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“Queríamos acima de tudo criar uma identidade própria” • João Freire (Névoa) em entrevista

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Névoa. Um grupo que há tão pouco tempo era uma banda que somente os mais íntimos da cidade do Porto e da região do norte, conheciam. Para muitos, Névoa sempre foi um pilar de impacto, um projeto que ao longo do tempo sempre preservou o leme da experiência ao vivo, tanto com a prévia faceta que contava com Black Metal rápido e abrasador, contra a sonoridade mais lenta e castigadora com que o grupo transitou no novo álbum Re Un. Desde a estreia de Re Un no Amplifest de 2016, a banda tem vindo a subir progressivamente nas camadas da atmosfera, tanto em Portugal como lá fora. A mencionar, desde então, a presença do grupo em inúmeros festivais, tais como o OMG Fest em Viseu, Reverance em Valada e o internacional Le Guess Who? em Utrecht na Bélgica.

Este percurso traduz diretamente todo o potencial da banda em alcançar o mercado de música alternativa no estrangeiro. Um mercado que carece de bandas que consigam domar sonoridades despidas e confrontadas por estruturas complexas de escrita e ainda abraçar elementos externos ao peso, nomeadamente folk e experimental.  Nós já tivemos inúmeras oportunidades de testemunhar a Névoa ao vivo e sempre nos surpreendeu o envolvimento emocional e físico com que a banda se entrega à música.

Surgem alturas que esta história até parece um conto de fadas pela forma como começa e progride. De um dia para o outro, uma banda local passa a ser referência nacional e depois internacional. Depois de meses intensos, volta a época de datas locais e palcos mais pequenos, surge a confirmação da banda a marcar presença no décimo aniversário da sala lisboeta Musicbox, num evento que alcança os 3 dias e que coleciona um amplo leque de artistas para dar asas a uma festa que dispensa muros e separações. Sobem ao palco dos arcos no Cais do Sodré, no feriado nacional, dia 1 de Dezembro, com os canadianos Preoccupations (ex-Viet Cong) a abrir.

Estivemos  então à conversa com João Freire, baterista dos Névoa, onde se fez um sumário daquilo que tem sido um ano muito ocupado para a banda, e discutiu aquilo que os espera no futuro.

 
 

Névoa! Um nome tão simples e ainda assim tão impulsionante para descrever aquilo que vocês têm expressado em música. Quem são os Névoa? Quem compõe a banda e como definirias o grupo como uma identidade?

Na sua essência, Névoa sou eu e o Nuno [Craveiro]. Começámos este projeto em 2014 com a intenção de nos expressarmos musicalmente sem estarmos propriamente preocupados com barreiras de géneros musicais. Queríamos acima de tudo criar uma identidade própria. É certo que o nosso primeiro disco tem bastantes influências dentro do black metal mas temos consciência que com o Re Un nos afastarmos quase por completo dessa sonoridade. No entanto, muitas pessoas continuam a associar-nos a esse género, algo que não entendemos muito bem. Neste momento, o Ivo Madeira (MOASE) e o Miguel Béco (Atila, Örök) fazem parte da nossa formação nos concertos mas também fazem cada vez mais parte de Névoa. A nossa nova música, que temos tocamos nos últimos concertos, já foi composta de uma forma mais coletiva.

 
 

Apesar de ainda serem uma banda relativamente recente, têm sido colocados num pedestal cada vez mais alto com o correr do tempo. Cronologicamente com a presença no Under The Doom (Lisboa), assinatura à Avantgarde Music, Amplifest (Porto), Reverence (Valada), Le Guess Who? (Utrecht), tudo muito consecutivo e progressivo. Como conseguiram digerir isto tudo num tão curto espaço de tempo?

Temos consciência que muita coisa aconteceu num curto espaço de tempo mas consideramos que toda esta progressão foi de forma natural. Com todo o trabalho que dedicamos a Névoa, claro que são resultados que nos motivam e nos fazem querer continuar.

 
 

Por falar em Le Guess Who?, como correu essa primeira experiência num grande festival fora de portas? Qual foi a reação do público ao concerto e qual foi a vossa?

O Le Guess Who? foi uma experiência inesquecível para nós e o concerto correu bem, apesar das horas tardias a que tocamos. Para nós foi óptimo tocar para um público totalmente novo e que praticamente não conhecia as nossas músicas. No fim, várias pessoas nos disseram que ficaram surpreendidas com o concerto, o que obviamente nos deixa muito felizes.

 
 

Estrearam o novo disco ao vivo no Amplifest, num dos vossos festivais preferidos. Sei também que estavam muito nervosos antes de entrar em palco. Fala-nos mais sobre esse dia e essas horas pré-concerto.

Acho que podemos dizer que esse foi um dia de mudança para nós. Como disseste, tocámos no Amplifest, um dos nossos festivais de referência, lado a lado com bandas que tanto nos inspiram. Foi o sítio ideal para apresentar o Re Un e as pessoas pareceram gostar verdadeiramente do concerto. As horas anteriores foram tensas, já não tocávamos quase desde o ínicio do ano e este não era um concerto qualquer. Curiosamente, momentos antes de entrarmos para o palco, quem nos ajudou a acalmar e a estar focados foi o Colin, de Amenra.

 
 

Já com este currículo invejável, em que sala/festival mais gostavam de tocar agora? E banda com quem partilhar palco?

Não costumamos pensar muito nisso, mas há obviamente alguns festivais onde gostávamos de um dia poder tocar, como o Roadburn ou o Eistnaflug. No que toca a bandas com quem partilhar palco, diria que tocar com bandas que gostamos e que não são propriamente associadas a nós (como Preoccupations), é sempre algo que nos interessa.

 
 

Até hoje contam com dois álbuns de originais no currículo, The Absence of Void e o mais recente Re Un, que tem dado muito que falar ao longo do ano. Com uma sonoridade sempre complexa e expressivamente diversificada, decidiram transitar para passagens mais lentas a contar com progressões abrasivas de afinações baixas e massacrantes. Porquê a transição?

Esta é uma das perguntas que mais nos fazem e a nossa resposta é sempre muito simples. Essa mudança/evolução não foi planeada de forma alguma, aconteceu naturalmente. A música que ouvíamos e tínhamos como referência quando gravamos o The Absence of Void era muito diferente daquela que decidimos fazer quando começamos a compor o Re Un. Sentimos que conseguimos criar uma identidade própria com este disco, algo que era um dos nossos objetivos principais desde que começamos a banda.

 
 

Acreditam que esta representação de Névoa é muito mais fiel àquilo que pretendem?

Como te disse na resposta anterior, não se trata de ser uma representação mais fiel daquilo que queremos fazer. Na altura em que saiu o primeiro disco aquilo era o que queríamos fazer e o mesmo se passou com o Re Un. Temos noção que não temos medo de explorar e fazer exatamente a música que queremos em cada momento.

 
 

Por falar no Re Un, uma questão que tem surgido cada vez mais à banda por parte dos ouvintes, (e faço desta, a minha própria questão), é a edição do álbum em Vinil. O que é que nos podem partilhar por agora?

O vinil já está a ser produzido e deve ficar disponível nos próximos meses. Ainda não conseguimos adiantar uma data, mas de certeza que será para breve.

 
 

Quais são os planos de Névoa para 2017? O que pode Portugal e o mundo esperar de vocês?

Temos alguns concertos planeados e gostávamos de voltar a tocar fora de Portugal em breve. Sem dúvida que essa é uma das nossas prioridades. Estamos também já a trabalhar num lançamento novo e se tudo correr bem, durante 2017 teremos mais novidades.

 
 

Por último: álbuns do ano, quais são os vossos?

Temos sempre dificuldade em escolher discos do ano, mas os que mais nos marcaram este ano foram o Wider Than the Sky de 40 Watt Sun e o Värähtelijä de Oranssi Pazuzu.

 

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Por João "Mislow" Almeida / 30 Novembro, 2016

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