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Ben Frost @ gnration – Braga [18Mar2016] Texto + Fotos

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Mesmo assim continuo firmemente convicto de que não só uma consciência ampliada, mas todo o género de consciência é uma doença. Insisto. Deixemos isto por um momento. Dizei-me agora uma coisa: porquê, como por acaso, era precisamente naqueles instantes, sim naqueles instantes em que eu me sentia mais apto a tomar consciência do mais «belo e sublime» como se dizia antigamente, que me acontecia não só não ter consciência, mas também praticar atos tão pouco luzidios (…)? – Fiódor Dostoiévski

 
Na passada sexta-feira, dia 18 de março, o australiano Ben Frost regressou a Portugal com o pretexto de apresentar o seu álbum de 2014, A U R O R A, álbum que já havia sido apresentado no Amplifest no seu ano de lançamento. A verdade é que não são necessários pretextos para ver Frost ao vivo – rapidamente a Black Box do gnration encontrou-se de bilhetes esgotados e a mãos com dezenas de pessoas a procurar bilhetes pela internet fora. Com uma sala esgotada e com as expectativas no alto, nem os finos a apenas 1€ demoveram a maioria dos espectadores, numa sala abarrotada que se enchia de murmurinhos de ansia palpável, para ver o quase-mais-islandês-que-australiano a atuar a solo.

Não há duvida que Ben Frost nos remete para os recônditos mais gelados que uma qualquer paisagem islandesa, ou de uma qualquer cave onde um subterrâneo escreve nos seus cadernos, sem ver a luz do dia há anos e onde apenas ouve as gostas de humidade a escorrer pela parede. Se Dostoiévski dá à luz o anti-herói existencialista através da escrita, Frost prende-nos através das suas paisagens sonoras dentro desse mesmo existencialismo dostoiévskiano onde nos sentimos o próprio anti-herói a cada segundo que os nossos ouvidos são agredidos pela potência sonora. Esta última, que poderia ter sido mais elevada, já que o PA da Black Box não era suficientemente robusto para aguentar a supremacia sonora de Ben Frost, acabando mesmo por ceder. Quase como se viesse um certo anti-herói dostoiévskiano dizer ao ouvido: “Além disso, vivo sempre as coisas com muita violência.”.

O ponto alto da noite, para além do inesperado apagão total, foi quando mesmo no fim, quase em jeito de encore, tivemos o privilégio de ouvir, com um arranjo mais convencional – que também em parte se deveu à falta de robustez, especialmente no que toca aos graves, do PA – da “Theory of Machines”, que acaba repentinamente com Frost a fechar os portáteis numa sincronia perfeita e a sair como entrou, excelso e sublime.

O balanço da noite foi tão positivo quanto uma leitura dostoiévskiana – submergimo-nos numa qualquer cave ou caixa preta imaginária de inércia mais-que-parada e não pensamos se não no que sentimos quando o ouvimos, uma sensação que permanece e que nos faz querer repetir a dose – mesmo que os nossos ouvidos sofram tanto quanto o nosso inconsciente.

O fim dos fins, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é a inércia consciente! Pois bem, viva o subsolo! Embora eu tenha dito realmente que invejo o homem normal até a derradeira gota da minha bílis, não quero ser ele, nas condições em que o vejo (embora não cesse de invejá-lo. Não, não, em todo caso, o subsolo é mais vantajoso!) Ali, pelo menos, se pode…, mas estou mentindo agora também. Minto porque eu mesmo sei, como dois e dois, que o melhor não é o subsolo, mas algo diverso, absolutamente diverso, pelo qual anseio, mas que de modo nenhum hei de encontrar! Ao diabo o subsolo!

 

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Por Sara Dias / 24 Março, 2016

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