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The Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) | Máquina do Tempo #11

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Naquela manhã de infância acordei atraído por uma misteriosa e hipnótica melodia abafada pelo arrastar de mobília e parafernália. Desci curioso até ao rés-do-chão e na sala encontrei a família em azáfama: era manhã de arrumações e os pais tinham decidido dar uma limpeza aos vinis velhinhos. Um deles, com uma capa que gritava por atenção, estava aberto, longe dos restantes e destacado em cima da mesa. Perguntei o que era aquela música. Responderam-me que era de uma banda antiga, os Beatles. Pedi que pusessem de novo a música que tinha acabado de rodar e quis saber o nome. O meu inglês da altura (que não o era, na realidade) não me permitiu fixar o título do tema e, passada nova audição, a minha atenção inquieta, própria da idade, foi relutantemente atraída para um qualquer outro entretenimento infantil.

Os anos passaram-se a correr, o estudo da guitarra criou-me uma insaciável fome de riffs, primeiro os do rock, depois os do metal, depois os do mais metal, e os Beatles daquela manhã ficaram adormecidos, a hibernar. Só passado muito tempo é que me dignei a dar uma nova audição à banda com a devida atenção, começando precisamente pela mesma “Lucy in the Sky with Diamonds” sedutora que me tinha despertado daquele sono antigo. Eu era outro e os tempos eram outros também. A internet catalisava a descoberta. Comecei a explorar a banda, a cavar cada vez mais fundo, a desenterrar teorias e justificações, histórias e processos. Passei o resto do dia a rodar o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a ler sobre ele, a tocar por cima, a aprender a reconhecer os sons dos estranhos instrumentos que lá se escondem, da tambura à calíope, a identificar as personalidades da colorida capa, a viajar numa máquina do tempo imaginária até meados da década de 60 e a viver a revolução musical que estourou no primeiro de Junho de 1967. É, sem dúvida, uma obra incontornável em todos os aspectos.

O oitavo álbum do astronómico quarteto de Liverpool partiu de um conceito, de uma ideia de Paul McCartney:

We need to get away from ourselves – how about if we just become sort of an alter ego band?

Tão simples e ao mesmo tempo tão poderosa e repleta de liberdade criativa! Os Fab Four, cansados de extensas tours e concertos em que a música não era mais a atracção principal, desgastados pelo público e comunicação social depois das controversas afirmações de John Lennon (“We’re more popular than Jesus now.”) e perturbados pelas ameaças de morte e todo o aparato policial em torno do espectáculo no conservador Nippon Budokan Hall, em Tóquio, estiveram muito perto de se separar definitivamente. Toda esta envolvente foi terreno fértil para a aceitação da sugestão do baixista/vocalista. Após três meses de afastamento lúdico, reuniram-se novamente: eram agora a banda militar do Sgt. Pepper e a criação tinha começado. A arte que conjecturaram naqueles quase 40 minutos de bom perduraria até aos dias de hoje como uma referência para qualquer estilo ou forma de arte.

É difícil escrever sobre algo tantas vezes já escrito, debatido, falado. É ainda mais difícil tentar dar algo de novo e interessante a quem conhece o disco de trás para a frente e ao mesmo tempo apresentá-lo a alguém que nunca teve com ele o mínimo contacto (se é que existe). Esta tentativa-de-review-introspectiva ao álbum só me faz sentido se for vista como uma espécie de diário de bordo das minhas viagens na máquina do tempo ao espectáculo dado pelos rapazes da Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Começa assim …

A capa da obra, apesar de não o parecer (quando vista através de olhos habituados a photoshops e tratamentos), é uma fotografia. O quarteto, fardado de cetim colorido, fez-se rodear de figuras humanas feitas de cartão, representativas de personalidades importantes para cada um dos elementos da banda, mortas ou vivas, simbolizando um enorme convívio entre amigos. Apesar de não lhes ter sido permitida a inclusão de figuras como Jesus, Gandhi ou Hitler, identificamos facilmente Karl Marx, Aldous Huxley, Marlon Brando, Marilyn Monroe e Bob Dylan no meio de outros tantos igualmente merecedores de referência. Na contra-capa encontramos algo que, apesar de nos ser tão familiar hoje em dia, foi pioneiro naquela época: a letra de cada um dos temas, a possibilidade de o ouvinte ler enquanto ouvia. Espreitando dentro do vinil, num fundo amarelo berrante, esperam-nos os quatro músicos, com uma expressão que convida a “entrar”, a ouvir e sentir o que têm para oferecer.

 

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Este primeiro contacto visual, com salpicos de psicadelismo e alegria, prepara o espectador para o “concerto” que começa com a primeira das treze faixas, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.  Ouve-se o tumulto da audiência, a orquestra a afinar e os primeiros acordes da cadência de blues que está para vir. Na voz de McCartney, vestindo a pele de mestre de cerimónias, a banda fictícia é finalmente apresentada. Depois de um refrão bem-disposto e novo verso, o baixista/vocalista chama ao palco “the one and only Billy Shears”, alter-ego do baterista Ringo Starr. Está dada a entrada para o segundo tema.

“With A Little Help From My Friends” abre com um chamamento a la broadway, aclamando a entrada de Billy Shears/Ringo. Nas palavras da sua voz mortiça e tristonha, o baterista confronta a audiência com a sua inaptidão vocal e refugia-se na ajuda das vozes dos amigos músicos, mostrando bem o companheirismo do grupo. O tema evolui para uma espécie de “pergunta-resposta” entre Ringo e os restantes, culminando num Mi mais agudo do que prometiam as cordas vocais do baterista e que se prolonga durante vários segundos.

Cores berrantes, caleidoscópicos, céus de marmelada, flores gigantes de celofane: são estes os alegres elementos que pululam no universo de “Lucy In The Sky With Diamonds”. Referência ao LSD ou não (John Lennon afirmou desde sempre que a composição se baseou num desenho do filho e no livro “Alice in Wonderland”), o tema é alucinante, psicadélico, débil e ao mesmo tempo vigoroso, depressivo e extasiante. Versos em Lá ternário e refrão em Sol quaternário – humores diferentes e inconstantes, a faixa três do álbum é como uma viagem num parque de diversões, com altos e baixos, thrills and chills, muito brilhante, colorida e barulhenta.   

Depois de “Getting Better” e o seu staccato estridente, do cravo happy-sad de “Fixing a Hole” e da harpa e orquestração sublime de “She’s Leaving Home”, chegamos ao fim do Lado A do disco com a faixa “Being For The Benefit Of Mr. Kite!”. Censurada em Inglaterra pela referência a “Henry the Horse” (calão britânico para heroína), a lírica do tema é toda baseada num cartaz de circo do século XIX comprado por Lennon numa loja de velharias. A instrumentação está recheada de referências circenses e o final deste carnaval musical foi engenhosamente conseguido pela equipa de produção cortando e colando aleatoriamente excertos sonoros.

Ao virar o disco somos rapidamente transportados no autocarro da banda de Sgt. Pepper até à Índia, guiados pelo guitarrista George Harrison e as suas experiências culturais e musicais com Ravi Shankar. Sitar, tambura, tabla e dilruba são alguns dos instrumentos que ampliam agradavelmente o léxico sonoro de qualquer ouvido mais ocidentalizado e mergulham os sentidos em filosofias hinduistas.

Regressamos ao Reino Unido para escutar “When I’m Sixty-Four”, “Lovely Rita” e “Good Morning Good Morning” e encerrar o concerto da banda alter-ego com “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise)”. Num tempo mais acelerado que a homónimo número um, aqui Paul McCartney despede-se e agradece à audiência. Programada inicialmente para ser a última faixa do álbum, a banda mudou rapidamente de ideias assim que terminou e escutou a gravação da obra-prima que acabaria por fechar definitivamente a cortina do espectáculo.

“A Day in the Life” é especial. Na minha opinião, dar-lhe a honra do último lugar do disco tem dois propósitos: em primeiro, mostrar que já não estamos a ouvir a banda de Sgt. Pepper mas sim o fabuloso quarteto de Liverpool, reinventado, mais consciente e maduro; em segundo, seria um desperdício de material pôr o que quer que fosse depois do titânico acorde final (as falas nonsense e a frequência de 15 kHz (só escutada por cães) que se ouvem a seguir reforçam-me esta ideia). O tema, também censurado pela BBC, divide-se em três secções, primeiro na voz de Lennon, depois McCartney, e novamente Lennon. A aglutinação entre a primeira e segunda secção é feita por uma orquestra de 40 instrumentistas: McCartney pediu a cada um para tocar a nota mais grave dos seus instrumentos e glissar até à nota mais aguda. Este motivo torna a repetir-se no fim da faixa, culminando num dos mais famosos acordes finais da história da música, um gigante Mi maior tocado em bloco por três pianos e um harmónio, qual orgasmo ou Big-Bang, que se mantém durante uns impressionantes (à época) 40 segundos e durante o qual se conseguem mesmo ouvir folhas de papel a esvoaçar e cadeiras a ranger tal era o volume do sistema de captação. Fim da viagem.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band esteve, a par com o icónico Pet Sounds (1966) dos Beach Boys e Freak Out! (1966) de Frank Zappa e os seus Mothers of Invention, na génese do álbum conceptual de rock, posicionando este estilo ao nível das grandes composições de jazz e música erudita da altura. Por tudo isto e pelo impacto que teve em toda a música que estava para vir, o ambiente musical fervilhante do Verão de 1967 em torno do lançamento do álbum, seria, de certeza, uma paragem obrigatória para qualquer máquina do tempo musical imaginária.  

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Por Pedro Sarmento / 12 Fevereiro, 2017
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