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[Entrevista] Mars Red Sky

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Quando pensamos em Bordéus vem-nos logo à cabeça o néctar de Baco. No entanto, é também da capital mundial dos vinhos e das bebidas destiladas que vem um dos maiores nomes do Stoner Rock europeu da atualidade, capaz de transformar cada uma das suas músicas num cocktail de estilos que vão do rock psicadélico ao doom, drone ou shoegaze.

Foi, por isso, com grande satisfação, que entrevistámos Julien Pras e Matgaz, dois elementos dos Mars Red Sky que, juntamente com Jimmy Kinast, formam o trio-maravilha responsável por um dos melhores álbuns lançados este ano, Stranded in Arcadia, que irá regressar a solo lusitano já no próximo dia 11 de setembro, marcando presença na primeira edição do Festival Reverence Valada, em Valada do Ribatejo.

Quem são os Mars Red Sky e o que têm feito nos últimos anos?

Mat: Nós somos um trio de heavy psychedelic rock, formado em 2009, em Bordéus, França. Lançámos o nosso primeiro álbum, homónimo, e um EP, Be My Guidena nossa própria editora MRS Red Sound e, agora, temos um novo álbum, Stranded in Arcadia, que saiu pela Listenable Records. Temos estado em tour constantemente, maioritariamente na Europa, mas também nos Estados Unidos e na América do Sul.

 

De onde vem o vosso nome? Há algum significado especial por trás do mesmo?

Julien: Descobrimos o nome enquanto ouvíamos a “Dragonaut” dos Sleep e líamos a letra da música, no booklet do disco. As palavras destacaram-se como algo óbvio que se parecia adequar perfeitamente à atmosfera da música que estávamos a começar a fazer.

 

A vossa música é composta por vários estilos diferentes. Como é que vocês definem/descrevem o vosso som?

Mat: Uma maneira muito simples de descrever é: rock psicadélico pesado. Imaginem os Black Sabbath misturados com Simon And Garfunkel. O conceito básico é baseado em riffs de guitarra e baixo pesados e distorcidos, ritmos descontraídos e vocais melodiosos e agudos.

 

Que bandas e artistas mais vos influenciam como músicos?

Mat: Todos nós adoramos e ouvimos estilos de música muito diferentes, desde pop dos anos 60 até ao black e death metal, cold wave, indie rock, e muitos mais. Quando estivemos no Brasil, por exemplo, descobrimos grandes artistas como Os Mutantes, Chico Buarque ou Raúl Seixas e, nos últimos meses, tenho descoberto alguma música africana. Já no que diz respeito à banda as nossas principais influências passam pelos Dead Meadow, Sleep, The Melvins, Pink Floyd, Black Sabbath, Electric Wizard, Robert Whyatt

 

Porque é que decidiram fazer da música carreira? Houve alguma banda ou algum momento especial da vossa vida que tivesse influenciado essa decisão?

Mat: Eu descobri punk rock graças aos Nirvana e comecei a tocar bateria aos 10 anos. Os meus pais reagiram muito bem e até costumavam levar-me a mim e aos meus amigos a ver bandas como Nofx, Foo Fighters (eram uma grande banda na altura, foi em 1996), Jon Spencer Blues Explosion, L7, entre outros. No entanto, um dia, tinha eu 14 anos, vi os The Jesus Lizard ao vivo e, passado uma semana, vi Fugazi. Logo depois soube que queria fazer disto [música] profissão. Comecei por fazer fanzines e, mesmo já tocando bateria, dediquei muito do meu tempo a trabalhar nelas. Desde então continuei a tocar.

Julien: Os meus pais também me introduziram à música, o meu pai tinha uma pequena coleção de discos. Eu gostava dos Beatles, Enio Morricone, The Beach Boys… Quando tinha 8 anos, mudamo-nos todos para Detroit (o meu pai trabalhou na Ford), e foi aí que comecei a ficar obcecado com rock. Tínhamos MTV que, na altura, passava Guns & Roses, Metallica, Motley Crüe… Depois, na adolescência, Nirvana aconteceu e tudo mudou. A minha coleção de discos é, portanto, muito eclética

 

O vosso novo álbum, Stranded in Arcadia, acabou por ser inesperadamente gravado no Brasil. Que circunstâncias estiveram por trás desse imprevisto?

Mat: Supostamente, a gravação do novo álbum ia ocorrer em Palm Springs, nos Estados Unidos, depois de termos conhecido o Harper Hug no Desert Fest, em Londres. No entanto, tivemos problemas com os serviços de imigração dos Estados Unidos e ficamos cerca de dez dias retidos no Brasil. Tirámos vantagem desse tempo morto para encontrarmos um estúdio e fazer o álbum, apesar da má sorte. Eventualmente conhecemos uma pessoa incrível, o Gabriel Zander, graças ao nosso agente (e amigo) brasileiro, Felipe Toscano, e acabámos por gravar o novo álbum no Rio de Janeiro, no estúdio dele, Superfuzz Estúdio. Às vezes é como se não tivéssemos controlo sobre o que se passa, mas outras vezes isso acaba por ser mesmo bom. Todos os concertos que já tocámos fizeram de nós melhores músicos, conseguimos lidar perfeitamente com o facto de estarmos em tour, conhecemo-nos todos muito bem, sabemos como estar na estrada e tentamos manter isto divertido.

 

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Quanto ao processo de composição das letras, costuma ser feito em grupo ou essa responsabilidade recai para um de vocês?

Mat: Neste novo álbum o processo esteve essencialmente ao encargo de toda a banda. Uma música como “Join the Race” foi inteiramente escrita pelo Julien, mas “Arcadia”, “The Light Beyond”, e outras, surgiram de jams ou ideias básicas que alguém poderia ter em mente.

 

Todos os vossos álbuns foram lançados em vinil. São, portanto, fãs deste formato?

Mat: Sim, todos nós adoramos vinis e achamos que é importante termos a nossa música neste formato. Até posso dizer que é o futuro da indústria musical (física). Pessoalmente, eu tenho muitos CD’s e LP’s e não me importo, gosto de ambos os formatos.

 

Vocês são todos músicos a tempo inteiro ou têm empregos regulares para pagar as contas?

Mat: O Julien e eu somos músicos a tempo inteiro. O Julien tem um projeto a solo, com o nome dele: Julien Pras. É uma espécie de indie pop com alguns elementos progressivos, psicadélicos, cenas dos anos 60… Ele lançou dois belos álbuns. Eu toco numa banda afro/metal chamada Epiq, que é um trio com balafons (instrumentos típicos da África ocidental, como a Marimba, mas mais old school), baixo e bateria. O Jimmy é agente de grandes artistas e bandas como Kadavar e Blues Pills, em França. Ele pode ser o baixista da banda enquanto faz o seu trabalho ao mesmo tempo por isso vai para a cama tarde e acorda cedo.

 

O tipo de música que vocês fazem não é muito popular na França. Têm mais sucesso fora do vosso país, ou há uma cena musical underground que nós não conhecemos a crescer em França?

Mat: Sim, nós fazemos tour por toda a Europa, não podemos tocar apenas em França. França é um pouco diferente do resto da Europa, há uma cena alternativa boa, mas também uma “rede mainstream”. Nós participamos nas duas vertentes, não é problema. Por exemplo, em junho passado abrimos para os Détroit, uma grande banda francesa, no dia anterior estivemos a tocar num clube para cerca de 100 pessoas e depois fomos abrir o Hellfest em frente a uns milhares de pessoas. Alemanha, Polónia e Áustria são alguns dos países onde temos melhor audiência.

 

Qual é a vossa opinião acerca do boom de revivalismo psicadélico cada vez mais evidente no panorama musical atual?

Mat: A cada 6 meses podemos ver um novo “retro hype” a acontecer. Mal posso esperar pela chegada do hype do grunge dos anos 90. Se as contas não me falham, deve ser por volta do fim de 2015, ou talvez em 2016…
Achas que há alguém ou um tipo/Deus lá em cima que decide isso? Hey, Senhor Deus, se estás a ler isto podes por favor apagar toda esta pop merdosa dos anos 80 que tem voltado nos últimos anos e trazer-nos de volta algum do bom velho power pop dos anos 90?! Obrigado!

 

Quais são, para vocês, as grandes diferenças entre a música europeia e a norte-americana?

Mat: Hoje é muito difícil ver diferenças, as coisas estão muito fundidas, o que é bom. É sempre como um jogo de “ping-pong”. Apesar de tudo, acho que as bandas de metal europeias como Gojira, Behemoth ou SepticFlesh são fantásticas e trazem sempre algo de novo.

 

Em poucas palavras, como é a experiência Mars Red Sky ao vivo? O que podemos esperar de vocês no Reverence Festival?

Mat: É hipnótico, pesado, descontraído, melódico…

 

O que pensam do cartaz do Reverence?

Mat: É um grande cartaz, desde o garage até ao rock mais pesado, com um pouco de coisas prog e pop… estamos muito entusiasmados por tocar lá.

 

Que nomes não tão óbvios destacam deste cartaz?

Mat: Eu reparei que os Swervedriver fazem parte do cartaz, eu adoro esta banda, mal posso esperar para os ver.

Jimmy: Eu quero muito ver Graveyard e Electric Wizard.

 

Já fizeram tour com algumas bandas bem conhecidas. Quais são ou têm sido as vossas favoritas?

Mat: A mini tour que fizemos com os Détroit foi boa. Ótimas pessoas, grandes locais, a audiência estava extremamente envolvida pela nossa música.

Julien: Tivemos a honra de abrir duas vezes para Dinosaur Jr,, o que foi incrível. Já abrimos para Earth há uns anos. Temos tocado em muitos festivais e tivemos a oportunidade de ver Sleep, Electric Wizard, Behemoth

 

Quais são as vossas bandas preferidas neste momento?

Mat: Tigran Hamasyan, Lo Gryio, Behemoth, Septicflesh, Avishaï Cohen

Julien: Neutral Milk Hotel, Broadcast, Fleet Foxes, Electric Wizard, Anjo Gabriel (do Brasil), Guided By Voices

 

O que andam a fazer agora e que projetos têm para os próximos meses?

Mat: Fizemos uma pequena pausa de verão, aproveitamos para descansar um bocado e voltamos à estrada a 22 de Agosto. Agora temos pela frente uma grande tour europeia.

 

Que conselho dariam a alguém que está a pensar começar uma banda e/ou a dar os primeiros passos no mundo da música?

Mat: Invistam na compra de bons álbuns em vez de bons instrumentos. Escrevam boas canções, não cantem se não tiverem habilidade para isso e não se importem nada com o hype.

 

Querem mandar alguma mensagem aos vossos fãs em Portugal?

Mat: No ano passado tocamos em Moledo [SonicBlast Moledo] e foi muito bom. Espero vê-los a todos outra vez no Reverence. Muito obrigado pelo interesse e vemo-nos no pit.

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Por Ana Isabel Pereira / 1 Setembro, 2014

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