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Neurosis: 30 anos de “Strength and Vision”

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Celebramos, em 2016, os trinta anos de carreira de uma das mais influentes, inovadoras e apaixonantes bandas a alguma vez surgir. Falo, claro, dos monolíticos colossos do post-metal e do sludge: Neurosis. Nasceram em meados dos anos 80 e projetaram-se para fora das entranhas de Oakland na Califórnia, com o seu primeiro álbum Pain Of Mind: um sólido lançamento alicerçado no crust/hardcore punk, apresentado ao público, em 1985. Com o passar do tempo foram evoluindo gradualmente a sua sonoridade e a sua abordagem musical, tentando sempre introduzir novos elementos nas suas composições. De sludge metal a folk, de doom a noise, de ambient a industrial: todos estes estilos são explorados e trabalhados ao longo catálogo musical dos titãs californianos.

Construíram uma discografia fortemente marcada pela experimentação e pelo jogo de contrastes sonoros, servindo-se para esse efeito da bateria tribal de Jason Roeder, da profundidade desconcertante do baixo de Dave Edwardson, da misticidade das atmosferas criadas por Noah Landis e, claro, da impetuosidade das guitarras e vozes de Steve Von Till e Scott Kelly. 5 indivíduos, unidos pelo amor à música e pelo desejo de estabelecer contacto com algo superior a si mesmos, algo intangível e transcendente, que nos têm guiado pelas últimas 3 décadas nessa viagem espiritual, introspetiva e até mesmo labiríntica que é a discografia de Neurosis.

O álbum que nos coloca precisamente no coração dessa mesma discografia é o arrebatador lançamento de 1999, Times of Grace, o sexto álbum de estúdio da banda e sucessor de Through Silver and Blood – provavelmente o seu trabalho mais aclamado. Este sexto LP marcou o início de uma nova fase para Neurosis, em que a brutalidade e impetuosidade características dos californianos foram complementadas com resplandecência e brilho, originando, por este motivo, o álbum mais visceral e intenso até então criado por eles. É como se em Times of  Grace a parede monolítica de pedra negra que Neurosis tinha sido até então começasse a quebrar, e por entre as fendas e brechas recentemente abertas nessa fachada monstruosa começasse a pingar luz e, finalmente, entrasse algum ar.

Para intensificar toda esta aura, o lançamento de Times of Grace foi acompanhado por um outro álbum. Grace, de Tribes Of Neurot (basicamente um alter-ego de Neurosis que se focou, sobretudo, em música ambiente), foi criado com o intuito de complementar Times Of Grace, sendo que ambos deveriam ser tocados simultaneamente  (e não necessariamente sincronizados) de forma a criar uma nova experiência auditiva. Os ouvintes são encorajados a experimentar diferentes espaços, definições de volume e até posição de colunas, de forma a criar novas texturas e a atribuir espontaneidade e dinâmica à audição.

Os anos foram passando, e os Neurosis continuaram a inovar e arriscar em cada nova criação, até chegarmos a 2016. Atualmente, encontramo-nos pacientemente a aguardar o lançamento do décimo primeiro LP da banda, que já se avizinha. Fires Within Fires, com data de lançamento prevista para 23 de Setembro, assinala o marco dos 30 anos da assoladora carreira dos californianos e traz consigo uma tour que, pela primeiríssima vez, coloca estes titãs em solo lusitano, graças à organizadora de alguns dos eventos mais significativos no que toca a música e cultura alternativas em Portugal: a Amplificasom. O feito concretizar-se-á dia 21 de Agosto, no Hard Club, Porto, no decorrer do Amplifest, que já nos trouxe, em edições passadas, bandas que se encontram intimamente ligadas a Neurosis e que foram imensamente influenciadas por eles e pela sua carreira. Falamos de bandas como, por exemplo, Ufomammut, os furacões devastadores do sludge/doom psicadélico, cujo último album, Ecate (2015) foi lançado através da Neurot Recordings (editora criada pelos californianos) e que pertenceram ao cartaz de 2012 do Amplifest, ou até mesmo de YOB, que visitaram a Invicta em 2014.

Não há, de facto, palavras suficientemente expressivas para espelhar e transmitir o impacto que, nos últimos 30 anos, os titãs do post-metal Neurosis têm causado nas legiões de fãs que conseguiram conquistar pelo mundo. Com Neurosis, somos convidados a embarcar numa viagem sonora que não se limita a levar-nos ao nosso próprio interior, mas que nos projeta para o tumulto e tempestuosidade que é ser humano, ser Homem. Somos, simultaneamente, arremessados até ao âmago da nossa alma e transportados pelo cosmos infinito. E, vazia de palavras que possam traduzir a experiência imensa que estes senhores me têm proporcionado com a sua música, resta-me apenas dizer o seguinte: Neurosis é arte.

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Por Érica Cardosa / 19 Julho, 2016

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