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And So I Watch You from Afar - Hard Club, Porto [29Out2017] Texto + Fotos

06 de Novembro, 2017 ReportagensRicardo Rodrigues

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Hard Club

TOPS - Maus Hábitos, Porto [3Nov2017] Foto-reportagem

SEMIBREVE 2017 • A convergência entre passado, presente e futuro

Em circunstâncias normais qualquer artista temeria uma performance num Domingo à noite, porém nas mãos da Amplificasom é normal que esse medo seja maioritariamente atenuado. A promotora portuense já adquiriu um estatuto de culto, reunindo um público específico à volta de cartazes alternativos que garantem sempre um serão de qualidade com uma selecção musical interessante. Trata-se daqueles casos em que mesmo que desconheçamos os artistas em cartaz é seguro confiar que o espectáculo seja agradável e surpreendente.

Foi com Paisiel, um projecto de música experimental composto pelo baterista e percussionista português João Pais Filipe e o saxofonista alemão Julius Gabriel, que a noite começou. Numa performance de apenas meia-hora o duo apresentou dois andamentos musicais que exploravam conceitos aparentemente opostos mas que de alguma forma se metamorfoseavam na perfeição. A percussão mecânica, repetitiva e precisa formava a base por cima da qual eram desenhadas melodias atmosféricas e erráticas e enquanto estas criavam a necessidade de fechar os olhos e contemplar os mistérios do universo, a componente rítmica sugeria um ambiente de transe quase dançável. O som do saxofone estava construído de uma forma tão meticulosa e densa que conseguiu distanciar-se da associação comum que é feita com o jazz, e apresentou-se de uma forma extremamente subtil na sua componente directa enquanto criava uma ambiência arrebatadora. Com um aglomerado sonoro tão intenso e paradoxal, a curta duração do concerto foi uma virtude e em trinta minutos os Paisiel conseguiram surpreender um público que em grande parte desconhecia do seu trabalho, criando a abertura perfeita para o cabeça de cartaz.

Com dois anos de ausência em terras portuguesas, o regresso do colectivo irlandês And So I Watch You From Afar no seguimento do lançamento de The Endless Shimmering era inevitável. As expressões faciais do público nos momentos que antecipavam o concerto indicavam que algo extraordinário estava prestes a acontecer e não tardou muito até que esta previsão se concretizasse. Assim que a primeira nota do alucinante riff inicial de “Search:Party:Animal” foi tocada a Sala 2 do Hard Club transformou-se por completo, com uma iluminação de palco intensa e frenética, composta por cerca de uma dezena de colunas de luz e uma onda de energia e excitação a substituir a apreensão e curiosidade que pairava pela sala anteriormente.

Dizia-se que o palco era demasiado pequeno para uma banda que gosta tanto de se mexer como os ASIWYFA e embora conseguissem certamente preencher um palco maior, a proximidade acentuada entre performer e público contribuiu em grande parte para o sucesso deste concerto. Ainda estávamos na segunda faixa da setlist, “Like A Mouse”, e já Rory Friers tinha decidido abandonar a sua posição em palco para descer à plateia e alimentar a movimentação do público. Por muito complexa e matematizada que seja a composição do colectivo, a sua performance é absolutamente impecável, com uma precisão invejável sobretudo no que diz respeito às guitarras que tocam secções de finger tapping em compassos irregulares como se nada fosse. A conjugação dos diversos pedais de efeitos à disposição das guitarras e baixo são suficientemente complexas para os obrigar a fazer um ligeiro sapateado e acentua a necessidade de movimentação no palco. A presença monstruosa do baixista Jonathan Adger só é superada pela agressão das suas palhetadas e pela potencia com a qual entrega os cânticos melódicos esporádicos que unem toda a audiência. Para além do trabalho rítmico irrepreensível de Chris Wee, o que realmente lhe dá destaque é a forma energética com que trabalha a bateria e consegue agir como um hype man mesmo encontrando-se na escuridão do pano de fundo do palco. A forma extremamente dinâmica com que ambos os guitarristas interagiam um com o outro, tanto pessoal como musicalmente, acentuava a sensação de velocidade e excitação que a música propõe. Esta interacção deu também algum destaque a Niall Kennedy que infelizmente ficava um pouco na sombra da presença colossal de Friers.

Houve um contraste bastante interessante entre a forma confiante e carismática com que as faixas eram tocadas e a comunicação humilde e intimista que era feita com o público. Desde o acidente que fez com que o irrmão de Friers (que estava a vender o merchandise) tivesse rapado o cabelo até à gratidão pela recepção calorosa que estavam a ter num Domingo, a banda dirigiu-se ao público de uma forma que não quebrou a intensidade do que se estava a passar e tornou tudo mais próximo da realidade. Após uma pequena introdução composta por temas antigos (com “Terrors of Pleasure” escondida lá pelo meio) foi apresentado o novo disco (que tinha sido lançado há menos de uma semana) com dois dos temas mais interessantes do mesmo, “A Slow Unfolding Of Wings” e “Dying Giants”. Estes foram bastante bem recebidos, com algumas expressões de surpresa escondidas entre um mar de cabelo em pleno headbang e abriram caminho para clássicos como “Set Guitars To Kill” e “Big Thinks Do Remarkable” cujas melodias foram cantadas em uníssono. Entre momentos de peso puro, passagens alucinantes e groove intoxicante os ASIWYFA apresentaram diversão em formato musical e fizeram uma hora e meia desaparecem como por magia, numa entrega em palco que transbordava de alegria e devoção absolutamente contagiantes.



(Nota: o autor não utiliza o novo acordo ortográfico)
por
em Reportagens
fotografia Mariana Vasconcelos

And So I Watch You from Afar - Hard Club, Porto [29Out2017] Texto + Fotos
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