wav@wavmagazine.net | 2014 | PT
a
WAV

Paulo Furtado: “As coisas nunca me correram tão bem como correm neste momento”

IMG_9683

Paulo Furtado é um dos artistas portugueses mais bem sucedidos da última década, onde se destacou com os projetos Tédio Boys, Wraygunn e, principalmente, como The Legendary Tigerman. E é precisamente com o seu “one man band”, agora convertido em trio, que Paulo Furtado vai atuar na próxima semana no Vodafone Paredes de Coura. Estivemos à conversa com o artista natural de Coimbra, onde passamos pela sua génese no Blues, os tempos loucos dos Tédio Boys e, claro, sobre o mais recente disco, True.

 

Como começou o teu fascínio pelo Blues?

Numa primeira fase começou como começa para qualquer pessoa que gosta de música, acho eu. Durante para aí os primeiros 10 anos que eu comecei a ouvir Blues, quando tinha para aí 15 anos, nunca pensei em tocar Blues sequer, só ouvia, e era mais como pessoa que tira prazer do facto de ouvir um género de música entre uma série deles. Depois as coisas começaram a mudar um bocadinho, por volta de 97, quando foi a primeira tourné de Tedio Boys na América e tocámos com uma série de bandas que pegavam na influência do Blues e misturavam com rock, conheci uma série de bandas e pessoas que me começaram a falar das afinações abertas em Blues que permitem tocar com slide. Comprei os primeiros slides no Mississipi, conheci uma série de gente que me foi ensinando alguns truques e a tocar. Comecei a tocar por brincadeira e depois de repente a coisa começou a entranhar-se. Esta mistura de Rock n’ Roll e Blues tornou-se numa das coisas fundamentais para mim, das coisas que queria fazer, desenvolver e trazer para a minha realidade.

 

Em que momento percebeste que querias viver da música e fazer dela vida?

Desde o início com os Tédio Boys que de certa forma a minha postura, e acho que nesse momento a postura deles todos também, era muito o tentarmos fazer as coisas o melhor possível, e que obviamente se um dia fosse possível de vivermos da música, tanto melhor. Mas mais uma vez, nos 10 primeiros anos, também nunca achei que isso fosse possível. Era uma altura em que os concertos eram praticamente todos organizados por nós, não havia propriamente uma grande cultura de rock em Portugal, e se calhar também ainda não há, apesar de já existirem mais coisas, mas naquela altura ainda existia muito menos. E por isso esta ideia de fazer a música para o mundo e não só para Portugal e tentar chegar ao maior número de pessoas possível.

 

Nesse aspeto, és um artista que tem grande expressão no estrangeiro, mas talvez especialmente em França…

Isso é se calhar uma ideia um bocadinho errada que as pessoas têm. Eu nunca toquei em nenhum sítio do tamanho do Coliseu em França, e em Portugal se quiser fazer um Coliseu consigo. Não acho que a minha carreira em Portugal seja menosprezada. As bandas “indie” internacionais na maior parte das vezes também não tocam para mais de 300 ou 400 pessoas, às vezes temos uma ideia um bocado deslocada em Portugal do que é que é ser músico ou ter uma carreira internacional como músico. Acontece em países em que nunca toquei muito, onde estou a tocar as primeiras vezes, tocar em sítios do tamanho deste [Maus Hábitos, Porto]. Estou neste momento a fazer espaços mais pequenos porque há um apoio da Jameson e uma parceria que permite isso, mas acho que de certa forma as coisas para mim acabam por correr o melhor que podem correr em Portugal. Porque também não é uma coisa que do ponto de vista comercial possa chegar a tanta gente.

 

Achas que a sensibilidade do público Português para música portuguesa tem aumentado ao longo destes anos?

Acho que sim. Não só está melhor a disponibilidade do público, como acho que está melhor a produção musical dos artistas portugueses. Acho que neste momento existem muito mais projetos interessantes do que existiam há 15 ou 20 anos. Há 20 anos atrás reconhecias uma banda portuguesa que não cantasse em Português pela má qualidade da gravação e hoje em dia isso mudou radicalmente. Há dezenas de projetos incríveis por todo o país. A situação também está difícil por causa da conjuntura financeira e política do país, as pessoas acabam por não poderem ver tantas coisas, e acho que isso prejudica também as bandas. Apesar de haver uma grande explosão, se não fosse a crise que estamos a passar, acho que ainda existiriam mais projetos interessantes.

 

Disseste recentemente que só há pouco tempo começaste a conseguir viver exclusivamente da música. Como é que foi para ti viver da música nestes anos mais recentes de crise económica e como achas que as bandas podem sobreviver em tempos destes?

Para mim é muito simples porque eu sempre vivi em “plano B”, em “do it yourself” e em crise, porque as coisas que eu faço e sempre fiz nunca foram coisas de massas. Acho que as coisas nunca me correram tão bem como correm neste momento. Acho que cada vez mais a preocupação é trabalhar o melhor possível e por o coração em todo o trabalho que se faz. Cada disco, cada coisa que eu faço, é como um recomeçar de novo, nunca dou nada como certo. Estávamos a falar dos Coliseus, por ter feito um Coliseu uma vez não quer dizer que daqui a dois anos o possa voltar a fazer, é preciso trabalhar muito para que se calhar daqui a 2 anos o poder voltar a fazer. Ou uma sala mais pequena, não interessa. Acho que o fundamental é seguir sempre aquilo que se gosta, lutar para que isso chegue ao máximo possível de pessoas e se se tiver sorte, eventualmente, poderá viver-se um bocado da música. Nunca se sabe se as pessoas vão gostar ou não, se estão para te ouvir ou se estão num momento em que ninguém está para te ouvir, o que acontece muitas vezes na vida aos músicos.

 

Para além dos teus projetos, Lengendary Tigerman, Wraygunn, Tédio Boys, etc, costumas compor também para filmes. O que tens feito ao longo da carreira nesse segmento?

Fundamentalmente tenho feito a banda sonora dos filmes do Rodrigo Areia, em parceria com a Rita Red Shoes. Também já fiz do Paulo Abreu. Recentemente fizemos também a banda sonora de um filme de animação que felizmente tem ganho uma série de prémios, o “Fuligem”. Também tenho feito muita coisa para teatro, este ano vou ter mais uma colaboração que estreia em dezembro no TEP. E estou também a fazer agora um musical que vai estrear em setembro, em Lisboa no São Luís. Tem sido cada vez mais uma coisa que me interessa, esta ideia de fazer algo que não é apenas música em si, é música ao serviço de uma outra coisa, quer seja teatro ou cinema. Eu acho que gosto mais de trabalhar em teatro porque a minha capacidade de influenciar o que se passa em palco com a minha música, e a troca que existe entre representação, encenação e composição, acaba por ser mais relevante que no cinema. É uma coisa que me interessa cada vez mais fazer.

 

Pegando nesse teu gosto por cinema, e divergindo um bocadinho, o que gostas e o que aconselhavas a ver?

Há um realizador que eu gosto muito e que vou sempre ver os filmes dele, o Jim Jarmusch. A história da música passa também um bocadinho pela carreira dele. O último filme dele, o “Only Lovers Left Alive”, acaba por ser uma história de amor com música sempre como pano de fundo. Acho que é um realizador que tem muito a ver com Rock n’ Roll e com muitas outras referências que eu tenho.

 

Voltando então à tua carreira, dizias há pouco que cada disco que fazes é uma história diferente. O que é que nos conta o True?

Eu no Femina tive muito talento emprestado, por assim dizer, uma adaptação que fiz ao meu universo. Quando compus para a Peaches ou para Rita Red Shoes, fiz de maneiras completamente diferentes. Não do ponto de vista de perverter o que queria fazer, mas ir de encontro ao universo dessas pessoas. De certa forma também tinha vindo de gravar o álbum com os Wraygunn, que mais uma vez é um trabalho de grupo com uma série de pessoas diferentes, e estava num momento em que não sabia exatamente o que é que eu queria fazer, então isolei-me um bocado a procurar o que é que eu queria dizer e qual era a “verdade” intrínseca que eu tinha para dar às pessoas. Daí o título do álbum e de ter sido se calhar o álbum em que me isolei mais do mundo. Estive para aí 3 ou 4 meses isolado a compor para este disco.

 

E neste disco introduziste coisas novas que ao vivo se traduzem em mais elementos em palco, agora não é só o teu “one man band show”. O que é que este formato traz de novo à tua música e mesmo aos teus espetáculos ao vivo?

Isso acabou por acontecer um bocadinho por acidente, com uma série de coisas que se passaram na minha vida. Eu gosto desse lado menos programado das coisas. Eu na altura já tinha fechado o disco sem os convidados, de repente houve um adiamento na data de lançamento, tive algum tempo livre para olhar para o disco com mais distanciamento e senti que algumas canções não tinham chegado ao potencial que poderiam chegar. Daí ter pedido ao João Cabrita, que agora está a tocar saxofone comigo, à Rita Red Shoes e ao Filipe Melo para fazerem arranjos de sopros e de cordas para o disco. De certa forma depois isso veio influenciar-me porque este disco tinha sido inteiramente composto no formato “one man band” e gravado ao vivo em estúdio, e veio funcionar um bocado como um contra peso. E de certa forma acho que neste disco levei um bocadinho ao limite o que eu poderia fazer como “one man band”, então o próximo disco já não será composto nesse formato mas em trio, com o Paulo Segadães na bateria e com o João Cabrita no saxofone. Por uma questão de não ficar escravo de um formato, de não pensar que não tenho mais nada a provar como formato “one man band”. Depois de 15 anos e depois de ter feito 5 discos, sinto necessidade de compor noutros formatos, e então o próximo disco será em trio.

 

Vais atuar em Paredes de Coura num registo um pouco diferente do que estás agora nestes concertos Jameson Urban Soul em salas pequenas. O que é que podemos esperar ao vivo deste concerto?

Este vai ser em quarteto e vai ser um concerto de Rock n’ Roll puro. Para além do Paulo Segadães e do João Cabrita, vai também estar nas teclas o Filipe Costa, que também gravou comigo recentemente.

 

Já atuaste em Paredes de Coura antes com outros projetos como os Wraygunn. O que é que recordas do festival?

É um festival e um sítio incrível. Uma vez, creio que por uma divergência entre os dEUS e os Mars Volta por causa de horários, de quem fecha ou não, os Wraygunn acabaram por fechar a noite em Paredes de Coura assim um bocado por engano. Então lembro-me de subir ao palco e aquele anfiteatro natural, de certa forma, parece que se tem um arranha-céus de pessoas à frente. Isso é uma imagem muito bonita que ainda hoje me lembro e tenho muitas recordações diferentes, quer como músico, quer como público de Paredes de Coura. Isso ajuda a haver o tal misticismo e é um sítio mesmo incrível.

 

Em 2012 vimos em Paredes de Coura o regresso dos Ornatos Violeta, este ano vamos ver o regresso dos X-Wife. Podemos sonhar com um concerto dos Tédio Boys um dia destes lá?

Não, comigo não. Tenho imenso orgulho dessa parte da minha vida, foi uma banda e um sítio onde aprendi muitas das coisas que para mim ainda são verdade e úteis neste momento, só que não tenho nenhum saudosismo em relação ao passado. Se nos separámos foi porque artisticamente tínhamos ideias diferentes e para mim não há nenhuma razão a não ser financeira para voltar ao passado. E vou ser híper honesto, fazer o regresso de uma banda por razões financeiras, mais depressa iria trabalhar para um supermercado (risos), com toda a dignidade que esse trabalho tem.

 

Falavas que na altura fizeste tour nos Estados Unidos com os Tédio Boys, que é uma coisa que uma banda portuguesa não consegue com facilidade. Como é que recordas esses tempos?

Foram tempos incríveis. O que seu aprendeu nessas três tournées, sobre o que é ser músico, e se perguntares a qualquer um deles também te irão responder a mesma coisa, se fizeres uma tournée de três meses nos Estados Unidos como nós fizemos, e continuares a ter vontade de ser músico, então é porque definitivamente para ti há alguma coisa de muito interessante na música. Acho que o que aprendi nessas tournées foi muito fundamental para hoje em dia fazer o que faço e foi uma coisa que naquele momento mudou muito a minha vida. Perceber que cinco putos de Coimbra, Portugal, de repente podem conhecer o Joey Ramone e ir tocar ao aniversário dele, de repente ires à outra costa e veres outros músicos conhecidos em concertos… Isso por um lado é tudo, mas por outro lado não conseguiste ainda nada. Toda essa volatilidade resume todas as angústias e alegrias que se pode ter como músico.

 

Como é que vês o estado atual do Blues a nível mundial?

Houve um período ali há 10 anos em que muitas coisas diferentes estavam a voltar a pegar no Blues. Até mesmo no Mississipi, com a Fat Possum, houve uma série de projetos e uma série de velhinhos do Blues que tentaram de certa forma deixar-se influenciar pelo Punk e por muitas outras coisas, refazendo um bocado os Blues. Acho que neste momento a coisa voltou a estagnar um bocadinho, há menos projetos interessantes a fazer algo de realmente inovador. É daquelas coisas mais ou menos cíclicas, agora de repente está toda a gente a ouvir música psicadélica e o psicadelismo é que é a cena, mas isto vai dar tudo a volta outra vez. Acho que é importante que tu sigas o teu caminho e que não se ande atrás dos movimentos e das coisas que vão mudando. Os Blues vão existir sempre e vai existir sempre gente que está a senti-los e faze-los. Isso nunca irá acabar.

 

Para acabar, a nossa pergunta da praxe, o que andas a ouvir de música nova?

Dizendo algumas bandas portuguesas, os Best Youth. E os Keep Razors Sharp, que neste momento acho que são uma das bandas mais porreiras em Portugal, quer em disco quer ao vivo. Por isso se tiveram a oportunidade de os ver, não percam.

 

IMG_9689

 

Fotografia por Mariana Vasconcelos
Share Button

Comentarios

comentarios

Por Bruno Pereira / 15 Agosto, 2015

Deixar um comentário

About the author /


~