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Checkpoint 003 O Checkpoint é um apanhado não-periódico dos últimos lançamentos que têm acompanhado a redação.

astronoid-album-coverBeach House – Once Twice Melody (Bella Union)

Once Twice Melody é o mais recente álbum de estúdio dos dreamy Beach House. No que é o primeiro trabalho inteiramente produzido pelos seus integrantes Victoria Legrand e Alex Scally, este é o culminar de mais de 16 anos aperfeiçoando a mistura de dream pop, shoegaze e o “fator Beach House” – que faz com que ouvir segundos de uma música seja o suficiente para identificar a dupla de Baltimore. Composto por 18 faixas, este álbum foi dividido em quatro partes, cada uma disponibilizada a cada mês desde novembro. Completo em fevereiro, este é um disco sedutor que facilmente se escuta de ponta a ponta. Trata-se do oitavo álbum da banda e a essência mantém-se fiel à proposta de sempre, porém surge mais refinada. Once Twice Melody aposta em elevar sensações através de camadas eletrónicas e de sintetizadores mais ricas, percussões proeminentes do baterista James Barone e composições mais requintadas com a ajuda de uma orquestra de cordas. As influências dos shoegazers de peso dos anos 90 ainda estão lá, a novidade são as baladas eletrónicas inspiradas em Moroder. Já a voz de Legrand, uma poderosa indutora de sonhos, dá um abraço mais firme ao instrumental enquanto as suas letras criam atmosferas cinematográficas com fortes alusões ao cosmos. As baladas, lullabies e o seu synth-pop cheio de saudosismo continuam a ser o centro do universo Beach House. – CN

 

 

Beirut-GallipoliThe Body & OAAEnemy of Love (Thrill Jockey)

Pois é, o nome The Body escreve-se como sinonímia do melhor que a conjugação doom/sludge/noise tem para nos oferecer mediante uma perspetiva abrasivamente experimental. Com currículo repartido com BIG|BRAVE, Thou, Uniform, Full Of Hell e uns quantos mais criativos de excecional gabarito, chegamos enfim à mais recente colaboração do duo de Rhode Island com AJ Wilson – OAA de pseudónimo e produtor de techno pós-industrial de ocupação. Enemy of Love, designação com a qual se celebram três mãos cheias de álbuns colaborativos para o grupo, surge com uma proposta reforçada de tornar um conjunto de sons e ruídos aparentemente despegados e intimidantes em algo de caráter estimulante, não obstante a sua idiopatia pelo duro e lancinante. As cadências abstêm-se de loucuras, procurando antes uma dinâmica próxima de uma tensão morosa, de corda sempre esticada ao limite da sua iminente quebra. As frequências são subterrâneas e capazes de estilhaçar vidro duplo se ocorre um desleixo na moderação do volume. A voz – humana só de origem, porque as entonações no produto final são verdadeiramente grotescas e bestiais – situa-se algures entre as rajadas de estática protuberante e a especulação do momento em que baterá a seguinte e singular detonação do bombo. Mas o todo, esse sim, representa uma simbiose entre artistas de andanças diferentes com mentes equitativamente prodigiosas. – JG

 

 

Boy-Harsher-CarefulBuñuel – Killers Like Us (Profound Lore)

O mais querido projeto internacional do ano presenteou-nos com um disco determinado a desobedecer e a armar estragos por onde passar. Usufruindo da desobediência como arma para contrariar a maré de simpatia, Buñuel, projeto internacional que junta figuras fulcrais da música alternativa italiana com nada mais nada menos que Eugene S. Robinson de Oxbow, disparam por todos os lados com um estilo que mete respeito. A recostarem-se numa parede de som que não visa qualquer etiqueta, termo de género ou uma gaveta musical bem arrumadinha e aprumada, o quarteto prefere deixar as emoções e a abertura ao erro e imperfeição definirem os calafrios em Killers Like Us. Por vezes recordando Swans, outras Harvey Milk, de vez em quando a arrastar a cadência de uns Teeth of Lions Rule the Divine, não há uma única faixa que se sinta oca ou com palavras por dizer. Este é um disco que se sente como um disparo num beco sem saída, uma pancada seca a discutir qual dos intervenientes grita mais alto. O retumbante assalto de frequências graves na introdutória “Hornets” narra uma tonalidade apática, uma luta interior. “Crack Shot” eleva-se como um dos muitos momentos de génio mais vulneráveis e bem conseguidos, a dançar no epicentro do disco com uma intervenção memorável e encorpada. “Roll Call” acorda e acelera os ânimos, e “Even the Jungle” aterra no último parágrafo desta parábola como a derradeira bala deste disparo cadente. – JMA

 

 

Candlemass-The-Door-To-DoomCurren$y & The Alchemist Continuance (Jet Life/ALC)

Continuance é o terceiro ponto de encontro entre Curren$y, rapper de New Orleans, e The Alchemist, produtor oriundo de Los Angeles. Dois nomes que, de forma muito discreta, têm apurado o seu jogo e forma artística nestes últimos dois anos e que dispensam grandes introduções para quem já os conhece bem. Igualmente discreto, sem grandes alaridos e brilhantismos, Continuance parece ter conseguido a imagem exata destes dois artistas numa só peça. Coerente, consistente e saboroso do início ao fim, o tecido espacial levita com batidas de seda pouco salientes que se desfazem com uma doçura de algodão. Em contraste, as letras são uma dura autocrítica à persona do experiente Curren$y, que não só promulga uma dicção vulnerável e de contemplação, como de um propósito para melhorar o dia de amanhã. Consciente do seu próprio vagar, sem pressa para se precipitar em transições prematuras e desnecessárias, o disco ganha pela calma em passar de um momento para o outro sem o ouvinte quase dar por isso. Há que dar um destaque especial ao trabalho colocado em “Louis Baggage”, com a colaboração de Babyface Ray a samplar um corpo de cordas acústicas em dedilhado com o apoio de um piano suave no fundo. O resultado é transcendência no seu melhor. – JMA

 

 

Dream-Theater-Distance-Over-TimeHangman’s Chair A Loner (Nuclear Blast)

Algo que começou como um projeto à parte com membros dos míticos Arkangel, os franceses Hangman’s Chair já andam nestes circuitos há bem mais de 15 anos, e apesar de não terem uma discografia consensualmente aceite por todos no espectro da música pesada mais melancólica, a imparável ascensão do grupo nestes últimos anos é devida e com todo o mérito do mundo. A Loner é a proposta mais recente do quarteto e evidencia-se como uma lufada de ar fresco a abraçar a cadência, a melodia e a compressão das frequências baixas em fulgor e expansão. Para os mais reticentes, bastaria a abertura “An Ode to Breakdown” para arrematar qualquer dúvida e abraçar a atmosfera sem receio. A lentidão e vagar das progressões pacientes e nebulosas dão uma imensidão de espaço para que respirem as vozes imaculadas e o reverb aplainado nas cordas e nas peles da bateria. A melancolia de “Storm Resounds” transporta um peso de alma desmistificado entre a submissão ao próprio destino, uma saudosa impressão que é capaz de lembrar ao ouvinte grandes sucessos de Katatonia ou até mesmo de Paradise Lost. A cada viragem, a cada faixa, a impressão é de um trabalho coerente, contextualizado e belissimamente executado. Depois de A Loner, é de esperar ver esta banda em tudo o que for palco. – JMA

 

 

Fange-PunirZeal & Ardor – Zeal & Ardor (MVKA)

Ao longo dos seus três quartos de hora de duração, Zeal & Ardor é um muito bem conseguido compêndio de autorreferências – quase como um best of, se quisermos ir por aí. Passo a explicar: logo “Zeal & Ardor”, a faixa-título, constitui uma das inúmeras instâncias ao longo do álbum em que material proveniente de lançamentos anteriores – neste caso das faixas “Coagula” e “Wake of a Nation” – é reaproveitado, ou melhor, reexaminado. No entanto, o álbum não deixa de ter as suas novidades. Em “Run”, o black metal habitual da banda é apimentado com toques de melodeath e industrial metal. Já “Death to the Holy” – talvez a faixa mais típica dos Zeal & Ardor devido à sua estrutura call-and-response – é sucedida por “Emersion”, que de uma introdução dream pop-esca irrompe numa progressão de acordes maiores reminiscentes de uns Deafheaven. Pelo meio, destaca-se “Golden Liar”, uma langorosa quase-balada blues que serve de interlúdio antes das brutais “Erase” e “Bow”. Um álbum homónimo é quase sempre indício de uma de duas coisas: no pior dos casos, é sintoma de um défice de criatividade ou de mera preguiça; no melhor deles, é uma espécie de cartão de visita que a banda estende ao seu público como que dizendo: “é isto que nos define musicalmente”. Neste sentido, não é estranho que no grupo haja tanto material retirado e reciclado dos lançamentos anteriores. Pelo contrário, é apropriado, até, para um álbum que pretende ser uma súmula, um ideal platónico do que a banda representa. – HM

Artigo escrito por: Catarina Nascimento (CN), Hugo Moreira (HM), João “Mislow” Almeida (JMA) e José Garcia (JG).

Por Wav / 16 Março, 2022

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