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A perseverança como forma de arte • Spiralist em entrevista

05 de Julho, 2018 EntrevistasJorge Alves

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Depois de ter estado envolvido noutros projetos, o músico portuense Bruno Costa acaba de se lançar a solo como Spiralist, nome artístico com o qual editou o álbum de estreia intitulado Nihilus. Nesta entrevista, realizada numa tarde de sábado na baixa do Porto, discutimos o álbum, o percurso do músico até aqui, objetivos para o futuro e até as preocupações que o motivam diariamente a continuar a criar arte.

 

Vamos começar por falar do teu projeto, que começou devido ao fim da tua antiga banda, os Blackbird Prophet. Podemos olhar para esta nova aventura como uma tentativa de começar do zero e redirecionar a tua carreira?

Bruno: De certa forma, sim. Isto era algo que eu queria fazer, mas também algo que efetivamente necessitava de concretizar. Quando a tua banda acaba, das duas uma: ou arranjas outra banda e começas a trabalhar com pessoas novas e tens de passar pelo processo todo outra vez, ou trabalhas sozinho. Eu estava sem forças para voltar a trabalhar em equipa e senti que precisava, acima de tudo, de materializar a minha visão artística e pôr as coisas em prática. Chegou também a um ponto em que emocionalmente foi mesmo importante para mim colocar tudo num registo musical, pois não tinha outra maneira mais saudável de o fazer. Francamente, acho que acabou por me salvar de muitas maneiras pois foi uma altura complicada, e o álbum ajudou a redirecionar energias que não eram muito boas e criar assim algo do qual me pudesse orgulhar.

 

Quando mencionas que foi uma altura complicada, referes-te somente ao fim da tua banda, ou houve mais coisas a acontecer?

Houve muita coisa acumulada, sim. Ao longo dos três anos anteriores ao início da gravação do álbum, muito aconteceu. Há situações sobre o qual prefiro não me pronunciar, mas existem questões não só do ponto de vista artístico mas também do ponto de vista emocional, de relações e até no que diz respeito à situação de vida em que me encontrava na altura, que acabaram por gerar um ciclo muito complicado. Eu acho que a depressão, quando é forte, não te mostra saídas possíveis. Por exemplo, já mencionei isto noutras alturas, mas nós achamos que os artistas, quando estão numa situação complicada, que isso ajuda de alguma forma a arte deles, mas não é bem assim. Na verdade acho que para além de ser um cliché, é bastante prejudicial não apenas para a pessoa que tem de passar por essas situações e não consegue ser criativa, mas também para quem lê sobre esses artistas e acha que isso faz deles melhores do que seriam em circunstâncias normais. “Ah o Kurt Cobain é a minha influência, portanto como ele esteve mal, eu tenho também de estar para ser o génio que ele foi”.

 

Isso lembra-me uma citação do David Gilmour em que ele dizia que a situação do Syd Barrett tinha sido demasiado romantizada quando, na verdade, foi deveras trágica… no fundo isso acaba por acontecer frequentemente não só na música, mas no mundo das artes em geral.

Absolutamente. Eu li há uns meses, por exemplo, que o Nick Drake - um artista sensacional mas também associado à depressão porque ele de facto teve problemas nesse campo - gravou o Pink Moon numa altura em que até estava feliz. Sentia-se pronto para voltar a lançar um disco, estava entusiasmado pois acreditava que ia ser um bom álbum. Naquele momento em que se encontrava a criá-lo não estava totalmente enterrado em sentimentos negativos, na depressão… nós de facto romantizamos demasiado isso. Eu acho que há espaço na arte para sentimentos negativos, mas não quer isso dizer que o artista tenha de sofrer de depressão na mesma altura. Quando estava a criar o Nihilus sentia-me efetivamente bastante triste e tinha passado por episódios de depressão um pouco mais complicados, mas eu acho que, acima de tudo, estava super zangado. Ora, isso normalmente não é muito bom, mas pelo menos tende a promover ação. Às vezes, todavia, é levado a cabo de formas contraproducentes; no meu caso foi com a música, e ao menos senti a vontade de fazer alguma coisa. As letras, contudo, refletem mais a parte da depressão. Decidi ir um bocadinho mais atrás e lembrar-me de situações mais complicadas e buscar isso como inspiração; não tentar colocar-me no mesmo mindset porque, como disse, não acho que isso seja bom, mas usar isso como influência para criar a parte artística.

Sabes, eu vou ser sincero: este álbum… estou super contente e orgulhoso dele, mas como deves imaginar, eu nunca mais quero voltar a fazer um disco sobre o tema, até porque para isso teria de passar por experiências semelhantes de forma a ter a inspiração necessária para criar um disco dessa natureza. Posso abordar o tópico levemente e ele estar presente de alguma maneira, mas é óbvio que espero que tudo isto tenha sido uma fase que já terminou e que possa agora focar-me noutros temas. Este álbum, acima de tudo, foi terapêutico para mim…

 

Curiosamente ia mencionar isso… senti que o álbum funcionou muito como terapia para ti. Tendo isso em conta, consideraste em algum ponto não o lançar cá para fora e mantê-lo “fechado”, numa espécie de registo privado de memórias nefastas?

Eu pensei nisso, mas não porque queria que ele ficasse guardado para mim. À medida que fui criando o álbum senti que o material era muito bom – eu pelo menos gostava imenso dele. Inicialmente pretendia fazer algo pequeno: ia gravar algumas músicas, não ia passar por um processo de mistura e masterização muito longo, não ia mandá-lo a muitas editoras, nem fazer edição física; Ia pô-lo na internet, no Bandcamp, e estava feito. No entanto, durante as duas semanas em que me fechei no meu apartamento a gravar o backbone instrumental do disco, comecei cada vez mais a criar uma ligação emocional ao que estava a fazer. Depois houve naturalmente mais coisas a tratar – escrever as letras, fazer a mistura, gravar a voz – e o processo todo acabou por durar bem mais do que essas duas semanas – durou cerca de sete meses. Ao fim desse tempo estabeleci ali uma relação muito emotiva com este trabalho, e então pensei: eu tenho aqui um álbum no qual trabalhei durante sete meses, não vou deitar tudo fora ou guarda-lo na gaveta só para mim.

Se calhar é egoísta da minha parte, mas eu sempre tive o desejo de lançar arte cá para fora. Além disso, se essa mesma arte, que nasceu de uma situação particularmente negativa, tiver significado para outras pessoas … qual é o mal nisso?

 

Sim, podes realmente ajudar outras pessoas que estejam a passar por fases igualmente delicadas e dar-lhes assim uma força, vá…

Sim. Eu não digo que ajude totalmente, mas quando uma pessoa ouve um álbum feito por alguém que está a passar pela mesma situação… ok, não vai resolver tudo, essa pessoa continua a precisar de outras coisas – talvez até medicação - mas pode perceber que não é a única a passar por isso.

 

Sem dúvida. Passando agora para a análise musical: sinto que o disco é essencialmente um trabalho de metal extremo – há aqui doom, black metal, hardcore, assim como passagens mais atmosféricas para dar um certo balanço - mas dirias que a natureza mais negra e violenta do álbum é o produto das experiências negativas pelo qual passaste, ou será mais um diário das tuas vivências como melómano?

Bom, eu sinto que precisa de haver um casamento entre a temática do trabalho e o tipo de música que produzes. É por isso que eu acho que Spiralist nunca vai ser um projeto de metal; Spiralist é o meu nome artístico, e eu vou usá-lo para fazer a arte que me apetecer – ponto final. Efetivamente gosto muito de metal extremo e percebi que dentro do espectro do black metal e do doom, havia artistas que estavam a abordar as mesmas temáticas que eu e sentia que havia ali um casamento estilístico muito bom. Por exemplo, um dos artistas dentro do género do black metal que mais aprecio é o Jef Whitehead, ou seja, Leviathan; há trabalhos em que ele aborda estes temas e fá-lo de uma forma que eu pelo menos entendo e com a qual consigo relacionar-me. No meu caso, sendo este mundo musical uma área que me interessa, acaba por casar bem com a temática explorada.

 

Claro, faz sentido: música extrema para lidar com situações também elas extremas.

Claro, sem dúvida. Eu não queria criar um estilo de música leve para lidar com algo desse género, pois pretendo que seja uma descarga emocional e musical forte, mesmo na parte da performance vocal. Aí, por exemplo, fiz questão de estar a gravar as vozes e a sentir mesmo aquilo que estava a colocar no microfone – o que efetivamente aconteceu, pois o estilo de voz do Nihilus é muito agressivo. Portanto, quando estava a gravar as vozes, ali no estúdio Entreparedes, no Porto, senti que estava mesmo dentro da atmosfera que queria e no ponto emocional necessário para o álbum. Afinal, não queria estar a cantar Frank Sinatra sobre uma temática destas (risos).

Assim sendo, para mim a temática e o estilo musical têm de casar. Mesmo noutras coisas que estou neste momento a desenvolver, encontro-me a ir a áreas que são bem diferentes do Nihilus porque as temáticas são também distintas e eu sinto que quero abordar isso com estilos musicais diferentes. Não sinto a necessidade de me prender somente a um estilo. Aliás, eu faço sempre esta analogia: lá porque o Christopher Nolan realizou o “Dunkirk”, que é um excelente filme de guerra, não podemos estar sempre à espera que ele faça filmes de guerra agora. Assim, porque haveríamos de pensar da mesma maneira em relação a músicos?

Eu odeio praticamente tudo o que é cíclico, e para a mim consistência estilística é exactamente isso. Se tu tens um músico que está constantemente a fazer o mesmo, a passar pelo mesmo processo, acaba por ser redundante. Não podemos olhar para um artista, na minha opinião, e dizer que ele é bom porque a discografia é estilisticamente consistente… ou seja, uma banda de doom só é boa porque os álbuns são todos iguais? O catálogo dos Ulver é extremamente diverso, e ainda que haja lá fases que eu aprecio mais do que outras, o que eu gosto imenso neles é o facto de serem aventureiros o suficiente para explorarem outras áreas. O que me interessa é a consistência do meu trabalho a nível de qualidade, não a nível estilístico.

 

“É por isso que eu acho que Spiralist nunca vai ser um projecto de metal; Spiralist é o meu nome artístico, e eu vou usá-lo para fazer a arte que me apetecer – ponto final”.




 
Pegando no que estavas a dizer sobre a liberdade criativa: isso acaba, de certa forma, por ser uma das vantagens de trabalhares agora a solo; quando estás numa banda o processo criativo é, na maior parte das vezes, realizado de forma democrática de maneira a que todos os elementos fiquem satisfeitos com o resultado final. Aqui, contudo, só tens de agradar a ti próprio…

Sim, e isso é bastante difícil. Tem de ser feito de forma democrática, é certo, mas mesmo depois dentro dessa democracia há duas abordagens diferentes: ou existem ideias que são levadas para a frente por votação e há sempre quem não concorde plenamente com a decisão mas que cede, ou então tenta-se chegar a um cenário onde todos gostem de igual forma daquilo que foi feito, e isso é super difícil. Eu sou super casmurro com as minhas ideias, e houve momentos, com os meus projetos anteriores, em que outras pessoas na banda diziam “ah mas eu não quero fazer isso”. Quando isso acontecia eu sentia-me chateado, estava a criar algo de que gostava imenso e eles simplesmente não entendiam a minha visão. Com isto não estou a dizer que a minha visão fosse mais correcta do que a deles, simplesmente era a que eu tinha e os restantes elementos discordavam, o que é natural. Todavia, em vez de esperar que toda a gente concordasse com o que eu queria fazer, podia simplesmente fazer tudo sozinho e não precisava assim da autorização de ninguém.

Claro que há limitações, sobretudo a nível de touring, em que se torna tudo difícil ao ponto de eu neste momento não conseguir ainda atuar ao vivo, e claro que és responsável por basicamente tudo, mas teres um trabalho realizado segundo a tua visão artística… não há nada – mesmo nada - que consiga ultrapassar esse feeling.

 

Referiste que ainda não tens os meios necessários para levar a tua música para os palcos. Calculo, todavia, que isso seja um objetivo a longo prazo, certo?

Sim, eu gostava de fazer isso, mas existem ainda demasiadas limitações, pelo que tem de ser um passo de cada vez. Para um músico a solo isso é sempre um processo demorado, é preciso um plano bem delineado, é algo que envolve trabalho com outras agências, promotoras, etc…

 

Além de que precisas de músicos não só talentosos, mas com quem te dês bem, não é?

Sim, claro. Em parte, quando tu és dono do projeto podes escolher com quem tocar e se alguma coisa não resultar podes simplesmente substituir um dos elementos da tua banda e procurar outra pessoa. Claro que, por um lado, não é muito bom fazeres isso porque perdes aquela coesão ao vivo que é super importante, além de que é crucial que os teus músicos sintam que são bem-vindos e que as contribuições deles são valorizadas e tidas em conta.

Se eu conseguir tocar ao vivo futuramente, eu vou querer sentir que tenho a equipa certa, mas também será importante para mim saber que os meus músicos gostam de tocar neste projeto. Além disso, terei de fornecer as condições necessárias, incluindo pagamento pois não quero estar a pedir favores a ninguém. Acho isso ridículo e não me sentiria bem ao fazê-lo.

Acima de tudo, quero neste momento dar-me a conhecer e ser reconhecido, e não estou para fingir que não me importo com isso. Se eu estou a trabalhar arduamente num projeto e noto eventualmente que ninguém quer saber, que ninguém ouve a música ou compra o meu disco, não vou fazer de conta que não me sinto mal com isso. É claro que me sentirei mal, será imenso trabalho basicamente ignorado… é a mesma coisa que passares anos a tirar uma licenciatura ou talvez um mestrado, e não arranjares posteriormente emprego. Sentes que estás a deitar imenso tempo ao lixo. Espero, portanto, que o projeto cresça e obtenha reconhecimento.

 

Pegando nessa questão do reconhecimento, como sentes que o disco tem sido recebido até agora?

Eu sinto-me muito satisfeito com o facto de ter chegado  a alguns sítios para já, mas como podes imaginar, eu quero chegar ao máximo  de pessoas possível. Posso dizer à vontade que mais de 95% dos meios que contactei não responderam nem falaram do álbum. No entanto sei que isso é normal, até por se tratar do meu primeiro trabalho, e sei que há toda uma estrutura de relações públicas que eu ainda não tenho. Seja como for, a receção por parte dos meios que avaliaram o disco tem sido positiva e isso deixa-me contente. Todavia, eu adoraria aparecer, por exemplo, no Ípsilon, e daqui a uma semana na Decibel, e daqui a dez anos adoraria que o projeto crescesse ao ponto de eu poder ir tocar…

 

… Ao Roadburn, talvez?

Sim, ao Roadburn, ou abrir para alguém no Madison Square Garden.

 

Como se diz em Inglês, “The sky is the limit” …

Exatamente! Se bem que isso é uma coisa muito perigosa, sabes. Tu queres ser ambicioso, mas não queres bater no fundo ao mesmo tempo. Esses objetivos são importantes, mas há sempre o receio de ter um desgosto, e isso é uma linha muito difícil para uma pessoa se equilibrar. A única maneira de fazer as coisas é basicamente aceitar o falhanço, manter na mesma os objetivos e continuar a trabalhar. Se eu chegar aos 75 e nada disto tiver resultado, e eu não tiver conseguido crescer externamente de forma alguma, pelo menos não posso dizer que não tentei, percebes? E pode ser que consiga deixar estes trabalhos a gerações futuras da minha família – filhos ou netos, por exemplo.

 

Interessa-te então deixares, sobretudo, um legado artístico.

Sim. Sabes, quando nós somos miúdos temos tendência a não ter medo de morrer, certo? Porque, na condição de jovens, temos a vida pela frente. No entanto, eu sempre tive consciência do quão fugaz o nosso tempo é aqui, e sinto que se não criar alguma coisa, eu não vou conseguir ter paz depois de morrer, então a minha arte é uma maneira de combater isso.

Eu tive um sonho, há cerca de um mês, e cheguei até a escrever um poema em casa sobre isso, em que eu e a minha família, assim como a família da minha namorada, estávamos a ser direcionados para uma espécie de estrutura militar no topo de uma colina, e eu comecei a ver as coisas de uma perspetiva exterior, como se fosse uma câmara de cinema, e atrás de nós vinham outras famílias em direção a essa mesma estrutura, sendo que rapidamente me apercebi que estávamos lá por uma questão de segurança, devido a uma ameaça de armas nucleares. Nesse momento a primeira coisa que pensei, depois da minha família obviamente, foi: espera, e a minha arte, os meus discos? Não vou conseguir criar mais, não vou gravar mais nada… lembro-me de ter sentido um vazio enorme depois de acordar, e nas horas seguintes eu passei muito tempo a matutar no que tinha acabado de sonhar, efetivamente provando assim o quão importante para mim é deixar um legado. Quero deixar um legado familiar também, mas para mim é crucial que construa um com a minha arte.

 



Fotografias da autoria de Mestria.
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