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Beach House @ Teatro Sá da Bandeira – Porto [24Nov2015] Texto + Fotos

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A noite fazia-se fria com a chuva a convidar a uma noite de descanso no sofá embrulhados numa manta. A maior equipa de futebol da cidade jogava em casa e tudo no Porto se conjugava para que a cidade se encontrasse despida da sua vestimenta populacional. Se não soubéssemos o que estava para lá acontecer, seríamos apanhados no espanto na passada terça-feira, ao ver uma fila que se estendia do Teatro Sá da Bandeira até à rua 31 de Janeiro.

Totalmente esgotada, a sala mí(s)tica do Porto (que viria a encantar quem o seu palco pisou), recebeu o último concerto da digressão europeia dos Beach House. Com dois álbuns novos na bagagem, Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars estava prometida uma noite de grande intensidade sensorial, mas também de homenagem a uma carreira que apesar de não ser muito longa, é deliciosamente consistente.

Devido à grande afluência de público e ao rígido controlo policial, o concerto marcado para as nove da noite sofreu um atraso de meia hora. A primeira parte esteve a cargo de Dustin Wong, que subindo a palco envergando a sua guitarra, aproveitou logo a oportunidade de agradecer à banda anfitriã, pela jornada e pela oportunidade que lhe davam em atuar para públicos tão grandes. No fim, seríamos nós a agradecer aos Beach House o presente. Apanhando de surpresa todos os que lá estavam, o guitarrista, demonstrou ser um músico com uma sensibilidade melódica tremenda, sendo a sua especialidade não a guitarra (que também dominava com facilidade), mas sim o pedal. O concerto baseou-se numa sequência de loops que depois eram alterados/transformados para outras texturas ou distorções, que tanto atingiam o auge, como logo a seguir acabavam abruptamente. O som pode ser descrito como Panda Bear a descobrir a essência inicial dos Múm, no entanto a musicalidade de Wong consegue ser muito própria, fazendo do concerto a banda sonora perfeita para um sonho lindo que infelizmente era interrompido, metáfora em forma de música para o que a vida é. A primeira parte pouco passou dos quarenta minutos, mas foi o suficiente para criar o ambiente certo para o que a seguir viria. Bateram-se palmas merecidas, tanto para o que agora saía do palco, como para os que viriam a entrar seguidamente.

Os Beach House subiram ao palco sem grande pompa ou artificio e atiraram-se logo ao que os cá trazia: fazer- nos sonhar. A recente “Levitation” foi a escolha para música de abertura, o que não é de espantar, não estivessem em tour promocional de dois novos álbuns. Fazendo-se acompanhar com Skylar Skjelset e Graham Hill, Victoria e Alex apresentaram um espectáculo simples e intimista, decorado pela escuridão do Teatro Sá da Bandeira (que nos presenteava a todos com uma excelente acústica) onde apenas três translúcidos paralelipípedos se deixavam iluminar de forma encantada. É certo que a voz de Victoria, provavelmente devido ao cansaço, não se encontrou sempre no seu melhor, no entanto nunca deixou de ser um vozeirão poderoso que concretizou prestações absolutamente deslumbrantes, como foi o caso de “Silver Soul” ou “10 Miles Stereo”. Aliás, não foi só através da sua voz que conseguiu impressionar, uma vez que em palco conseguiu demonstrar muita mais confiança do que na última vez que a vimos por cá. É quase surreal utilizar este adjectivo com os Beach House, mas a verdade é que a banda que se esconde na ausência de luz, de cabeça baixa e a deixar os cabelos apagarem a cara, desta vez demonstrou não ter medo de enfrentar os momentâneos clarões que atingiam o palco, nem de demonstrar a sua energia com movimentos de dança ou euforia ao som das suas músicas. E acima de tudo, não teve medo de comunicar. A própria Victoria mais tarde o viria a assumir: este tinha sido o concerto onde fez o discurso mais longo.

O concerto navegou entre novas canções e uma carreira cheia de momentos reconhecíveis, aos quais o público reagia logo, ora aplaudindo, ora movimentando-se ao som do sonho pop da dupla americana. Lá no meio, havia uma alma perdida em total delírio que pulava apaixonadamente (certamente fazendo um mosh interno entre vivências e músicas), mas apesar de este ser o mais expressivo, todo o público foi merecedor do bom concerto a que assistiu. Não faltaram aplausos e “I Love You”, e entre risos e embasbacados na sua própria timidez lá iam agradecendo, arriscando por vezes um “obrigado”. Dos novos álbuns fizeram-se ouvir para além da música de abertura, canções como “Beyond Love” (momento em que uma irreconhecível Victoria se desprendia da sua rigidez estática) ou “All Your Yeahs”, a qual terminaram para revelar o seu encanto pelo misticismo do Teatro Sá da Bandeira. No entanto clássicos como “Walk in the Park” ou “Wishes” não foram esquecidos. Abandonaram o palco depois de “Sparks”, tão rapidamente como haviam entrado, mas a paixão do público justificou o encore. Victoria agradece e oferece música nova, a qual se esquece do nome, deixando a promessa de o revelar no fim. A promessa não foi cumprida, mas a música era a deliciosa “The Traveller” interpretada apenas com o duo em palco, momento que só tinha acontecido anteriormente com “On the Sea”.

Mesmo para finalizar, sobem todos ao palco (com Wong a ser chamado novamente), fazem-se os agradecimentos, dão-se os aplausos e os Beach House despedem-se com a tristeza de uma saída repentina ao som de “Irene”. Queriam ficar, e nós queríamos que ficassem. A escuridão vai se desvanecendo, dando lugar a um final bastante iluminado, sensação de preenchimento igualmente sentido na alma de quem assistiu. Muito antes, Victoria tinha sentido a presença de um fantasma na sala, e este fora convidado a ir beber um copo com eles no final. Nós éramos esse fantasma: uma aura coletiva a deliciar-se. Obrigado.

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Por João Rocha / 26 Novembro, 2015

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