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Anohni – Coliseu do Porto [21Jun2016] Texto + Fotos

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“Why don’t you kids dance? He decided to say, and then said it. Why don’t you dance?”

Com co-produção de Daniel Lopatin e de Hudson Mohawke, Hopelessness, o novo disco de ANOHNI é literalmente uma explosão no mundo da música eletrónica: quer pela qualidade, quer pela voz inconfundível de Anohni, quer pela dimensão que ganha ao vivo. Mas será que queremos dançar sobre os escombros de uma cidade bombardeada por um drone? Será que vale a pena dançar num mundo que é tão desesperadamente marcado pela morte da esperança? Fiquemos sentados, agarrados à barriga perturbados e enjoados pela mensagem sem (ou com cem) rosto(s) de Anohni, ainda que convulsos de cada batida de Lopatin.

21h45. Naomi Campbell move-se numa dança que nem sequer era uma dança no sentido lato, antes assemelhava-se muito mais a um ritual de sedução do público que não conseguia desviar o olhar. Na sua habitual graciosidade, Campbell intoxicou o publico com os seus movimentos em camara lenta, sorriso cativante, envolta numa imagem a preto e branco tão típica da Nouvelle Vague francesa com Jean-Luc Godard ou Agnès Varda. Envolta também numa faixa em loop continuo que nos remetia para Tim Hecker, como se este estivesse escondido no backstage quase como a abrir para ANOHNI. A ambiguidade entre o som e a dança só a tornava mais macabra. Assistimos a um exorcismo da fama e da persona em prol da verdadeira mulher que Naomi é e que aparece mais tarde em “Drone Bomb Me”, em lágrimas, não como uma persona – lembremos que persona em latim adquire o significado de máscara no sentido coloquial, sendo interpretada como uma máscara social do quotidiano, como o papel que todos temos que representar para o exterior – mas como o seu “true self”. E não, continuamos sem querer dançar.

22h. Lopatin e Mohawke (ou Christopher Elms, ficamos sinceramente na duvida) ocupam os extremos opostos do palco, de vestimentas pretas de cima abaixo e carapuço na cabeça. “Hopelessness” começa, ouvimos a voz de Anohni, mas sem sinais dela em palco. Não precisamos de a ver para sabermos que ela está presente, Anohni tem uma voz e um timbre inconfundível. As imagens de Campbell são substituídas por outra mulher, uma desconhecida de quem apenas temos um plano frontal da cara, enquanto a sua boca cita as letras que Anohni algures atrás do palco canta. Quando finalmente surge em palco, Anohni está tapada de cima a baixo de trajes brancos, anulando-se a si própria, à sua presença. Seria ingénuo pensar que os trajes (um aspeto que para tantas outras artistas é supérfluo) não tinha uma mensagem: Anohni não quer ser o centro das atenções, ela quer que as ideias que tenta transmitir sejam o centro das atenções.  Essa mensagem é passada por pessoas que não conhecemos, pessoas que até já nos poderíamos ter cruzado na rua, mas que a sua voz e essa mesma mensagem não nos chegaria de forma tão contundente quanto a de Anohni.

Como era de esperar, a setlist abordou o único álbum de Anohni enquanto Anohni com “4 Degrees”, e “Watch Me” e “Drone Bomb Me” como pontos mais altos de uma noite com apenas momentos soberbos. No entanto, foram abordados também cinco outtakes do álbum “Paradise”, “Ricochet”, “Jesus Will Kill You”, “Idian Girls” e “in My Dreams” produzidos no mesmo ambiente e com a mesma linha de ideias de Hopelessness– estes outtakes facilmente dariam um novo EP, aliás estas faixas mereciam um lançamento próprio, um registo de estúdio cuidado.

A cada faixa encontrávamos uma cara nova, de todas as idades, de todos os continentes, mas sempre caras femininas. Sempre mulheres desconhecidas, sempre mulheres quase sem voz, sempre vulneráveis, desarmadas. Anohni é a sua voz, sendo uma voz sem cara ou “persona”, uma voz que tem projeção e que transmite uma mensagem que efetivamente nos chega: “WHAT ARE WE DOING TO THE EARTH?”.

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Por Sara Dias / 23 Junho, 2016

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