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João Carvalho: "Paredes de Coura tem uma magia que outros festivais não têm"

26 de Junho, 2015 EntrevistasBruno Pereira

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Vodafone Paredes de Coura

Entrevista • Hey Colossus

"Tudo isto ainda é um sonho difícil de acreditar" All We Are em entrevista
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João Carvalho tem vindo a transformar-se, aos poucos e poucos, numa peça central da música em Portugal. Prova disso são os festivais por si e sua equipa organizados, que levam milhares de pessoas ao norte do país todos os anos. Falamos do ainda jovem Primavera Sound e do já mítico Paredes de Coura, sem esquecer o Festival Para Gente Sentada.

Nascido nessa mesma vila de Paredes de Coura, perdida nas margens do também rio Coura e por entre as serras d'Arga e Labruja, já não muito longe da fronteira espanhola, João Carvalho colocou a sua terra no mapa. Deu-lhe uma marca. Foi, juntamente com o grupo de amigos, o grande impulsionador e primeiro organizador do antigo Festival de Música Moderna de Paredes de Coura, em 1993, numa altura em que escasseavam os festivais de música em Portugal.

Agora, vinte e dois anos depois, com o recente "boom" de festivais em Portugal, João Carvalho mantém-se firme e de pedra e cal em Paredes de Coura: continua à frente deste projeto desde o seu início e nesta altura já longe de se imaginar um fim para este que é um dos maiores casos de sucesso na área da música em Portugal, como é o agora chamado Festival Vodafone Paredes de Coura.

Desde a evolução do próprio público do festival, ao processo de "scouting" de bandas emergentes, passando pelos motivos da longevidade saudável e pelo cartaz da edição deste ano, todos os segredos por detrás do Festival Paredes de Coura, para ler nesta grande entrevista concedida à Wav.

 

Começando pelo Primavera Sound, que acabou há umas semanas, e antes de irmos ao rescaldo, pode-nos contar um pouco da história do festival no nosso país, de como surgiu a oportunidade de começarem a fazer uma edição em Portugal?

Eu costumo dizer que o Primavera em Portugal nasceu à mesa, porque foi depois de muitos jantares e de muitos almoços. A história começa com a visita dos espanhóis ao Festival Paredes de Coura, os detentores da marca “Primavera Sound”. Eles gostaram da nossa forma de estar na música, gostaram do evento e começamos a falar da possibilidade de fazermos uma edição em Portugal. Na altura disseram que não porque já tinham sido convidados para fazer em várias partes do mundo, no Brasil, Colômbia, México, Estados Unidos, e não aceitavam porque não iam controlar o evento. A partir do momento que faziam uma nova edição, tinham de controlar o evento. Depois de muitos almoços e de muitos jantares, viram que nós éramos realmente as pessoas de confiança que eles precisavam e que iríamos tratar a marca como eles a tratam, nascendo então esta parceria que faz com que hoje o Primavera Sound seja 50% nosso e 50% dos detentores da marca. É uma parceria que temos a meias com eles.

 

Esses 50/50, na prática, como é que se divide entre vocês e eles, na organização efetiva do evento?

É uma parceria que corre perfeitamente, temos uma relação muito boa. Toda a programação é feita em consonância connosco, obviamente, mas o alinhamento, quem somos nós para dizer ao Primavera que tipo de bandas é que devem trazer, eles fazem as coisas bem feitas. Conversamos todos e chegamos facilmente a um alinhamento, que em Portugal é sempre diferente do de Barcelona, até pela dimensão dos dois festivais. Por vezes temos as pessoas a dizer: “Ah mas em Barcelona está esta banda e em Portugal não está”, são festivais completamente diferentes. O Primavera de Barcelona tem o triplo das pessoas e o dobro do preço do bilhete do que a edição portuguesa. O objetivo é que o Primavera Portugal chegue ao que é o Primavera de Barcelona, mas vamos andando devagar e dando um passo de cada vez. Foi assim também que fizemos com o Paredes de Coura, começou uma coisa pequenina e hoje é o sucesso que toda a gente conhece.

 

Sobre essa escolha de nomes para a edição portuguesa, salvo algumas exceções, estão também todos em Barcelona. Como é que fazem essa escolha dos nomes que vêm também ao Porto?

É uma questão orçamental, olhando para o programa de Barcelona e vendo em questões orçamentais o que é que se consegue. Este ano, por exemplo, tivemos Death Cab For Cutie e FKA Twigs que estiveram só em Portugal e não estiveram em Barcelona, por vezes isso também se proporciona. Não há uma ciência exata na calendarização das bandas que vêm ao Porto, é ver o que está em cima da mesa e estudar as várias possibilidades. Há muita gente que pensa que os festivais são uma ciência exata, mas depende se a banda está em digressão ou se não está, se lhe apetece tocar ou se não apetece. Hoje há muitas bandas que, por exemplo, simplesmente não querem tocar, porque estão ricos ou porque têm família, simplesmente não lhes apetece, portanto é sempre muito complicado. Claro que há também as bandas que preferem tocar em determinado festival por causa do nome ou por causa do line-up. Isso aconteceu-nos este ano, por exemplo, com a Lykke Li, que não toca em mais nenhum festival na Europa, mas vai a Paredes de Coura precisamente porque gosta do alinhamento.

 

Já vamos chegar a Paredes de Coura e também à Lykke Li mas, ainda sobre o Primavera Sound, qual é o rescaldo que faz desta edição?

Foi muito bom. O Primavera é um festival que se está a consolidar e que está a crescer, é já uma marca forte no panorama dos festivais em Portugal. É um festival diferente, se comparado com os outros, é um festival onde as marcas sabem estar, não estão a gritar nem de forma folclórica a promover os seus produtos. É um festival que trata bem o seu público e onde o objetivo é realmente ver concertos e que as pessoas convivam sem essa parafernália de ruído das marcas e sem essa confusão visual que às vezes as marcas trazem.

 

O formato do Primavera tem sido praticamente constante desde a primeira edição. Este ano, não diria que seja uma novidade, mas aconteceu com mais frequência, as enchentes no Palco ATP. Esse palco já começa a justificar uma expansão para o primeiro dia?

É tudo uma questão orçamental. Quem me dera fazer 4 dias de festival e ter o ATP os dias todos. É tudo uma questão de orçamento, temos de tomar opções.

 

E este ano lançaram também o Mini Primavera, com muito sucesso.

Sim, a ideia do Mini Primavera era a de fazer algo que promovesse o Primavera Sound, era mostrar o parque da cidade àqueles que nunca lá foram e no fundo, educar os miúdos para que no futuro sejam o nosso público fiel.

 

Indo então mais atrás, mesmo ao início, como é que um grupo de rapazes adolescentes, num meio rural e um pouco isolado, numa altura que ainda não havia o acesso facilitado a tudo que é informação como hoje em dia, se interessavam tanto por música, tendo chegado ao ponto de formarem um festival, o festival Paredes de Coura?

Eu costumo dizer a muita gente, um bocado a brincar, um bocado a sério, que o principal provinciano está na cidade. É isso que eu sinto, cada vez mais. Em Paredes de Coura sempre tivemos um grupo de amigos que gostavam e percebiam de música, mas gostam e percebem também de cinema independente, arquitectura, pintura. Sempre fomos pessoas interessadas. O festival nasce precisamente numa altura em que toda a gente foi estudar para fora, uns para o Porto, outros para Lisboa, Évora, e eu era o único que estava em Paredes de Coura. Nasce então de uma brincadeira de miúdos em que o objetivo era passarmos um bom momento e que depois deu no que deu. Acho sempre exagerado chamar-se primeira edição do Festival Paredes de Coura porque a primeira edição não foi um festival, foi uma noite com cinco bandas. Depois, isso entusiasmou-nos a todos e as coisas foram acontecendo. Todos nós temos aquela coisa de que se estamos a fazer algo temos que fazer bem e, se já gostávamos de música e acompanhava-mos o fenómeno, muito mais passamos a fazê-lo desde então. Hoje em dia, se perguntas se sentimos aquele orgulho de sermos a única empresa que está longe dos grandes centros, dentro das principais produtoras nacionais, claro que sentimos esse orgulho. Sentimos orgulho e não renegamos as nossas origens. Eu costumo contar uma história em que numa altura estava em Paredes de Coura a negociar um jato privado para um artista e de repente ouvem-se cães a ladrar e do outro lado perguntam-me: "Está na sua casa de férias?". Deu-me um gozo tremendo dizer que não, que estava no meu escritório. (risos)
 


“ É a humanidade e simpatia que nós pomos nos eventos que nos tornou especiais. ”




 

 
 
Começaram a organizar o Festival Paredes de Coura, posteriormente o Festival para Gente Sentada e agora mais recentemente o Primavera Sound e alguns concertos em nome próprio. Considera que este é o trabalho ideal com que sempre sonhou? Utilizando o chavão futebolístico que está na moda, é a sua cadeira de sonho?

É a minha cadeira de sonho, sim. Eu sou apenas um dos rostos da empresa, provavelmente o mais visível, mas comigo estão o José Barreiro, o Filipe Lopes, o José Eduardo Martins, sócios de sempre. Nós estamos na música hoje como estávamos há 20 anos, estou com as pessoas hoje como estava há 20 anos. Acho que uma das particularidades da nossa empresa é precisamente a forma como tratamos as pessoas, seja no evento, seja fora do evento. Eu hoje passo uma ou duas horas a responder a pessoas no Faceebok, não dá para responder a toda a gente, mas as pessoas pergunta-me tudo e mais alguma coisa. Em conversa com outros promotores, passam-se, de como é que é possível eu responder a essas coisas, mas eu faço questão de responder à maior parte delas. Acho que é essa humanidade e simpatia que nós pomos nos eventos que nos tornou especiais e faz parte do nosso ADN.

 
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Sempre foram conhecidos por apostar e trazer bandas emergentes, que quando chegam a Paredes de Coura ainda são pouco conhecidas mas que uns anos mais tarde já estão noutros voos. Pode-se lembrar, por exemplo, uns Arcade Fire a atuar ao fim da tarde em 2005, mas há muitos mais exemplos desses ao longo dos mais de 20 anos de história do festival. Utilizando outro chavão futebolístico em voga, como é que é feito o vosso scouting atualmente e como evoluiu ao longo destes tempos?

Hoje é mais fácil do que nunca. Antigamente tinha-se que se viajar mais, ir ver concertos ao vivo e comprar e esperar que viessem revistas como a Uncut, a NME ou a Mojo, de maneira a se estar informado e atento ao fenómeno. As coisas eram muito mais complicadas, fazias uma proposta e estavas 15 dias à espera que a informação lá chegasse, fosse por telefone ou carta. Quando começámos a fazer o festival não havia mail e o fax só apareceu já no quinto ou sexto ano de festival. Hoje em dia as coisas são muito mais imediatas, já não se corre o risco de se fazer uma proposta a um artista que não está na estrada, já se tem mais ou menos uma noção de quem é que está em digressão. Havia algumas coisas ridículas que se fazia antigamente como abordar determinado artista que já nem tocava há mais de um ano mas que não tínhamos forma de saber. Hoje, ouvir-se uma banda nova está à distância de um clique, é tudo mais fácil com a internet, mas continuamos a viajar e a ver concertos. Depois também há a sensibilidade, já nos enganamos muitas vezes.
 


“ De repente fala-se de Paredes de Coura como se fosse Paris, Madrid ou Barcelona. ”




 

 
 
E este ano conseguem trazer a Lykke Li, que é precisamente uma artista que não anda na estrada.

Não é só ela, há outros. Os War on Drugs, por exemplo, vão estar em Paredes de Coura porque têm muita vontade de vir ao festival, não lhes dá muito jeito, de todo, estar em Paredes de Coura. Vão estar quinta-feira e sábado, se não me engano, na Bélgica e na Holanda, em que passar de um país para o outro demora duas horas. Vir a Paredes de Coura pelo meio é um desvio enorme e nem conseguiram sequer voos, vêm de avião fretado, acabam o concerto e vão imediatamente a seguir para a Holanda. Só o fazem porque gostaram do alinhamento e gostam do festival, seja porque já ouviram falar bem ou porque pesquisaram. E a Lykke Li também. Segundo entrevistas dela, deixou de tocar em festivais precisamente porque atingiu uma popularidade que não estava à espera e deu a entender que lhe chateava esse sucesso e que não queria ser confundida com fenómenos como a Lady Gaga e outras coisas do género. Decidiu não tocar em festivais, até que o agente a convenceu a tocar este ano no Coachella. Insistiu também com a ideia de Paredes de Coura e ela depois de ver o alinhamento aceitou, que é uma coisa maravilhosa. Mas é precisamente pela coerência do festival.
Não se pode é esquecer que Paredes de Coura é uma terrina pequena. De repente fala-se de Paredes de Coura como se fosse Paris, Madrid ou Barcelona. Paredes de Coura tem nove mil pessoas distribuídas por 19 freguesias, a vila nem duas mil pessoas tem, tem uma taxa de desemprego muito grande, e de repente ombreia com grandes festivais europeus. Paredes de Coura é um case study. Há dois anos fizemos o Warm Up Paredes de Coura no Porto e nem comunicamos que era um evento de música. Hoje, Paredes de Coura já é mais sinónimo de música do que propriamente do concelho, o que é uma coisa estranha mas ao mesmo tempo é maravilhoso. Olha-se para as digressões das bandas e estão Estocolmo, Londres, Paris, Paredes de Coura e no dia a seguir, se calhar, Nova Iorque, ou em dois dias. Fazendo agora um pouco de publicidade a nós próprios, e não resistindo à vaidade, este é um feito que por vezes as pessoas esquecem. Posso dizer que é muito mais fácil fazer o Primavera Sound que o Paredes de Coura. É muito complicado fazer um festival no interior, tudo tem mais custos e até os patrocinadores são mais difíceis de levar. Costumo dizer que é o nosso pequeno grande milagre, não há muitos exemplos na Europa de um festival tão distante dos grandes centros.

 

Ali por volta de 2010 ou 2011, o João lamentava publicamente que os grandes patrocinadores só investiam em Lisboa e nos grandes centros. Entretanto já têm a NOS com o Primavera Sound e agora a Vodafone, antes a EDP, a patrocinar o Paredes de Coura. O que é que mudou?

Mudou. Sabes como consegui levar a Vodafone para Paredes de Coura? Praticamente de borla. No primeiro ano convidei-os mas não queriam. Porque lá está, este país é um país tão pequeno mas que as pessoas de Lisboa tornam tão grande. É um país muito centralizador, o que é um perfeito disparate, tendo em conta que é um país só com cerca de 9 milhões de habitantes, e mesmo em área. Por muito impacto mediático que o festival tenha, porque sempre teve (até acho que é dos festivais com melhor imprensa), por preguiça, seja intelectual ou física, as pessoas não olhavam muito para Paredes de Coura e sempre tivemos essa dificuldade. As marcas iam mas depois não apostavam como devia ser porque preferiam apostar nos eventos realizados nos grandes centros. Até que apareceu a Vodafone, que foi quase puxada. Convidámos a virem experimentar um primeiro ano e hoje é um patrocínio sólido, que percebeu a identidade do festival, que percebeu como é que se comunica no Paredes de Coura, que percebeu também que é preciso promover o festival por muita notoriedade que ele tenha, e acho que é agora o parceiro ideal. O mesmo acontece com a NOS. Repara que somos a única empresa que trabalha com duas empresas de telemóveis concorrentes e sabemos gerir isso muito bem.
 


“ Acho que o festival nunca esteve tão bom, nós é que não sabemos envelhecer.
Esta geração é muito mais civilizada do que era a de há 10 anos atrás. ”




 

 
 
 
Juntamente com novos patrocinadores, têm aparecido também algumas críticas que nestes últimos anos o ambiente está diferente e um pouco desvirtuado daquilo que era. Como é que vê este problema? É só um problema geracional?

Aqui há tempos encontrei duas pessoas que me disseram isso, que no ano passado isto estava desvirtuado e era só miúdos, e eu perguntei-lhes que idade têm e há quanto tempo iam a Paredes de Coura. Um deles tem 27 e vinha a Paredes de Coura há 10 anos, portanto tinha 17 quando começou a vir, que é a idade desses miúdos que estão aqui agora. Eu acho que o festival nunca esteve tão bom, nós é que não sabemos envelhecer. Envelhecemos e perdemos a paciência para os mais novos. Lembro-me de há 10 anos atrás passar a vida a pedir à segurança para acabar com festas techno e com os megafones que não deixavam dormir as pessoas e agora não se vê isso em Coura. Esta geração é muito mais civilizada do que era a de há 10 anos atrás. Muitos dos que agora se queixam faziam a vida num inferno a quem estava no campismo. Hoje as pessoas bebem os seus copos, obviamente, mas pelo menos sossegam. Acho mesmo que esta geração é bem mais calma. Às vezes é preciso olhar para trás, olhar pelo retrovisor, para vermos o que fomos na altura. Honestamente, e estou à vontade para falar porque estive nas 22 edições do festival, acho que o ano passado foi das edições mais civilizadas de sempre. Se compararmos com 2005 ou 99, anos das maiores enchentes, não há festas techno, nenhum atrito, roubos. Coisas surreais que nunca quisemos no festival.

 

Hoje, Paredes de Coura parece estar melhor que nunca, mesmo a nível de imagem e de markting, com um grande impacto nas redes sociais também. Mas já houve umas edições conturbadas, cartazes não muito consensuais, perigo de não se realizar o festival por falta de verbas, entre outras coisas. Como é que se deu a transição desses tempos para aquilo que são hoje, para uma era digital em que sabem tão bem comunicar?

Nada é pensado em termos de markting. Tivemos agora um vídeo viral, que teve mais de 70mil visualizações, e não foi sequer na página do festival, foi na minha página pessoal. É verdade, eu acho que temos um markting diferente mas não há uma estratégia concreta, as coisas vão acontecendo. Houve uma diferença na comunicação como houve uma diferença nas bandas. Eu não tenho orgulho em tudo que fiz, nem pensar. Houve edições tenebrosas que tivemos que ceder e ter bandas como Papa Roach, por exemplo, ou outras idênticas. Nós, já há alguns anos que fazemos o festival sozinhos mas antes tínhamos parcerias e portanto tinha que haver algumas cedências. Não é por acaso que de repente os cartazes ficam fechados em fevereiro ou março, depois de libertarmos as amarras e começarmos a fazer as coisas à nossa maneira. O cartaz desta edição de Paredes de Coura está fechado desde março. Só que quando há dois festivais para anunciar, tem que se gerir isso também. Lembro-me de edições anteriores, que para além de ter nomes com que não nos identificávamos muito, pelas tais cedências a agentes ou parcerias, também tínhamos o festival fechado 15 dias antes, o que é uma coisa impensável hoje em dia. Paredes de Coura é um festival que já deu muitas vezes prejuízo, já abanou muitas vezes e já estivemos muitas vezes a pensar que era a última vez que se fazia. Felizmente, agora com este patrocinador e com esta nova alma que ganhou nos últimos anos, é um festival sólido que tenho a certeza que está aí para a vida.

 

Nós últimos anos, o mercado de música ao vivo tem crescido muito em Portugal, têm aparecido inúmeros festivais novos nos mais variados sítios. Acha que há mercado em Portugal para tanta oferta?

Eu acho que os festivais têm é que ter identidade. E nós temos dois festivais que têm muita identidade. Aliás, três festivais, porque o Festival Para Gente Sentada também tem. O segredo está aí, nós nunca caímos em facilitismos, já recusamos bandas que ninguém recusaria, bandas que queriam tocar em Paredes de Coura. Não vou dar nenhum exemplo porque é deselegante. Achamos que não faziam parte da coerência que sempre quisemos para o Paredes de Coura, embora tivéssemos a certeza que venderiam muitos bilhetes. Sempre soubemos estar na música e acho que estamos agora a colher aquilo que temos semeado ao longo dos anos.

 

Há também a ideia que com tanta concorrência se acaba por entrar em leilão entre festivais, para ver com quem fica com determinada banda, das mais apetecíveis. Isso também acontece na realidade portuguesa?

Acontece. As bandas não têm preço. Tu sabes mais ou menos quanto é que a banda pode cobrar mas a banda espera a tua oferta. Há quem faça bons negócios, há quem faça maus. Quando queres muito uma banda vais subindo a oferta e depois também esperas que a banda tenha sensibilidade para escolher o teu festival, não só pelo orçamento mas também pelo alinhamento, como aconteceu este ano com a Lykke Li e com os War on Drugs. Os War on Drugs já não têm problemas de dinheiro e já têm um cachet alto, não é só pelo dinheiro que fazem este desvio a Paredes de Coura, é também pelo prestígio do festival e pelo alinhamento.

 

Hoje em dia também se pode falar de uma certa crise de cabeças de cartaz bem definidos, em relação ao que acontecia antigamente. Vê-se cada vez menos bandas muito grandes na estrada e cada vez mais os festivais a apostarem no solidez do cartaz inteiro ao invés de apostarem as fichas todas num cabeça de cartaz grande que garanta sozinho o sucesso de bilheteira. Vocês, seja por opção ou por necessidade, dentro dos grandes festivais em Portugal, foram os primeiros a apostar nesse formato de grande quantidade de nomes mais médios em vez do grande cabeça de cartaz. Como vê toda esta temática?

Os cartazes hoje assemelham-se muito ao Paredes de Coura, olha-se para os outros festivais e está tudo cada vez mais a apostar na música indie, seja no palco principal ou nos outros. Mas eu sinto isso, que fomos nós que começamos essa tendência, embora possa parecer pretensioso dizê-lo. Cabeças de cartaz há e haverá sempre, mas é cada vez mais difícil convencer uma banda que tem não sei quantos milhões na conta a voltar a juntar-se. Eles são como nós, de repente tens filhos, uma casa de férias em Malibu, vou agora andar na chatice que é uma digressão. Há uma conversa com o Josh Homme em que ele diz que num ano fez 165 concertos, é normal de repente já nem saberes em que país estás e em que hotel estás. Aliás, sempre desmistificamos uma coisa, que é uma das perguntas que mais me irrita e quando respondo até sou às vezes um pouco deselegante, que é aquela de quais são as exigências dos artistas. É uma coisa que outros festivais utilizam para show off, para se promoverem, porque as exigências são absolutamente banais. Quanto tens uma banda com sete ou oito elementos e não sei quantos técnicos, é normal que cada um goste da sua marca de bolachas ou da sua marca de água. Isto para te dizer, que me estava a perder um bocadinho, que tu olhas para o Glastonbury deste ano e está a ser contestado o Kanye West, por exemplo. Parece-me que os grandes festivais que dependem dos grandes cabeças de cartaz possam estar a ter mais dificuldades, mas isso também depende do ano. Este ano, por exemplo, foi difícil para grandes cabeças de cartaz mas o próximo parece-me que já vai ser um ano com muita fartura, pelas reuniões que se foi tendo com agentes, que grandes bandas vão estar na estrada.

 
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“ Acho que vamos buscar os Tame Impala na altura certa. Acho os temas novos absolutamente geniais. (...) Se me perguntassem se neste momento eu preferia Tame Impala ou Queens of the Stone Age [em Paredes de Coura], eu dizia Tame Impala. ”




 

 
 
 
 
Indo então ao cartaz deste ano, que já se encontra fechado, o revivalismo psicadélico chegou definitivamente a Paredes de Coura?

Chegou, mas ainda bem. Estão a fazer-se coisas muito interessantes. Por exemplo, acho que vamos buscar os Tame Impala na altura certa. É uma banda que podia ter vindo há três anos e há dois, mas ainda bem que não aconteceu porque acho que agora é a altura certa. Acho que atingiram uma maturidade e um estatuto tal que já não são uma novidade. Paredes de Coura não vive só da novidade, também vive de nomes grades e nomes grandes que caibam em Paredes de Coura não há assim tantos quanto isso. Os Tame Impala não são os Foo Fighters, e ainda bem que não são, já levam muita gente e têm uma qualidade musical que outras bandas não têm. Acho os temas novos dos Tame Impala absolutamente geniais. Costumo ver se uma banda é grande banda ao terceiro álbum e o que estou a ver dos Tame Impala está-me a deixar muito agradado e vão ter de certeza uma carreira muito grande. Quando tens sucesso e estagnas, corres o risco de ser uma banda média ou pequena para toda a vida, ou cresces e sabes crescer. E eu acho que os Tame Impala sabem crescer e sabem inovar. Quantas bandas ficam pelo caminho por não saberem mudar? Mas não te estavas só a referir aos Tame Impala, mas também aos Pond e a outras bandas. Este é um festival de tendências e a tendência hoje é essa.

 

Quais são as suas grandes apostas para este ano? Aqueles que acha que podem marcar esta edição do festival ou ser mais um dos casos em que vão explodir nos próximos tempos.

Às vezes apostava em determinadas bandas que acabavam por desiludir, não é uma ciência exata. Mas olhando para o cartaz, Father John Misty, por exemplo, chega numa altura perfeita, naquela fase em que está a passar de artista médio para artista grande, mas também já não é uma novidade. Os Ratatat acho que vão marcar esta edição, não é uma novidade, é uma banda que já tem muitos anos, mas também está agora naquele ponto de rebuçado. Sylvan Esso também acho que é uma novidade que vai dar que falar. Natalie Prass e The Soft Moon. White Fence também é uma banda maravilhosa. Há tanta coisa boa este ano.

 

Sufjan Stevens, que também anda em tour pela europa na altura de Paredes de Coura, é um dos nomes muito pedidos pelo público, mas que acabou por não vir.

O Sufjan Stevens não toca em festivais ao ar livre. Gostávamos muito, fizemos proposta, mas ele não toca em festivais ao ar livre. Está no direito dele e acho que faz muito bem porque a música é talvez demasiado intimista, embora Paredes de Coura tenha uma magia que outros festivais não têm. Mas era um bom nome para Paredes de Coura.

 

Uma banda que criou uma aura especial com o festival Paredes de Coura e com o público são os Queens of the Stone Age. Todos os anos se vê muita gente a pedir o regresso deles, apesar de já terem estado três vezes no festival. Hoje em dia já são demasiado grandes para Paredes de Coura?

Não, não são demasiado grandes. Paredes de Coura tem nomes grandes e hoje em dia tem orçamento para trazer os Queens of the Stone Age. Mas se me perguntassem se neste momento eu preferia Tame Impala ou Queens of the Stone Age, eu dizia Tame Impala. Mas sim, é uma banda que pode voltar. O Josh Homme deu uma entrevista em que disse que o Paredes de Coura foi o festival mais bonito em que tinha tocado. Citou outros festivais, um em Itália, com um espaço maravilhoso, e que este não se comparava a nenhum outro, que é de facto único. E daí ele ter vindo três vezes a Paredes de Coura.
 


“ Estamos preocupados com aqueles que sempre foram a Paredes de Coura sabendo que não esgota e não queríamos muito que esgotasse um mês antes, porque era mau para as pessoas que são e sempre foram fieis a Paredes de Coura. ”




 

 
 
 
 
Há alguma banda que gostasse muito de trazer a Paredes de Coura, que ainda não tenha sido possível, mas que ainda alimente essa esperança?

Acho que vamos trazendo tudo que queremos. Até porque o Paredes de Coura não é propriamente um festival para 50 mil pessoas. Podíamos tentar trazer Radiohead, mas onde é que os metes em Paredes de Coura, em termos de público? Era um festival que iria esgotar e não queremos isso. E o público fiel? Por exemplo, este ano, estamos um bocadinho preocupados, entre aspas claro, que pela primeira vez estamos a ter este feedback que as vendas antecipadas são três vezes superiores à melhor edição de sempre. É maravilhoso trabalhar assim porque já sabes que as coisas podem correr bem, pode-se investir mais em algumas coisas, já se sabe que vai ser um sucesso. Mas nós estamos preocupados com aqueles que sempre foram a Paredes de Coura sabendo que não esgota e não queríamos muito, isto até parece patético dizê-lo, não queríamos muito que esgotasse um mês antes, porque era mau para as pessoas que são e sempre foram fieis a Paredes de Coura. Se digo isto a outro promotor chamam-me logo maluco, querem é esgotar logo na primeira semana. Mas nós temos essa preocupação com as pessoas e acho que é isso que nos torna diferentes.

 

Que novidades vai ter o festival este ano, em relação às edições anteriores?

Muita coisa. Este ano vai acontecer muita coisa de diferente no festival. Vai voltar a haver a rubrica "O festival subiu à vila", que proporciona três dias de música grátis na vila. Demonstra também o nosso carinho com as pessoas de Paredes de Coura, visto que é uma iniciativa completamente de borla e que faz parte do orçamento do festival. E é também uma forma de dar ocupação às pessoas que vão mais cedo e de dar uma ajuda ao comércio local. Este ano há uma particularidade que é o Clube do Rock, feito pela Câmara Municipal pela primeira vez, que vai abrir 15 dias antes do festival começar e em principio vai ter concertos.
Vamos cuidar ainda melhor do espaço. Há dois anos apostamos muito na melhoria das infraestruturas, criando caminhos em calçada, não os conseguimos fazer todos mas este ano já estamos a conseguir. Vamos melhorar o campismo, a feira, e vamos também alugar pela primavera vez a quinta do outro lado da margem da praia fluvial, vai ser também um espaço de praia e de campismo. É uma parte que estava vedada durante estes 22 anos e que faz agora também parte da praia. Estamos neste momento a semear relva e a tornar aquilo bonito. Vamos melhorar a zona de imprensa, a zona VIP, o pórtico de entrada, uma vedação mais bonita e melhorada. Quem foi a Paredes de Coura no ano passado e volta este ano vai ver diferenças em praticamente tudo. Quando as coisas correm bem e temos orçamento, parecemos miúdos numa loja de gomas. Não somos uma empresa que pensa no lucro imediato. A Lykke Li é já uma artista cara, nem era necessário, mas nós achamos que sim, que devíamos ter, se as coisas estão a correr bem, se as vendas correspondem às expectativas, pode-se investir um pouco mais no cartaz e nas infraestruturas. É semear para colher. É assim que temos estado ao longo dos anos. O festival está sólido mas é preciso continuar a investir, não podemos cruzar os braços porque está a correr bem, é preciso continuar a cativar as pessoas e a surpreendê-las.
 


“ Quando as coisas correm bem e temos orçamento, parecemos miúdos numa loja de gomas. Não somos uma empresa que pensa no lucro imediato. É preciso continuar a cativar as pessoas e a surpreendê-las. ”




 

 
 
 
 
Em relação às infraestruturas, uma reivindicação do público tem sido uma entrada no recinto diretamente pelo campismo, através de uma outra ponte do outro lado do palco. Já foi estudada essa hipótese?

Já, já pensamos nisso. Mas mais uma vez são as questões orçamentais. No ano passado tivemos uma reunião e pusemos essa hipótese, não para este ano mas para o próximo ano. Para o próximo ano vamos tentar fazer ainda mais melhoramentos e um deles é precisamente a entrada pelo campismo. Embora faça parte da magia de Paredes de Coura, é desgastante subir aquela rampa. Tenho um amigo que diz que as raparigas de Paredes de Coura são as mais giras e as mais bem feitinhas, extamente pelo exercício que fazem na rampa (risos). Queremos melhorar isso como queremos também melhorar a régie, adaptá-la melhor ao espaço, que neste momento ocupa um espaço demasiado grande e rouba ali algum público, mas tudo sem estragar o espaço. O Festival Paredes de Coura pode no futuro comportar mais umas duas mil pessoas mas também não queremos aumentar para mais que isso. Queremos que as pessoas não percam a comodidade e que sempre que vão ao festival, achem cada vez melhor.

 

Para acabar, tem tido tempo para ouvir discos novos deste ano? O que destaca?

A melhor pergunta que me podem fazer é mesmo o que eu tenho no carro para ouvir. Tenho o novo disco dos Motorama, que gostei muito. Hoje vim para aqui a ouvir uma coisa que nunca tinha ouvido, o Paolo Nutini. Baladas fáceis para os casais ouvirem na intimidade, se bem que podiam ouvir coisas muito melhores (risos). Porque oiço também daquelas coisas que não vale a pena mas que acho que devia ter ouvido, pelo menos para ter uma opinião formada. Para dizer que não gosto tenho que ouvir. Outro dia estava numa loja de discos que estava com muitos em promoção e aproveitei para comprar aquelas coisas que já devia ter ouvido e nunca ouvi. Mas coisas novas... o problema quando ouves tanta coisa e não sabes quais dizer. Ando a ouvir Leon Bridges, um tipo fabuloso, da soul music.

 

Falando em soul, vocês trazem este ano a Paredes de Coura o Charles Bradley, que já tinha estado no Primavera Sound no ano passado. Uma aposta num estilo de música que não se vê muito em Portugal, em festivais generalistas como estes...

Sim. Quando me perguntam qual é o estilo do festival, eu costumo dizer que é um festival de tendências. A soul, dança... desde que tenha qualidade, pode estar em Paredes de Coura. O que é que os Calexico têm a ver com os Queens of the Stone Age? Não têm nada, e ambos já tocaram em Paredes de Coura, assim como o Charles Bradley e os Ratatat, quatro estilos completamente diferentes. Não temos preconceitos, desde que as coisas tenham qualidade, podem estar em Paredes de Coura.

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Sessão fotográfica por Mariana Vasconcelos
por
em Entrevistas

João Carvalho:
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