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Vodafone Paredes de Coura 2015 – Antevisão

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Não haverá mês como Agosto para nos fazer diretamente pensar em férias. Os parentes emigrados regressam às suas terras para o mítico dia 15 (data de excelência para a aldeia celebrar o seu Santo Padroeiro) e um pouco por todo o lado faz-se cumprir a tradição de ir em família para aquela praia de sempre. Somos um povo que não gosta de mudanças, basta cantarolar o grande sucesso “Meu Querido Mês de Agosto” para perceber que mais de vinte anos depois do seu lançamento, a letra continua a espelhar a realidade. Comodismo ou não, são poucos os que arriscam o diferente. No entanto, já são imensos os que mantêm uma tradição anual, também ela em Agosto, iniciada há mais de vinte anos por um grupo de pessoas que ousou rejeitar Dino Meira. Melómanos por excelência, abraçaram de início um dos (se não O) melhores festivais que por cá se realizam. Mas nem só do público se faz Paredes de Coura, e enquanto antevemos a edição de 2015, olhamos um pouco para as razões que fizeram desta terra nortenha uma Meca musical em Portugal.

Comecemos pelo início: o local. É perfeito! Um anfiteatro natural que proporciona uma das melhores acústicas ao ar livre que podemos escutar durante o ano. O verde do matagal faz um belíssimo background do palco, e é entre essas árvores que durante uma semana se acampa com todo o gosto. De ano para ano, a organização faz por melhorar as condições desta semana de festival, onde repetentes e iniciantes (maioritariamente atraídos pelas histórias contadas pelo público fiel) saem das tendas às oito da manhã devido ao calor abrasador para obrarem mergulhos gelados, daqueles que fazem estalar os ossos. É a magia do Tabuão, que nos faz amar coisas, à partida negativas, e torna-las memoráveis, como é o caso da subida infernal para sair do acampamento, proporcionadora anual de histórias: uma queda memorável, uma amizade nova, ou simplesmente o prazer de apreciar aquele rabo que vai à nossa frente.

Todos os anos é o mesmo, todos os anos é diferente, e os “Velhos do Restelo” gritam que “no tempo deles é que era”. A verdade é que o tempo passa, as pessoas mudam, mas o Paredes permanece. Porquê? Porque não há nenhum festival que conheça (e estime) tão bem quem o frequenta como este. Enquanto são feitos upgrdes nas instalações e no lazer, o interesse em saber acompanhar os gostos e tendências do público não é descuidado. Assim, chegamos a 2015 com um cartaz memorável, diversificado, que passa muito pela atualidade sem se esquecer que também existe lugar e vontade de ver nomes históricos.

Os horários já são conhecidos, e este ano poderão ver praticamente tudo aquilo que gostam sem perderem ou ficarem indecisos entre dois concertos. Dia 19 arranca com pujança, para levantar logo o pó. Temos punk com os Ceremony, o rock cru dos Blood Red Shoes e os pesos pesados TV on The Radio para garantir um primeiro dia cheio de pulos e energia. O mítico shoegaze dos Slowdive fica responsável pelo recarregar de baterias, enquanto se viaja na mais incrível ondulação musical. No entanto, é com uma contratação nacional que se abre o festival, deixando no dub dos Gala Drop a missão de iniciar o ambiente perfeito para o que o procede.

O segundo dia é uma oração ao reemergir do psicadélico (aliás, toda esta edição o é, não fosse também o Paredes o reflexo do panorama atual), com Pond, Tame Impala e White Fence – os dois primeiros com álbuns novos na bagagem, ambos aclamados como dos melhores de 2015. Ainda nos mais aclamados, o palco Vodafone recebe também o brilhante “story telling” de Father John Misty, fazendo de quinta-feira o dia por excelência para escutar as edições do ano.A representação nacional, esse, fica ao cargo dos Peixe:Avião.

O terceiro dia está recheado de diversidade e de excelentes nomes. Logo para começar, o misterioso Mark Lanegan, que regressa a um festival que tão bem conhece. Lost in the Dream consagrou-os no panorama internacional em 2014 e, apenas um ano depois, os The War on Drugs vêm a COura mostrar o porquê. É também no dia 21 que Charles Bradley regressa a Portugal para provar que o soul continua bem vivo e cheio de qualidade, enquanto que os Allah Las vêm honrar, através da sua juvenilidade, o surf rock com pitada de ye ye dos anos sessenta.

Para o último dia ficaram guardados projectos que, apesar da sua parca idade, já arrastam uma vasta legião. Nomes como os Temples e os Fuzz de Ty Segall prometem invocar uma série de seguidores rendidos aos primeiros álbums. Lykke Li, também um nome recente, é já um asteróide colossal no panorama mundial e possivelmente o nome que mais chamariz fará no dia 22 (quiçá de todo o festival), mesmo com os Ratatat a pisarem o palco no mesmo dia, após terem quebrado um interregno de cinco anos. Com riffs inspirados e adornados de eletrónica, prometem marcar na memória o encerramento da edição de 2015 de Paredes de Coura. A toque de sugestão, fica também a estreia em piso nacional de Natalie Prass, que traz na bagagem o seu álbum homónimo, considerado pela redação da Wav (assim como muita da impressa internacional) como um dos melhores que 2015 já ouviu.

É com um cartaz coeso, uma notável preocupação por parte da organização de fazer sempre melhor, as mil e uma histórias que ouvimos e contamos e o misticismo que envolve o local que se faz a fórmula para Paredes de Coura voltar a receber o carinho mais que merecido pelo público nacional. Espera-se uma enchente tremenda (os bilhetes esgotaram, pela primeira vez na história do festival), mas já vimos que o Tabuão tem os poderes mágicos de transformar tudo em algo positivo, saindo certamente do caos uma experiência saudável e nostálgica. Paredes é uma grande família, que felizmente cresce, e assim como o emigrante que regressa nas férias para matar saudades, também nós regressamos ano após ano para celebrar esse amor mútuo pela música, neste pequeno oásis que é o Paraíso de Coura.

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Por João Rocha / 13 Agosto, 2015

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