wav@wavmagazine.net | 2014 | PT
a
WAV

Roly Porter: Uma constelação de epicentros aglomerados

Roly-Porter

Num flanco da galáxia onde as nébulas e as poeiras estelares nos guiam para uma órbita excêntrica, a partir da qual somos transportados para cadeias infinitas de sistemas secundários, começamos a sentir profundas vibrações de ruído no fundo dos pulmões. Com o fato selado e o capacete a latir para ser aliviado, socorremos por mais 10 minutos até ficarmos sem oxigénio. É uma questão de tempo até sermos esmagados de tal maneira que nos tornamos sedimentos no meio dos cinturões de cometas que vão fechando as fronteiras entre galáxias e névoas de destroços humanos.

É isto que Roly Porter ilustra na sua tão subversiva experiência de claustrofóbica viagem até aos confins do espaço.  Um som, que em Third Law, tende a explorar as fragilidades do ser humano perante um colossal Golias sem hesitante dificuldade de apertar a nossa leveza e levá-la ao ponto de quebra.

“You still don’t understand what you’re dealing with, do you? Perfect organism. Its structural perfection is matched only by its hostility.” – Alien, Ridley Scott

Uma cascata de sensações destrutivas leva a cabo um retrato poucas vezes visto até hoje. A criar paralelos de Drone e Power Electronics enquanto que reutiliza a sangrenta lição de cenário e som que todos nós já testemunhámos em 2001: A Space Odyssey.  Passagens em que a graciosidade de uma valsa de Strauss antecipa a expectante convalescença de sucessivas marteladas no conduto auditivo.

 

Já estando no ativo há aproximadamente 10 anos no cenário inglês de música eletrónica, Roly iniciou o seu percurso ao lado de Jamie Teasdale num projeto de dubstep designado por Vex’d, cuja espontaneidade e prematuridade num estilo que veio mais tarde invadir intermináveis discotecas ao longo da Europa, não deu muito para dar a longo termo. Com ideias para explorar, Roly Porter lança-se ao underground como DJ a solo e com um imprevisível percurso desde então, o inglês não se pode queixar do sucesso que tem obtido com um projeto tão ambicioso como este. A estrear-se com o lançamento de Aftertime, cuja polarizante entrega de energia através de inúmeras e prolongadas passagens de cascatas sonoras dá às transições mais tangíveis um estilo clássico que nos leva a crer que a aspiração de Roly é de aprofundar o espectro Clássico Moderno. Ainda não muito integrado no conceito do espaço e interestelar, o Aftertime ainda nos dá espaço para respirar, com inúmeros flancos espaçosos a deixar fluir contrastes entre Drone e Ambient, como no caso da “Tleilax”. Algo que potencia a acessibilidade dos sons, ainda para além da fragilidade estrutural e métrica que ao longo destes 40/50 minutos deixa-se fragmentar e repartir-se como um puzzle por desmontar.

Com Life Cycle of a Massive Star, Porter ainda tem muito com que trabalhar para construir uma paisagem reforçada em termos estruturais e progressivos. Com as mesmas ferramentas, o inglês tenta agora distanciar-se mais do abstrato aquirindo cor e som nas sonoridades através de inúmeros elementos instrumentais, exatamente o que se destaca em “Cloud”

Recorrendo a magistrais conduções de orquestra, envoltas numa batida translúcida e recorrente, o som adquire uma forma diferente daquela que tem vindo a ser característica de Porter. Provavelmente o lançamento menos agradado em termos críticos, certamente devido ao preço de investir em algo mais acessível e muito mais consumível. Apesar disso, como um protótipo a experimentar, este é o lançamento que mais ajudou Roly a encontrar os pilares fulcrais para a construção do Third Law.

Com o lançamento do Third Law, Roly Porter tem conseguido elevar-se de tal forma que quase declara a criação de um novo estilo de música. Apesar das insinuantes difusões de música clássica, com frequentes passagens de violino, violoncelo e até tenor, o inglês distancia-se cada vez mais do som que lhe fez concreto e acessível de alcançar em Life Cycle of a Massive Star. Neste registo, Porter começa a abraçar o espaço e ignorar os limites de acústica na consequência das paisagens sonoras que cria. A banir qualquer, senão toda, a forma de batida recalcada, passa a haver mais panoramas orientados para a tal grandiosidade que o inglês tem criado como imagem de marca e para cooperar com esse cancelamento de batida, Porter tenta ainda recriar vestigios de ritmo a partir de fragmentos glitch ao longo de “Mass” e “Blind Blackening”. Estas, por sua vez, acabam sempre por terminar num relapso ao abismo espiral, que por sua vez só serve para reforçar o talento que este maestro tem desenvolvido para os contrastes de peso e cor.

No Amplifest, é de esperar um set de luxo por parte de Roly Porter, que ao lado de Prurient e Neurosis, é um dos artistas mais aguardados do festival. Tomando em conta que no poder do inglês estará a total e completa entrega da acústica do Hard Club, este fará de tudo para que nos sintamos nos mais assombrosos confins do cosmos, ao som de uma orquestra cujas dimensões vão além daquilo que a nossa consciência consegue imaginar. Deixemos o maestro trabalhar e rendemo-nos ao impiedoso mundo dele.

“I admire its purity. A survivor… unclouded by conscience, remorse, or delusions of morality.” – Alien, Ridley Scott 

É dito e reforçado, que são artistas como este que fazem do Amplifest uma experiência a ser testemunhada, e é isso que se vai verificar de 19 a 21 de agosto, na imponente estrutura de um monólito “kubrickiano”, à beira de um Douro que tão elegantemente acompanha este encontro de titãs.

Share Button

Comentarios

comentarios

Por João "Mislow" Almeida / 3 Agosto, 2016

Deixar um comentário

About the author /


~