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Crocodiles + Be Forest + Spy On Mars [Hard Club, Porto]

hard club 1

Ambientes psicadélicos e muito Rock & Roll era o que se esperava de mais uma noite no Hard Club. A casa de concertos da cidade invicta recebia os californianos Crocodiles, banda de ponta da noise pop da última década, e ainda os italianos Be Forest depois de já em 2014 nos ofereceram um bem conseguido Earthbeat, demonstrando que a nova cena da música alternativa italiana está boa e recomenda-se. A abrir, tivemos uns ainda inexperientes Spy On Mars, cuja sonoridade combinava, apesar de tudo, com a das bandas que se seguiriam. Vamos então por partes:

Faltava pouco para as 10 da noite quando se ouviram os primeiros riffs soar das guitarra de Bruno Sousa e Rui Coutinho, deixando a antever um concerto carregadinho de nostalgia psicadélica. Quando entrou a voz, veio-me à memória a psych punk de uns Thee Oh Sees ou de um Ty Segall, tudo isto, claro, nas devidas proporções tanto mediáticas como qualitativas. Com uma sonoridade lo-fi e linhas de guitarra assumidamente “sixties”, a banda de Penafiel abria a noite, por entre momentos de maior inspiração e outros de menor fulgor, com um concerto coerente com o que se viria a passar a seguir e com uma boa atitude em palco.

Seguiram-se os italianos Be Forest. Vindos directamente de Pesaro, as influências de The xx faziam-se ouvir logo à primeira música: “Totem”, faixa de abertura do novíssimo Earthbeat, inaugurava de forma instrumental um concerto de uma pop que, juntamente com os seus sintetizadores ambient e guitarras mais dreamy, tem nos ritmos pungentes a sua melhor faceta. Logo à segunda música, “Airwaves” demonstrava que, embora não represente nada de novo, a música dos Be Forest consegue ser, mesmo com um som atmosférico, encorpada e “catchy” e irresistivelmente dançável.

O baixo mais pós-punk e a guitarra pedida emprestada ao shoegaze que se fez ouvir em “Colours” fizeram tremer as paredes da sala secundária mas bem composta do antigo Mercado Ferreira Borges, e levaram a um estado de apoteose alguns dos membros num estado mentalmente menos recomendável da plateia. Este foi o primeiro sinal do clímax do concerto que chegaria com as duas canções resgatadas do disco de estreia da banda, Cold: “Florence” e “Your Specters” aqueceram o ambiente, e nem mesmo os espectadores mais discretos evitaram o bater do pé a acompanhar o ritmo viciante do bombo e tarola, agora tocados com pujança por Nicola Lampredi.

Finda a actuação consistente de Erica, Constanza, Nicola e Lorenzo, começavam os preparativos para aquele que era o mais aguardado concerto da noite. 00:05, marcavam os nossos relógios, quando subiram ao palco Brandon Welchez e Charles Rowell. O ar inegavelmente “cool” da dupla californiana, cada um com a sua guitarra, condiz na perfeição com o rock & roll psicadélico dos Crocodiles. Uma fotografia de Arthur Rimbaud na t-shirt semi-resgada de Brandon personificava a atitude “punkish”, rebelde, carnal e libertina que qualquer banda de rock que se preze deve levar consigo. E “Neon Jesus” é isso mesmo: sensual e libidinoso.

O tema de abertura do concerto da banda de San Diego, que já conta com quatro álbuns de originais, foi o mote para que se desse continuidade a um descorrer de malhas e mais malhas que caracterizam o, temos de admitir, gasto som da noise pop que tem tido como expoentes máximos nesta década bandas como Wavves, No Age, Vivian Girls ou estes mesmos Crocodiles. Todavia, ao vivo, mais psicadélicos e com uma bateria electrónica a acompanhar, parecia impossível não nos rendermos aos refrões orelhudos de canções como “I Wanna Kill” ou “Sleep Forever”.

“Summer Of Hate” fez parte do único concerto da noite com direito a encore e confirmou que os Crocodiles têm, ao vivo, bastantes mais dentes do que em estúdio. Ficava, assim, concluída uma noite que tanto nos mostrou uma dream pop perfeccionista, cerebral e que junta um bom punhado de influências como uma outra mais dançável, bem-humorado e revivalista e mais numa de “do what we feel like” mas que, em conjunto, acabam por funcionar como duas faces de uma mesma moeda que é o rock do novo século. Dito isto, só nos resta lançar o apelo: venham dançar connosco.

Fica atento porque vamos publicar brevemente uma entrevista com os Be Forest.

 

Texto de Luís Sobrado
Fotografia de Tiago Santos
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Por Luís Sobrado / 5 Maio, 2014

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