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O dia em que Bowie morreu

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Sempre me perguntei como se conjugam os verbos depois da morte de uma pessoa. Acabará a morte com todo o sentido de alguém, com todo o propósito da sua vida? Será esse um dos grandes poderes do ‘grande monstro’? – Tornar o ‘’é’’ num ‘’foi’’? – Esta sempre foi uma das grandes dúvidas da minha existência, ainda que seja uma pergunta inútil (se há força contra a qual não podemos lutar é mesmo a morte). Como pode algo ter uma presença tão imponente ao ponto de acabar com um presente e torná-lo num passado (ao contrário de um futuro)? Na pior das circunstâncias, encontrei resposta para a minha questão. E encontrei-a no dia em que Bowie morreu.

Segunda-feira, dia 11 de janeiro de 2016, o mundo acordou de forma diferente. O reboliço de toda a informação era singular, algo longe do que seria, alguma vez, normal: ‘’David Bowie morreu’’, lia-se em todo e qualquer cabeçalho, ‘’Músico de 69 anos lutava contra um cancro há 18 meses’’. Bowie não morreu, ora essa, está a pregar-nos uma partida!- pensava para si uma mente desesperada por ver negada toda esta informação e voltar a dormir para acordar, outra vez, na normalidade em que o músico existia e vivia no seu mundo cósmico. E nenhum adjetivo carateriza melhor este dia como a palavra ‘’inesperado’’ (escolha esta difícil, tendo em conta as inúmeras palavras que constituem uma lista interminável intitulada de ‘’como o mundo descreveu o dia da morte do Bowie’’). A verdade é que deveríamos estar à espera, sendo David Jones o expoente máximo do imprevisível e do controverso. Poderia um homem como este (excêntrico, bizarro e único em toda a sua forma de ser) fazer algo de que se estaria à espera? Não.

Apercebi-me nessa manhã de que nunca me tinha passado pela cabeça que David Bowie era mortal e foi nesse preciso momento que, tal como a típica lâmpada que se acende, a resposta à minha questão surgiu. A morte não é contornável e ataca sem dó nem piedade, tal como um ser de quem tentamos fugir a todo o custo mas que, inevitavelmente, há de encontrar o seu caminho até nós. Só Homens de uma enorme genialidade conseguem contornar a transformação do presente para o passado eterno. Muitos o fizeram, sem dúvida, e de formas diferentes: Lou Reed, Ian Curtis, Kurt Cobain, Janis Joplin, Lemmy…! Mas nenhum com a classe de Bowie; nenhum com a delicadeza e excelência deste ‘’camaleão’’ britânico que não se limitou a morrer, mas preparou toda uma carta de despedida, completando o círculo perfeito que foi a sua vida.

A existência de Bowie na Terra soava-me como um imposto para a existência da música, para a criação, para a sua continuidade e permanência. David fez com que o verbo ‘’ser’’ seja, quanto a si, sempre conjugado no presente; tornou-se imortal antes sequer de morrer. Onde está agora só ele sabe, mas depois do dia de hoje as dúvidas estão tiradas. David Bowie não foi um grande músico e artista: David Bowie É e há de ser sempre a mesma excelência a que nos habitua há tanto tempo. E com Bowie os verbos conjugam-se sempre no presente.

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Por Inês Pinto da Costa / 11 Fevereiro, 2016
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