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Filho da Mãe & Ricardo Martins em entrevista

06 de Outubro, 2015 EntrevistasBruno Pereira

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Bruno Abreu (Revolve): "Estas bandas vão dar que falar"

"Tudo mudou quando começámos a ouvir Metronomy" • Galgo em entrevista
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Estivemos à conversa com o guitarrista Rui Carvalho (Filho da Mãe, If Lucy Fell, I Had Plans) e Ricardo Martins (Cangarra,Papaya, Adorno, Black Leg) que, no meio de tantos projetos, unem agora forças numa colaboração que já tem andado na estrada e promete disco mais para o final do ano com selo da Revolve. Para já, enquanto o esperado registo não chega, tempo de descobrir um pouco mais sobre a génese da união desta dupla de titãs enquanto se ouve o primeiro single, "Tormenta".

 

Como surgiu a ideia de começarem esta colaboração?
Ricardo Martins: Nós já tocámos juntos em vários projetos. Foi super natural querer voltar a tocar, estávamos com saudades disso.

Rui Carvalho (Filho da Mãe): Encontrámo-nos numa noite e falámos que era porreiro fazermos uma coisa os dois. Foi tão simples como isso.

 

Decidiram nomear este projeto com os vossos nomes em vez de um nome único. Porquê?
FdM: Respondendo por mim, estamos fartos de bandas. Temos muitas, estamos sempre a criar um nome para uma coisa, e desta vez resolvemos simplificar. Eu ando a tocar a solo, dou-me pelo nome Filho da Mãe, ele dá pelo nome de Ricardo Martins em mil projetos, e então unimos os dois. Embora o som seja muito diferente daquilo que eu faço a solo, nós queremos unir estas pessoas, é uma coisa íntima, tem a ver com duas pessoas, dois amigos que se conhecem, já tocaram muito ao vivo em projetos diferentes, e então queremos unir as duas coisas e daí nasce uma coisa bizarra, um bocadinho diferente. Dar um nome de banda podia ser quase enganador, é um projeto que pode morrer amanhã, podemos não querer fazer outro disco ou só daqui a 3 anos, é uma junção espontânea.

 

No meio de tantos projetos diferentes como é trabalhar em vários deles ao mesmo tempo? Como é o “mudar de chip” entre eles?
RM: Pessoas diferentes, linguagem diferentes. Só o facto de teres instrumentos diferentes também muda a sonoridade. As vozes são as mesmas mas estão a falar de outra maneira. As conversas são diferentes e com pessoas diferentes, então o nunca há aquele medo de ser uma coisa super parecida. Nunca há uma divisão cerebral.

 

Como chegaram a esta convergência sónica, bem diferente de outros projetos vossos?
FdM: Com ensaios. No início era diferente, quando começámos a tocar juntos estávamos a fazer até uma coisa esteticamente bastante diferente, se calhar era mais acústica, mas fomos ensaiando e apeteceu-nos fazer outras coisas e chegamos aqui. Basicamente um ato contínuo dos ensaios que vamos cristalizar num disco e depois o processo começa outra vez, provavelmente começamos a fazer outra coisa qualquer que se transforma noutra coisa qualquer.

 



 

E enquanto não chega o disco lançaram já um primeiro single, “Tormenta”…
RM: Sim, já saiu há um tempinho, há uns meses. Tínhamos a necessidade de gravar qualquer coisa, perceber como é que soava em gravação. Fazer isso mas sempre com ideia de gravar mais músicas e fazer o disco. Na realidade era o que o Rui estava a explicar, nós não pensámos muito em como é que queríamos que soasse, foi ensaiado e houve a necessidade de registar aquela música.

FdM: As primeiras coisas que dissemos quando começámos a ensaiar foi que íamos ter que passar logo à fase de gravação e dos concertos, porque se não, perde a piada. É muito engraçado ensaiar, e fizemos ensaios longos, com calma, conversámos muito, mas depois a partir de certa altura tem que se começar a sair para o disco ou para a estrada, ou as coisas perdem-se.

RM: Era a necessidade de registar aquilo, dar um primeiro passo. Depois começar a ver as coisas a crescer, fazer mais músicas, não esperar demasiado tempo para por a música cá fora e começar a dar concertos. Acho que nós nos fartámos um bocado de estar na sala de ensaios, então havia desde inicio essa ideia. Foi o primeiro pontapé.

 

Como têm sentido o feedback do público com este single e nestes concertos que têm dado?
FdM: Não penso muito nisso, mas acho que tem sido bom. As pessoas provavelmente estarão à espera de mais. E será entregue.

RM: Não costumamos pensar muito nisso. O importante é partilhar um bocadinho ali o momento com aquelas pessoas e um com um outro, e o feedback tem sido bom.

 

Quando contam lançar o disco? está para breve?
FdM: Eu espero que sim, talvez final do ano. Há muitas coisas a sair, mil projetos, eu tenho um disco a sair também. No meio disso tudo isto vai lá estar, não sei bem como, mas vai lá estar.

RM: Eu acho que estamos todos a apontar mais ou menos para o final do ano. Mas depois nunca se sabe, pode haver um ligeiro atraso ou assim.

 

Em comparação com o single, o que podemos esperar do disco? Vem no mesmo seguimento?
RM: São as mesmas cabeças, as mesmas vozes a dizer coisas diferentes.

FdM: Já não fazemos muitos planos a esse nível. No início se calhar dissemos que não íamos fazer isto, desta vez vamos fazer aquilo, depois acabávamos se calhar a fazer ainda outra coisa. Aqui não há grande pressão de as músicas terem alguma coisa a ver com outra, podem ser radicalmente diferentes, mesmo dentro do próprio disco, tem esse lado mais experimental também, não estamos presos a caminhos de qualquer tipo de estética musical.

 

É de esperar que o que têm andado a tocar ao vivo vá aparecer no disco ou os vossos concertos ainda têm muita componente de improviso?
FdM: Em principio vai. Mas imagina que daqui até ao momento que vamos gravar surgiam seis malhas diferentes e que curtíamos mais, gravávamos essas e estas ficavam.

RM: Nós andamos a tocar 4 ou 5 músicas definidas e uma série de improvisos à volta. É muito feito dentro desta dinâmica.

FdM: Hoje estávamos no soundcheck, começámos a brincar com uma coisa que gostámos e começámos a ficar entusiasmados com aquilo. Foi ali um bocadinho de ensaio e se calhar pode dar uma música que podemos gravar.

 

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Em que formatos físicos pensam lançar este registo?
FdM: A Revolve quer fazer cassete, nós queremos fazer vinil, provavelmente vamos acabar por fazer os dois. O Ricardo é ilustrador e tem uma ideia mais aprofundada sobre isso, embora eu seja casado com uma ilustradora também, mas a ideia do vinil a mim agrada-me muito porque acho que dá é um suporte para poderes fazer um bom artwork, alguma coisa que te toque mais como objeto e não só pela música que está lá dentro, e nós gostamos dessa peça. Ainda por cima agora como está na moda e toda a gente gosta de comprar, melhor ainda. E podemos fazer um trabalho bonito, alguma coisa que fique na memória, mas do que se fosse em CD.

 

Hoje em dia numa era em que a música está disponível de forma gratuita, acham que é fundamental esse cuidado com o artwork? Não vender só a música mas todo o conjunto?
RM: Mais do que tudo para tornar a peça interessante, para haver um diálogo entre a parte musical e a parte estética. É importante mas não é de agora, é desde sempre. Mais do que gosto, é o primeiro impacto.

FdM: É outro nível de comunicação. Pode não ser uma peça de design do caraças mas que pode fazer sentido com a música que está lá dentro, é um complemento. E temos a Margarida, a Borges e a Cláudia Guerreiro a trabalhar nisso, não nos metemos muito que elas tratam disso tudo, fazem isso bem.

 

Vão lançar o disco pela Revolve, uma editora/promotora de Guimarães. Sendo vocês de Lisboa, como surgiu a vossa relação com a Revolve?
RM: A Revolve lançou Papaya, conhecemo-nos mais a sério através disso. Falámos e foi super-natural. Havia interesse de todas as partes de fazer isto mas foi tão espontâneo como o resto das coisas que dissemos.

FdM: E porque o contrato que assinámos é incrível (risos). Eu nunca tive nenhum contrato que se referisse a jacuzzis, mulheres exóticas…

RM: E Tostas mistas!! (risos)

 

E é a Revolve que organiza o Mucho Flow, festival onde vocês também vão atuar. O que acham deste cartaz e o que e podemos esperar de vocês lá?
RM: O cartaz é ótimo, montes de amigos, vai ser um concerto fixe de se dar. E é sempre especial termos montes de amigos à nossa volta.

FdM: Os concertos vão sendo um bocadinho diferentes de cada vez que vamos tocando. Seguramente uma ressaca no dia a seguir.

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E este é também um festival onde há muita música portuguesa emergente, uma coisa cada vez mais frequente neste tipo de eventos em Portugal. As mentalidades estão a mudar um pouco?
FdM: Acho que sim. A minha perspectiva é que o público português se abriu um bocadinho, os media se abriram também um bocadinho para a música que se faz aqui, e a esse nível eu acho que tem um bocado a ver com visibilidade, aquilo que era antes um bocado underground passou a estar mais disponível. Tem um bocado a ver com a internet também. Não sei se há mais bandas do que antes a fazer música, mas acho que as influências se tocam mais, está tudo mais aberto.

 

Nestes últimos anos viveu-se um período de crise no país, mas ao mesmo tempo um “boom” muito grande na música alternativa portuguesa e nos eventos ao vivo. Como é viver da música em Portugal atualmente?
FdM: A tua resposta vai depender a quem fizeres a pergunta. Qualquer pessoa que faz música sabe imediatamente que é difícil viver e não ganha grandes expectativas. Depois o contexto pode permitir viver da música, que é o meu caso há uns 4 ou 5 anos. Eu gosto de viver só de uma coisa: daquilo que faço. Fácil não é, mas eu se calhar tenho mais facilidade que outras, ou do que eu tive há uns anos atrás. É fácil viver em Portugal de qualquer modo? Não é fácil trabalhar num call center o dia inteiro e ganhar 500 euros e chegar a casa provavelmente infeliz. Depois podes ter outro modo de viver a vida, fazes uns 400 ou uns 500 e chegas a casa feliz. Ou então podes ter sorte e fazes muito mais do que isso e és mais feliz ainda.

RM: Vives de música. E depois podes ter sorte ou não de viver da música.

FdM: Exato. O importante é continuar a fazê-la mesmo que não dê para viver dela. Se for músico de coração, e não tiver mais nada que o divida. O Ricardo aqui tem, por exemplo, é ilustrador, trabalha noutras coisas, um bocado com a Cláudia também. Eu neste momento tenho a música, se tenho a hipótese de viver da música, prefiro viver dela e ter menos dinheiro.

RM: Eu se pudesse viver só da música se calhar escolhia não viver só disso, porque gosto de fazer outras coisas, a cena é um bocado: viver daquilo que eu gosto de fazer.

 

Para acabar, a nossa pergunta da praxe. O que andam a ouvir de novo?
RM: Não é recente mas tenho andado a ouvir, um disco do Max Roach que se chama “M’Boom” e é só feito com percursão, tenho andado a ouvir muito muito esse disco. Também um disco brutal do Kid Millions (Oneida) e Greg Fox (Liturgy) que saiu há uns meses e é um discão. Gostei muito do de Circuit des Yeaux, que vão tocar ao Mucho Flow. O disco da Kate Tempest também está muito bom.

FdM: Ouvi uma pré-escuta do último disco de Battles e aquilo está incrível. É mesmo a coisa mais recente, ainda nem sequer saiu.

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