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A paisagem sónica que o Reverence leva a Valada

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Um ano depois da primeira viagem espacial com partida de Valada, descolámos das mesmas coordenadas, apesar de em datas diferentes e com mais viajantes no panorama. O cenário era o mesmo, o ambiente também, e ainda apanhamos a lua gigante, como se da Terra tivesse mesmo descolado. Este ano, a tour espacial teve como destino Sleep, Amon Dull II, The Horrors, entre tantos outros, e no caminho, ainda meio desorientados pela nova atmosfera, damos logo de caras com um pequeno astro musical, os Galgo. Passam de rompante como se fossem uma estrela cadente, num primeiro dia mais pequeno que ainda contou com excelentes surpresas e atuações, caso de Jeff the Brotherhood ou The Vickers mas foi só no dia seguinte que começariam a chegar os verdadeiros tr(i)unfos do festival.

Nos concertos da tarde, somos imediatamente surpreendidos pelos The Dead Mantra, que apareceram por entre composições sonoras raivosas e indefinidas, mas de uma harmonia desconcertante. Os franceses declararam que esta era a primeira vez que vinham ao nosso país e também a primeira em que saíam de França para tocar. Apesar do pouco público presente àquela hora no Palco Rio, aquele que lá estava encarou a banda com seriedade, chegando mesmo alguns a levantarem-se e a deslocarem-se para mais próximo do palco. “Nemure” esteve obviamente em destaque mas escolhemos “Soulless” para melhor faixa do concerto e da curta carreira dos franceses. Shoegaze à tarde só no Reverence.

Depois desta passagem obscura e etéria dá-se a primeira enchente do festival, eram os Stoned Jesus que vinham aí. Por incrível que pareça, esta era, tal como acontecera com a banda anterior, a primeira vez que tocavam no nosso país e o mais longe que atuavam da sua terra-natal, a Ucrânia.

Sendo muitas vezes acusados de criarem um stoner tanto ou quanto banal, é ao vivo que o trio se liberta de todas as amarras de estúdio e mostra como é que se faz stoner rock bem feito, “sem merdas”. O stoner é aquilo: nada há mais que acrescentar… ou melhor, há. Acrescentaram-lhe uma intro da “Invaders Must Die” (dos Prodigy) antes de “Indian” e, já no fim, um cover dos At The Drive-In que dedicaram a um fã que vibrou durante o soundcheck e que permaneceu por lá o concerto inteiro. Os mais de 10 minutos de “I’m The Mountain” (entoada por muitos dos presentes) transportaram-nos para outro universo, indubitavelmente transcendental. “Here Come The Robots” encerrou este que foi o primeiro grande concerto do festival.

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Stoned Jesus @ Reverence Valada. Galeria completa

Ainda nos concertos dar tarde, mas já no segundo dia, os Spectres trouxeram o seu pós-punk/shoegaze às margens do palco Rio, perante um público bastante reduzido e apático. No entanto, os ingleses de Bristol não se deram por vencidos e proporcionaram um belo concerto com uma interação acima do normal. Sendo esta, também, a sua estreia no nosso país e com um disco editado no início deste ano, o alinhamento girou, como é óbvio, muito em torno de Dying, esse mesmo disco que, diga-se de passagem, está muito bem conseguido. “Where Flies Sleep” foi, estranhamente, logo a primeira a ser tocada, abrindo espaço a uma melhor exploração do restante álbum.

Os períodos de wall of sound foram frequentes e “Sea Of Trees”, na plenitude dos seus 9 minutos, foi um dos momentos altos da atuação. “Lump” fechou o caos que por ali passava e no final da canção pudemos observar que o público tinha aumentado em número e aqueles que lá estavam desde o início permaneciam de pé e bem à frente do palco. No final, a banda distribuiu baquetas, assinou discos, falou com os fãs e continuou no festival a apreciar as restantes bandas. Nada de vedetices, portanto. Concerto ganho para os Spectres.

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Spectres @ Reverence Valada. Galeria completa

A segunda grande enchente do Palco Rio dá-se com a entrada em cena dos Samsara Blues Experiment que obtiveram, sensivelmente o mesmo número e tipo de público que os Stoned Jesus tinham alcançado no dia anterior. O quarteto que agora é trio antecipou a sua atuação em 10 minutos e enfeitiçou todas as almas que deambulavam livremente pelo recinto do festival. O baixo potentíssimo de Hans Eiselt preenchia eximiamente o espaço vazio deixado por Christian e Thomas.

Quão bem nos soube ver estes Samsara com o quase pôr-do-sol do lado direito do palco. Ouvir “Double Freedom” com o sol de verão a bater-nos em cheio na cara e a iluminar-nos o mundo é um prazer que, muito possivelmente, nunca vamos repetir. Verdadeira magia!

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_MG_2417_DONE Samsara Blues Experiment @ Reverence Valada. Galeria completa

Antes de nos iniciarmos nas lides do Palco Reverence ainda havia tempo para ir ao Praia dar uma espreitadela à melhor banda de garage rock portuguesa da atualidade (perdoem-nos o hype mas isto é mesmo assim). Os The Jack Shits sabem como dar bons concertos, utilizando da melhor maneira os 3/4 acordes agressivos típicos do género. Incendiaram em absoluto o palco BRR (desculpem, Praia) potenciando um dos melhores concertos do festival naquele mesmo palco.

A energia dos três Jacks é muito bem controlada (ou não) e em “Let’s Go”, o vocalista Jack Legs (Diogo Augusto) lança-se num crowdsurf impecável que resultou com a saída do curto jack da guitarra e do amplificador. Neste caso, o jack era mesmo uma shit. Crowdsurf sólido mas guitarrada falhada, Legs atira-se para a coluna de sol do lado direito do palco e trepa sensivelmente até meio, observando as figurinhas do público cá em baixo e soltando mais uns quantos acordes endiabrados.

Infelizmente, este foi o último concerto da banda, antes do vocalista rumar ao Belize e passar lá uma temporada. É pena, queríamos um sucessor de Chicken Scratch Boogie e continuar a moshar e gritar ao som de “I Wanna Make You My Baby” e “Gloria”.

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IMG_3858 The Jack Shits @ Reverence Valada. Galeria completa

Falar de concertos no Palco Reverence e não mencionar imediatamente os Sleep seria sacrilégio mas já lá vamos. Logo no primeiro dia e na abertura do tal palco, somos esmagados pelo peso avassalador dos Process Of Guilt, que apesar de serem portugueses, não dão assim tantos concertos como o desejado. Com o recinto ainda bastante espaçoso, os eborenses soltaram o seu death doom (que gritava mais por uma noite tétrica em vez do pôr-do-sol paradisíaco) que caía como blocos de cimento em cima de nós. Cada ida aos pratos, cada nota presa, cada grito, representa um afundamento progressivo da alma, da nossa vida. “Empire” e “Fæmin” devastam todos os presentes com uma facilidade que julgávamos impossível e nem o mosh que se iniciava resistiu a tamanha força da natureza.

Atualmente, os Process Of Guilt são das melhores bandas em Portugal dentro do género, e quem sabe, até uma das melhores do mundo. Esta atuação provou-o. Sabemos que estão em gravações de álbum novo (depois de um split muito bem conseguido com os Rorcal), nem queremos imaginar o apocalipse que aí virá. Os portões do inferno abriram-se e permaneceram assim durante o resto da noite.

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Process of Guilt @ Reverence Valada. Galeria completa

Os próximos a sair de lá seriam os Bizarra Locomotiva, trazendo consigo Mortuário, recém-editado (fevereiro não foi assim há tanto tempo), e foi com “Na Febre de Ícaro” que abriram as hostilidades (já) noturnas, por esta altura. “Egodescentralizado” foi logo a segunda faixa a ser tocada, o mosh pit explodiu e permaneceu durante algum tempo. Pelo meio vemos Rui Sidónio a dirigir-se para a plateia, empoleirando-se nas grades e partilhando o microfone com os fãs. Em “Na Ferida Um Verme” (mais uma de Mortuário) e na sua segunda incursão às grades fronteiriças da plateia, é mesmo o próprio que, indiretamente, inicia o mosh pit.

O mensageiro da morte sobe ao palco ostentando uma “bíblia” aquando de “Sudário de Escamas”. A mensagem foi passada. Os Bizarra chegaram, viram e venceram, e nem o alinhamento muito centrado no último disco fez com que a energia se perdesse. O público demonstrou saber os novos temas na ponta da língua mas confessamos sentir falta dos velhos clássicos tais como “Apêndices”, “Cavalo Alado” e “A Procissão dos Édipos”. Terá de ficar para outra oportunidade.

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Bizarra Locomotiva @ Reverence Valada. Galeria completa

Os portões estavam abertos e nem as falhas sistemáticas do sistema de som e a monotonia das luzes conseguiram interromper a viagem traçada pelo demónio sobre o cavalo de quatro cabeças.

Só quando Al Cisneros pega no seu Rickenbacker para tocar “Dopesmoker” é que ouvimos a explosão do baixo nos nossos tímpanos. O planeta Terra estremeceu nesse instante e até hoje ainda ecoa o riff principal da música nos nossos cérebros.

Os Sleep mostraram ser pessoas de poucas palavras mas e o que é que isso interessa? A música tão boa ou tão potente abafou tudo ao seu redor. Satanás desceu à terra, espalhou o caos e a destruição, viu o anticristo e jantou com o falso profeta, regressando ao submundo, uma vez mais, após o trio terminar “Improved Morris” (a última secção de Dopesmoker) e sair sob os aplausos calorosos dos fãs naquele que foi o concerto com mais público de todo o festival.

Uma hora e quarenta minutos de Stoner Doom tocada de seguida que quase nos fez esquecer do, também, excelente concerto que Jon Spencer tinha dado momentos antes.

Sem alinhamento definido, Jon Spencer chegou de avião ao Reverence e saiu de foguetão. Teceu uma atuação mega enérgica, sem pausas, onde o seu último disco Freedom Tower – No Wave Party 2015 teve o merecido destaque, sendo anunciado algumas vezes durante a atuação, não tantas como o nome da sua banda que irrompia recorrentemente a cada troca de música. Os Blues Explosion são autênticas máquinas: o cansaço não os afeta, não falham uma passagem, e se as falham ninguém nota.“There’s never ever setlist in a Jon Spencer show”. Acreditamos e percebemos porquê. É a liberdade levada ao limite, a decomposição do que já foi composto, o improviso. Muitos dos solos que ouvimos não faziam sequer parte das músicas.

Uma hora seguida de blues rock apunkalhado, o suficiente para aquecer todos os que por ali permaneceram. Só nos resta dizer: “Bluuees Explooosion!”.

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_MG_1713_DONE Sleep @ Reverence Valada. Galeria completa

Na noite seguinte foram os Amon Duul II os reis e senhores de tudo, potenciando talvez o melhor concerto do festival, seguidos por uns Horrors na sua melhor forma.

A abrir “Apocalyptic Bore”, a fechar “Surrounded By The Star”. Não se poderia pedir mais aos Amon Duul II nesta que foi, inacreditavelmente, a sua estreia no nosso país, 46 anos depois do seu primeiro registo de estúdio, à semelhança com o que aconteceu com os Hawkwind na edição anterior. A única diferença foi que os alemães se apresentaram bastante mais vivos. Houve “Deutch Nepal”, houve “All The Years Round” e houve “Soap Shop Rock” com Renate Knaup ora a cantar ora de pandeireta na mão a circular pelo palco, enquanto os seus colegas teciam instrumentais incríveis e progressivos (é mesmo o melhor adjetivo), com o violino a aparecer nos momentos chave e bem audível! Sem dúvida um dos momentos altos da atuação e um dos momentos altos de todo o festival.

Depois de uma atuação tão mágica e carismática, Renate Knaup veio falar com os fãs à plateia logo após o concerto terminar.
Mais um momento indescritível que só um festival como este é capaz de proporcionar.

Com o álbum mais fraco da sua carreira não esperávamos por uns Horrors tão bem oleados como estes que nos apareceram à frente. Faris e companhia mostram que evoluíram não só tecnicamente como também a sua presença em palco tem vindo a melhorar. Apesar de Luminous ser um verdadeiro “corta-tusa” perante o resto da discografia dos britânicos, este concerto não pecou nada pela música tocada, talvez pela banda saber bem com o que conta e o que tem em mãos. De Luminous só saíram “In And Out Of Sight”, que resultou bastante bem por entre “Who Can Say” e “Sea Within A Sea”, e “I See You” que fechou o Palco Reverence de forma algo peculiar, mas bem metida após um dos seus maiores singles “Still Life”. Sentimos saudades dos tempos em que “Moving Further Away” deixava toda a gente vidrada no que acontecia em palco e encerrava o set de vez, porém esses tempos já passaram. O que há agora são uns Horrors mais homens e menos adolescentes, a fazerem música suave mas a repescarem as suas boas malhas. “Mirror’s Image” (que abriu o concerto) e “Scarlet Fields”, entre as outras já referidas, não foram esquecidas, e ainda bem.

Joshua e Faris (guitarrista e vocalista) sempre muito enérgicos saltam e esperneiam por entre os strobes enquanto Rhys mantém a sua postura típica, olhar indefinido enquanto agita calmamente o seu baixo. São os Horrors do costume, tocando as músicas do costume, com a única particularidade de não ter havido qualquer falha na atuação. A melhor atuação do quinteto inglês em terras lusas, muito certamente.

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The Horrors @ Reverence Valada. Galeria completa

Nas bandas da madrugada, decidimos destacar as fabulosas surpresas que foram os Electric Eye e os Dead Ghosts, dois géneros diferentes que coincidiram no mesmo festival.

Os primeiros, detentores de um pop psicadélico progressivo com fortes influências orientais e frequente uso do sintetizador, dando aquela ambientalidade que se quer a estas horas. Com apenas um disco lançado e uma hora reservada para a sua atuação, não tinham muito por onde ir, então trataram de tocar Pick-up, Lift-off, Space, Time na íntegra, trocando apenas a ordem dos temas, sempre com duração superior a 6 minutos. “Tangerine”, o seu single maior, encerrou esta atuação bastante interessante de uma banda norueguesa desconhecida pela maioria.

No segundo dia, Os Dead Ghosts trouxeram o seu garage rock do deserto às margens do rio Tejo e com eles vieram uma dezena de fãs invasores. Editados pela label com mais hype da atualidade, Burger Records, os canadianos forneceram ao público, ainda bem vivo, um dos grandes concertos da madrugada com direito a invasão de palco e tudo. Invasão essa que os músicos encararam de forma tranquila, chegando inclusivé a insultar os seguranças que expulsariam aquela dezena de pessoas que pelo palco andava, saltava e cantava. Um verdadeiro oásis no deserto que culminou com a interpretação de “When It Comes To You”. Não houve encore mas houve satisfação estampada na cara dos presentes, e é isso que importa.

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Dead Ghosts @ Reverence Valada. Galeria completa

Ainda no primeiro dia, pouco depois dos Electric Eye terem feito ecoar o som da cítara na madrugada do Palco Rio, os Saturnia procuram fazer o mesmo, desta feita com música ainda mais ambiental e acolhedora. Não foram muitos os que ficaram no recinto até tão tarde apesar do concerto ter começado ligeiramente mais cedo. Os que por lá permaneceram, permaneceram sentados na relva, maioritariamente, de olhos fechados, tentando absorver todo o poder espiritual e apaziguador de músicas como “Still Life”, “The Twilight Bong” (a cítara a marcar presença) ou “Cosmonication” (que encerrou o concerto). Acima de tudo, este concerto foi uma viagem por caminhos desconhecidos tendo sempre as cordas de Luís Simões e a “eletrónica” de Tiago Marques como guia. E confirma-se o que supuséramos: “Onde é que eles andaram estes anos todos?”.

Convém destacar também a magnífica jam entre estes Saturnia e Astroflex, pouco tempo depois dos primeiros terem terminado o seu set. Uma hora de excelente música ambiental, para nos deixarmos levar pelas ondas sonoras enquanto estamos deitados na relva de Valada.

O melhor, sem dúvida, para acabar o dia em grande. No dia seguinte foi Acid Acid a encerrar de forma idêntica o dia e o festival.

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_MG_2157_DONE Sunrise Jam with Saturnia & Astroflex. Galeria completa

Mais um Reverence que passou, desta vez com bem mais pessoas no campismo e bem menos no recinto, com menos bandas mas mais tempo para cada uma, sem atrasos significativos entre palcos e sempre com o bom ambiente do costume. Desta vez até houve comida vegetariana. Os únicos problemas a apontar continuam a ser a falta de limpeza das casas de banho e a total ausência de luz no campismo, às 5 da manhã, cansados e sem luz no campismo, encontrar as tendas tornou-se numa tarefa caricata não só para nós mas para todos aqueles que íamos encontrando pelo caminho, tambem nas suas jornadas para encontrarem o seu “acampamento”. Problemas que já vinham desde o ano passado.

Este ano, o som nos três palcos também não esteve nas melhores condições, contrastando com a passada edição. Não sabemos o porquê da mudança na empresa que prestou estes serviços, mas a verdade é que na maioria dos concertos não se conseguiam ouvir os instrumentos definidamente e as luzes no Palco Reverence e no Palco Rio também se revelaram algo monótonas e aleatórias, não se adequando à atuação das bandas.

Apesar de tudo isto, não podemos deixar de referir o Reverence Valada como um dos melhores festivais de música presentes no nosso país. Foi só há duas semanas que acabou e, se pudéssemos, voltávamos para lá outra vez.
Esperemos, muito sinceramente, que haja uma terceira edição tão boa ou melhor que as anteriores.

Até para o ano Valada!

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Por Diogo Alexandre / 11 Setembro, 2015

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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