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Vagos Open Air 2015 – Dia 3 [9Ago2015] Texto + fotos

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O terceiro e último dia do festival começa cedo com os Midnight Priest a debitarem o seu Heavy Metal para a pouca plateia presente. A música é heavy metal clássico acompanhada por letras tão clichés quanto possível. Não sabemos se o fazem propositadamente ou não, mas a verdade é que as letras típicas do género (Triunfo do aço!!!) juntamente com a atitude bastante extrovertida da banda em palco até acabou por dar um toque engraçado à atuação. Isso juntamente com os quatro fãs endiabrados que desataram a fazer um moshpit decompensado e iniciaram as honras do crowdsurf, deixou-nos presos ao seu concerto e no final chegámos mesmo a ir à banca do merchandise para saber se poderíamos comprar um qualquer registo discográfico da banda de Coimbra que, porém, não havia trazido nada. Das suas canções destacamos “Rainha Da Magia Negra” e “À Boleia Com O Diabo”. Claramente, as músicas cantadas em português são as que exaltaram mais o público e aquelas que mais apreciámos.

Seguiram-se os Ne Obliviscaris que potenciaram um excelente concerto apesar da direta em cima e do som se ter revelado, novamente, um autêntico fiasco. Apesar do aparente desconhecimento da banda, as não-muitas pessoas que se situavam na zona da plateia (este foi, a nosso ver, o dia com menos público) receberam-na com mente aberta e desde cedo se renderam às maravilhas instrumentais dos australianos.

São raros os casos em que vemos um vocalista que também é violinista e ainda mais raro é o facto da banda em questão não ser de teor mais folclórico. A sonoridade dos Ne Obliviscaris é demasiado particular para a podermos definir certeiramente, fiquemos pelo rótulo simples de Metal progressivo extremo. As diversas influências dentro e fora do universo da música mais pesada eram notórias e talvez tenha sido essa “diferença” que tanto cativou o público presente no VOA neste dia. Tão bem que nos soube aqueles solos de violino a meio das canções.

Não houve mosh e apesar do alinhamento curto, em termos de músicas (cinco), já que em tempo a maioria delas excede os 10 minutos, os australianos convenceram e no final era ver o merchandise da banda a “voar”: esgotaram tudo. Estes rapazes foram a grande surpresa do festival tanto para nós como para a generalidade das pessoas presentes.

Em substituição dos Halestorm coube aos Alestorm (a piada do nome das bandas já foi feita pela segunda) tapar o espaço em branco. Este é um daqueles estranhos casos em que a banda substituta é ainda melhor escolhida do que a previamente estabelecida. Com um enorme banner no palco onde podíamos observar uns patos saídos da casca de duas bananas (?) e um público preparadíssimo para o saque, onde avistámos espadas em cartolina e borracha, um fato de abelha e uma galinha de borracha, os escoceses estavam de passagem pelos “mares do sul” e contavam com bastantes aliados.

O mosh (mais dançado) e o crowdsurf foram o prato do dia e autênticos hinos como “Keelhauled” ou “Shipwrecked” foram entoados em plenos pulmões. De realçar que este foi o concerto com mais público deste último dia. Os piratas tomaram a Quinta do Ega de assalto, pilhando o mais que conseguiram antes de abandonarem a costa e seguirem viagem rumo a outro destino desconhecido. Na madrugada de segunda-feira lemos a Ilha do Tesouro em honra destes Alestorm que poderiam ter sido muito bem extraídos da obra de Robert Louis Stevenson.

Com menos de metade do público presente no concerto anterior, os Orphaned Land revelam-se como uma aposta interessante por parte da organização. O clima de Folk não saiu de cena tendo sido apenas reforçado por ambientes mais progressivos: os israelitas trouxeram os tempos musicais, alguns instrumentos e trajes típicos da música mais oriental e mesclaram-nos com o dito metal progressivo, criando assim umas planícies sonoras bastante sedutoras. Apesar do menor número de público, fez-se a festa na mesma e os que por lá ficaram trataram de preencher a vaga deixada pelos ausentes. “Norra El Norra”, “Olat Hatamid” e “Sapari” foram entoadas como se todos entendêssemos hebraico, tendo “Ornaments Of Gold”, vinda de 1994, encerrado a atuação. Uma aposta ganha, sem dúvida.

Repetentes do festival (2012) e com uma passagem por Portugal no ano anterior, os Overkill regressam ao nosso país sem comprometer. Apesar das suas frequentes visitas, os fãs acabam sempre por aparecer e encher a plateia com muita agitação à mistura. Aqui não foi exceção. Bobby Elsworth já não é novo (as saídas de palco foram evidentes) mas consegue interagir com a plateia como nenhuma outra banda de thrash o faz (ou que, pelo menos, nunca vimos fazer), acabando os Overkill por só lucrarem com isso.
A música é thrash puro: daquele que começou nos anos 80 e ficou nos anos 80. Riffs repetitivos e batidas rápidas a incitar ao mosh e para ajudar a formação de circle pits. E é na recetividade de Bobby ao público nacional e as suas frequentes provocações que reside a locomotiva. Não que a sua música seja má, apesar de gasta ainda consegue mexer muitas plateias e arrastar multidões, mas a tal música, de tão gasta que está, necessita de algo mais para cativar o público desconhecedor. Bobby soube fazê-lo como ninguém, acabando por agarrar quase na totalidade as pessoas que ali se encontravam desde início. Foram poucas as que vimos arredar pé.

Potenciando um alinhamento muito variado, dos mais variados do festival até, foi nas músicas mais antigas (“Rotten To The Core”, “Overkill”, “Hello From The Gutter”) que o público se soltou mais, como se esperava.

No encore, uma recente (“Bitter Pill”), uma antiga (“Elimination”) e um cover (“Fuck You” dos Subhumans) antecedido por mais uma provocação (“estamos em Portugal ou em Espanha?”), terminou o que, para nós, se revelou como um concerto bastante interessante. É verdade que não surpreendeu ninguém mas também não desiludiu, e é essa regularidade que torna bandas com mais de 30 anos de carreira naquilo que são hoje.

Chegava o momento mais aguardado do dia. A superbanda sueca (agora também britânica com a inclusão de Nick Holmes dos Paradise Lost) que integra membros dos Katatonia, Opeth e já integrou também Peter Tägtgren (Hypocrisy), estreia-se finalmente em solos nacionais na sua pior fase discográfica até então. Não que Nick Holmes não seja bom vocalista, a sua guturalidade nos primeiros discos dos Paradise Lost encaixa bastante bem com a sonoridade da banda inglesa de então, mas a verdade é que é impossível comparar a brutalidade gutural de Mikael Akerfeldt e Peter Tägtgren com os pouco profundos guturais de Nick.

A verdade é que o instrumental está lá, só se altera a voz, e se em “Grand Morbid Funeral” foi difícil de digerir as alterações vocais, em Vagos Nick atuou e convenceu como se tivesse sido ele o sempre o vocalista original da banda. Os longos anos à frente dos Paradise Lost deram-lhe o estofo necessário para encarar este papel com naturalidade e cumprir com o esperado de um concerto de Bloodbath onde até as malfadadas malhas do último disco coexistiram bem com os clássicos. “Anne” entre “Breeding Death” e “Cancer Of The Soul” não representou nenhum tipo de quebra. Os suecos apresentaram, também, um alinhamento bastante diverso, não se focando muito no seu mais recente trabalho distribuindo bem as boas canções dos seus quatro discos ao longo do concerto.

O headbang imperou nesta atuação e em “Mock The Cross” era olharmos 360º à nossa volta para constatarmos isso mesmo. “Eaten” e “Cry My Name” encerraram um dos melhores concertos desta edição do festival. Apesar da ambiguidade de críticas que escutámos no final da atuação, não encontrámos nada a apontar a estes Bloodbath renovados mas sempre fiéis às raízes. Até o som deu tréguas e apresentou-se sem falhas. Queríamos mais que a tradicional hora e meia mas terá que ficar para a próxima, em nome próprio de preferência.

A fechar em definitivo o Vagos Open Air deste ano surgem os Ironsword, uma banda portuguesa com mais de 20 anos, que veio apresentar o seu metal épico pouco estimulante e criativo. Músicas sobre dragões, anéis de fogo e a palavra “metal” dita mais do que 5 vezes em cada refrão foram o prato do dia. Os lisboetas não conseguiram pegar no público que permaneceu no recinto com certa curiosidade para o que aí vinha, dando-se a debandada geral por volta da quarta música. Ficou provado que Manowar a seguir a Bloodbath não resulta bem.

Mais um ano e mais um fim-de-semana bem passado em Vagos que cada vez mais se revela como um festival em clara expansão. Não que tenhamos muito com o que comparar, mas a edição deste ano não deveu nada à anterior. Em termos de concertos, este ano foi bem mais homogéneo do que o ano anterior. Apesar dos nomes de 2014 serem bem mais chamativos, as bandas ditas de abertura revelaram-se boas, sim, mas não surpreenderam, contrariamente ao ocorrido este ano, onde até as portuguesas “deram o litro”.

O primeiro fim-de-semana de agosto cada vez ganha mais significado.

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Por Diogo Alexandre / 9 Setembro, 2015

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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