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Velvet Kills – Os designers do seu próprio destino

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Os Velvet Kills (VK) são um projecto que começou em 2015, fruto do feliz encontro que se deu entre Susana Santos e Harris Iveson na edição de 2014 do Festival Boom. Ela é a letrista, a vocalista e a baixista. Ele é o guitarrista e o responsável pela composição no sintetizador e sequenciador.

Susana nasceu na Costa da Caparica. Quando criança, gostava de desenhar caras e de transformá-las para criar novas personagens. Quando cresceu tornou-se make-up artist e desenvolveu o seu percurso profissional nos bastidores da alta-costura em Paris, Londres e Nova Iorque tendo também trabalhado em cinema e publicidade. A vontade de aliar arte e música fez com que começasse a fazer experiências com sequências e a sua voz no software GarageBand. Mais tarde criou em Paris a banda Bad Lips na qual era vocalista. A esta seguiu-se os Likewolf, um projecto de electro-blues que lhe permitiu desenvolver as suas capacidades de baixista. Enumera Muddy Waters, Rory Gallagher, J.J Cale, John Lee Hooker, James Brown, Janis Joplin, Thin lizzy, Led Zeppelin, The Clash, Alan Vega, Joy Division, Velvet Underground, David Bowie e Iggy Pop como principais inspirações musicais.

Harris nasceu na ilha de Molokai no Hawaii. Não se deixou ficar apenas pela guitarra tendo estudado Síntese de Som na Berklee College of Music, em Boston. Trabalhou como Engenheiro de Som em várias editoras e fundou os Projecto Mandala, uma banda de improvisação de surf, rock e reggae com quem andou em digressão pela América Latina e Europa durante vários anos. Como exímio profissional da música electrónica que é, rege-se pelo eclecticismo e as suas preferências abarcam tudo desde o purismo de Stockhausen até à contemporaneidade de Chromeo passando pelas paisagens sonoras de Brian Eno e o vanguardismo dos Suicide. Autodenomina-se como “Alquimista do Ruído” e gosta de explorar todas as potencialidades e texturas do som. Destaca como influências Magma, Gong, Steve Hillage, The Soft Machine, Tangerine Dream, The Future Sound of London, The Orb, King Crimson e Adrien Belew.

O nome Velvet Kills remete para a contradição. Se “Velvet” é uma palavra associada à aristocracia e delicadeza, “Kill” direcciona para a agressividade dos enredos subterrâneos. Também este paradoxo se aplica ao som dos VK pois, embora a composição seja um tecido muito coeso de várias linhas instrumentais, a introdução de certos elementos torna a sonoridade fugidia, desviante, inesperada e, por isso, inquietante. Este projecto é o culminar da experiência musical que ambos foram reunindo ao longo dos anos e que se transformou em competência técnica. Mostra que não há melhor cenário que o do passado para erigir algo novo. Os VK disponibilizaram, em Março deste ano, o seu primeiro EP intitulado Memory que se pode ouvir aqui.

As influências electro-punk são visíveis na independência artística e musical que ambos revelam pois, como bem defende a filosofia punk, fazem a festa toda com apenas quatro mãos. A isso alia-se a introdução de instrumentos electrónicos e o uso do passado como inspiração para a selecção de sons e sequências que fazem a ponte entre a guitarra e o baixo. Todos estes pormenores sonoros são produzidos ou recolhidos pela banda para posterior manipulação. Para além do sequenciador, Harris utiliza um sintetizador analógico subtractivo para desconstruir sons por remoção de frequências. Uma vez que trabalhou em Los Angeles na composição de bandas sonoras para filmes pornográficos, sabe bem que elementos do espectro sonoro introduzir para levar a sensações de clímax. O resultado final é uma colagem coerente de sons que enriquece, imprime ritmo e agarra do princípio ao fim sem qualquer laivo de atonalismo.

No som dos VK, as influências Blues-Rock são notórias no processo de composição e na sonoridade hard rock dos riffs da guitarra e do baixo que, nos anos 70, tão bem caracterizava este género. A par do ritmo acelerado e do volume elevado há ainda a referir a distorção e a introdução de efeitos psicadélicos.

A música dos VK não transmite a alegria desmesurada da new wave nem a melancolia assoberbada do post-punk. Insere-se sim no post-wave pois resulta de um equilíbrio entre as duas correntes anteriormente referidas. As melodias difundem muita energia, mas são ao mesmo tempo, misteriosas e repletas de suspense. A temática das letras reside na vida real, mas também tem nos ambientes cinematográficos uma fonte de inspiração. Procura-se dissertar acerca da mente humana e dos valores descartáveis vigentes na sociedade actual fazendo uso do humor e do sarcasmo.

O movimento art rock também está presente neste projecto que reúne em si várias formas de arte a nível visual e performativo.

O uso de um baixo e de uma guitarra Steinberger vinca muito a identidade do duo e cria uma estética demarcada e de ruptura com o pré-concebido. Os VK sentem intensamente a sua música e estar em palco eleva-os para um outro estado. Daí surgiu a necessidade de criar uma nova entidade para as prestações ao vivo. Esta surgiu na forma de uma espessa camada de base branca atrás da qual escondem as suas caras e que torna as performances muito teatrais.

Quando a carreira musical suplantou o trabalho na indústria da moda, Susana decidiu investir na sua formação em produção musical, vídeo e artes gráficas. Assim é uma artista muito completa e, juntamente com Harris, a responsável pela produção do material de divulgação da banda. Num exclusivo para a Wav. deixamos, em primeira mão, o videoclip “Red Shoes”, que foi selecionado para a 3ª edição do Muvi – International Music in Film Festival.

 

 

 

As multivalências de Susana e Harris garantem a sua independência artística a todos os níveis e fazem com que, apenas eles, sejam os designers do seu próprio destino. Em breve vão partir para Berlim para beber influências do conhecido clima de avant-garde que ali se vive. Antes dessa viagem despedem-se de nós com um concerto imperdível no Fontória Club, em Lisboa, no dia 17 de Setembro.

Nota: A autora deste texto seguiu o Antigo Acordo Ortográfico.

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Por Catarina Reis / 15 Setembro, 2016

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