone” de Bob Dylan (influência assumida do cantor) e dá por terminada esta atuação muito próxima da perfeição.

”Olá, sempre apanhaste o tal comboio?”, apanhámos e bem, nunca a ligação Belém-Cais do Sodré nos soube tão bem. Podemos descrever o concerto com esta música: entra de mansinho ao pianinho para, em crescendo, acabar apoteótico numa simbiose incrível entre todos os instrumentos, neste caso, os músicos e o público.

Isto é coisa para voltar a repetir!

 

misty fest

Seis dias depois da nossa estreia e ainda na ressaca do concerto anterior, ”cá estamos nós outra vez”. Voltámos ao local do crime, desta feita para vermos o Rodrigo Leão (ex-Madredeus/Sétima Legião) e o seu Cinema Ensemble. Este Misty Fest cada vez mais se faz ouvir no panorama dos festivais urbanos portugueses, pois esgotar vários concertos num Grande Auditório do CCB, com concertos a ocorrerem no mesmo dia, sendo alguns na sala ao lado, não é brincadeira fácil. Isto tudo para dizer que esta era a data adicional em que Rodrigo Leão se propôs a tocar, pela terceira vez em Lisboa, o seu novo espetáculo ”O Espírito de um País”, apresentado, primeiramente, defronte da assembleia da República com uma grande orquestra a acompanhá-lo.

Era notória a diferença do público do Jorge Palma para este do Rodrigo Leão, sendo o deste último bastante mais idoso que o do primeiro, pelo menos nesta segunda data.

O concerto inicia-se com ”As Ilhas dos Açores”, tema dos Madredeus, mítica banda que ainda hoje dá uma bastante boa imagem musical do país ao estrangeiro. ”Tardes de Bolonha” mostra o Yann Tiersen que há em Rodrigo Leão… ou então o Rodrigo Leão que há em Yann Tiersen. É de louvar a entrega deste senhor em palco, a atitude de maestro/pianista é incrível de se observar desde a plateia e a sua música não é menos incrível. A carga emocional embutida em cada melodia é soberba, capaz de levar o mais frio coração às lágrimas.

‘O Tango dos Malandros” só não meteu todos a dançar Tango porque não havia espaço suficiente entre as cadeiras do CCB para que tal acontecesse. Sob fortes aplausos, entra Camané, o conceituado fadista interpreta quatro temas: ”Vida Tão Estranha”, ”Voltar”, ”Histórias” e ”Restos De Vida”. Assim de repente, não nos lembramos de nenhum fadista vivo que tenha colaborado com tantos artistas (e tão diferentes que eles são) como Camané. Daqui em diante, sucederam-se os mais belos pedaços de música que Portugal viu nascer neste milénio, com Celina da Piedade (acordeonista) a ser o centro das atenções em ”Guitarra” e ”Alfama” (tema imortalizado pelos Madredeus). ”A Comédia de Deus” (tema que nos recorda sempre o mítico trabalho de João César Monteiro com o mesmo nome) acaba com o set regular.

O artista retorna ao palco para a reprodução de ”Alma Mater” e, já com Camané em palco, iniciar ”Restos de Vida” e dar por terminada esta hora e meia fantástica que foi de certo a melhor hora e meia já vivida por nós numa terça-feira à noite.

Dito de uma forma mais pessoal, Rodrigo Leão encheu o meu coração com os litros de tristeza e alegria necessários para que quando saísse do auditório me sentisse leve de espírito, independentemente do que acontecia à minha volta. Grande Rodrigo, grande banda. Para a próxima quero mais de uma hora e meia!

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Por Diogo Alexandre / 17 Novembro, 2014

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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