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Anna Calvi - Hard Club, Porto [19Out2018] Texto + Fotos

27 de Outubro, 2018 ReportagensJorge Alves

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Hard Club

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Estávamos em 2011 quando Anna Calvi surpreendeu o mundo com o lançamento da estreia homónima, onde a sua poderosa voz iluminava belíssimas e sofisticadas composições pop de cariz cinematográfico e revestidas de um deslumbrante espírito rockeiro. Foi também nessa mesma altura que visitou pela primeira vez o Hard Club, sala ao qual regressou na passada sexta-feira, na primeira de duas datas em solo nacional onde apresentou os temas da novidade Hunter e deixou bem claro que se encontra no período áureo da sua existência artística.

Foi ao som da envolvente intro bluesy “Rider to the Sea” que a atuação se iniciou, seguindo-se “Indies or Paradise” e “As a Man”, ambas retiradas do mais recente disco, obra magistral tão feminista como queer onde Anna Calvi revela orgulhosamente quem é sem medo de ser criticada pela sua bravura. Olhamos para ela e vemos uma mulher confiante, determinada e destemida; uma mulher que embarcou numa profunda viagem de auto-descoberta que a levou até França na companhia da sua namorada, e que se serviu desse cenário idílico para se estudar a si mesma e, desta forma, encontrar a coragem que precisava para exibir todo o encanto do seu ser.

Desde a altura em que subiu ao palco até à despedida, adotou uma postura tão desafiante quanto sedutora, espalhando deliberadamente sensualidade sem nunca cair na vulgaridade. Olhava o público nos olhos, explorava as possibilidades sónicas da sua guitarra como se esta a possuísse e interpretava cada música com uma paixão ardente, arrepiando todos aqueles que, maravilhados, a observavam. Fez-se acompanhar de uma banda deveras competente, mas as atenções do público estavam focadas somente em Calvi, cujo carisma lhe permitiu dizer tudo sem praticamente proferir uma palavra. Não necessita, todavia, pois a sua personalidade magnética e a beleza da sua arte são suficientes para que se estabeleça uma comunicação eficaz.

Se Hunter representa então a conquista de uma maior maturidade para a talentosa compositora, é normal – e até louvável – que o alinhamento se baseie maioritariamente em tão marcante manifesto. Para além dos temas previamente mencionados, escutamos ainda composições como “Alpha”, “Don't  Beat the Girl out of My Boy” ou “Swimming Pool”, sendo que todas as canções novas ganharam ainda mais força e energia quando passaram do estúdio para o palco, e o mesmo se verificou com a própria autora. A Anna Calvi que escutamos no conforto do nosso lar não é a mesma que, ao vivo, liberta toda a garra do seu espírito rebelde, o que não significa que o trabalho de estúdio seja inferior; diz-nos apenas que, muito possivelmente, o confronto com a audiência desperta a vontade de transformar cada atuação numa experiência única, inesquecível e até catártica.

Instalando uma atmosfera que tanto apelava à contemplação como celebrava a intensidade desenfreada, e caminhando livremente pelos dois universos sem nunca deixar de soar coesa, Anna Calvi encantou os corações de quem, nesta noite, testemunhou uma prestação absolutamente triunfal. Depois de ter também recordado capítulos anteriores da sua carreira como “Desire” ou “Suzanne & I”, encerrou esta formidável passagem ao deliciar-nos com uma soberba cover de “Ghost Rider”, hino dos míticos Suicide.

Quando esta maravilhosa sessão chegou ao fim, não nos sentíamos prontos para a despedida, mas fomos forçados a dizer o que esperamos que tenha sido um mero até já. Afinal, assistimos a um dos melhores concertos do ano, a uma prestação tão delicada quanto arrojada, tão charmosa quanto visceral, que conseguiu equilibrar na perfeição melodias majestosas com doses explosivas de experimentalismo sonoro.

Acima de tudo, Anna Calvi provou que para além de ser uma extraordinária vocalista e uma exímia guitarrista, é também uma das vozes mais importantes desta geração; numa época marcada pelo movimento # Me Too, a coragem com que se coloca na posição de protagonista, recusando ser menosprezada ou ignorada, torna-a num símbolo de resistência e perseverança - por outras palavras, num verdadeiro exemplo de uma mulher forte e independente. Contudo, pondo de parte a questão do género, esta senhora é uma fonte de inspiração para todos os que desejam sonhar e ser a melhor versão possível de si próprios. Nesta noite, Anna Calvi ensinou-nos a viver; resta-nos agora aplicar esses ensinamentos.

por
em Reportagens
fotografia Hugo Adelino

Anna Calvi - Hard Club, Porto [19Out2018] Texto + Fotos
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