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Sobre a EDM

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É sabidíssimo que a EDM e a vestimenta de DJ (ou produtor, como dizem ingenuamente algumas crianças pouco musicais) são das grandes explosões do entretenimento atual. É o género musical mais ouvido pela camada jovem, executado por entertainers que o fazem render aproximadamente 3,3 mil milhões de euros. No rescaldo dessa Meca devassa chamada Sudoeste, gostava de averiguar alguns fatores culturais e psicológicos que fizeram este som atingir um estatuto massivo.

Eu tenho uma teoria que, não sendo a causa mãe, certamente faz parte do terreno fértil onde este evento medra. Há milhares de anos atrás, numa sociedade agrícola remota, os nossos antepassados descobriram uma ferramenta de grande auxílio: demarcando uma periodicidade a um certo acto/tarefa, esta originaria melhores resultados e o seu trabalho seria mais produtivo. O ritmo está embebido em nós, desde esta realidade anciente até às rotinas mais insignificantes dos dias de hoje, como lavar os dentes, correr ou mastigar.

Não é preciso um ouvido apurado para perceber qual é o claro, ridiculamente claro primeiro intuito da EDM enquanto fenómeno musical: a estimulação rítmica. Não quero com esta ideia desprezar o género – tal como todos os acontecimentos, há prós e contras – mas antes clarificar que estas músicas consomem-se com os corpos e o seu vibrar, não tendo como prioridade a própria experiência auditiva. E isto, por sua vez, reflecte uma dura realidade sobre os padrões dos actuais consumidores de música: a sua incapacidade de fechar as pálpebras e, simplesmente, ouvirem.

Quando nos apercebemos que estamos a abordar a arte de organizar sons, compreendemos também o quão irónica esta situação é. Mas há outros escapes da expressão musical, e é aqui que entra a sedução da EDM. Para além da questão do ritmo, que outra forma de excitação procuraria este género para se fortalecer? Precisamente a mais relevante para a nossa perceção e a mais parasitada pela nossa sociedade: a visão. Será coincidência a imediata associação entre jatos de cor vigorantes e a fundação EDM, com os seus festivais luminosos, as suas ferramentas de promoção enérgicas e os seus produtores (suspeitamente) apelativos à vista? Repito a ideia de base retida no primeiro parágrafo: esta opinião não é um ataque ao género. Mas uma constatação que, de facto, não há muita substância musical a sorver.

Disse uma vez Steve Aoki: “When I’m on stage, I’m looking out and seeing everyone putting up their flags from hundreds of different countries, representing hundreds of different cultural lifestyles. They’re all jumping in unison forming almost like one entity, one spiritual being.” Por mais escuteira que pareça a constatação do produtor americano, ela só vai ao encontro da tese deste artigo. É precisamente por se dirigir às nossas fundações enquanto indivíduos e não à racionalização pessoal e madura que caracteriza a experiência artística, por estar dissociada de qualquer entidade identificativa (cultural, estética, etc.) em prol de uma identidade incompleta que esta música consegue dispersar os seus tentáculos ambíguos pelos cinco continentes, agarrando os pés de entes pouco esforçados da cabeça. Percebo a ideia de Steve Aoki, diria até que faz sentido. Só não acho que esse ser aglomerado seja muitoespiritual.

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Por Goncalo Tavares / 22 Setembro, 2015
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