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Big Thief - Hard Club, Porto [18Fev2020] Texto + Fotos

01 de Março, 2020 ReportagensJoana Coelho de Pinho

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Dia 18 de fevereiro de 2020. Uma terça-feira de fevereiro, sem brilho. E uma casa cheia, por si só, a elevar o estado de espírito. O vazio da cidade e o desânimo meteorológico ajudam a reforçar o aconchego do convívio que se segue.

Adrianne Lenker – acompanhada por James Krivchenia, Max Oleartchik e Buck Meek - entra silenciosamente em palco para apresentar Two Hands. O sorriso contagia e dispensa palavras, a afabilidade está no olhar. O público recebe-a com brandura, respeitando a fragilidade que lhe reconhece, e os primeiros acordes soam. Adrianne volta-se de costas para a plateia, recolhendo em concha sobre a sua banda, enfantizando e evocando a proximidade que os une. No decurso de todo o concerto, aliás, a banda vai trocando sempre muitos olhares entre si, como se fossem naturalmente impelidos uns para os outros, uma força magnética a extravasar a relação individual com o instrumento e a atuar sobre o coletivo. A permeabilidade magnética permite sentir a densidade deste fluxo de energia e, de repente, todos se encontram dentro do mesmo campo magnético.

“Estas são músicas novas que temos vindo a explorar, vamos tocá-las” – num momento familiar de absoluto conforto. A música é muito apoiada na guitarra acústica. “Could you come forgive me?” entoa-se, numa dor nobre. A fragilidade e intimidade estão vertidas em cada acorde e Adrianne ajoelha-se voltada para os membros da banda. Tocam assim uns para os outros, naquela que é, na verdade, uma confraternização plena entre amigos, com a particularidade de ser presenciada por uma plateia.

“Forgotten eyes” é introduzida. Adrianne desvia-se para o canto do palco e os restantes membros encaminham-se na mesma orientação para tocarem sempre na sua direção, interligados. Eleva-se assim a energia da música e a energia dos membros, aplaudidas de forma vigorosa e consonante pelo público.

Por entre a plateia alguém arremessa “Masterpiece”. Buck sorri e devolve “Este deve ser um país psíquico porque as pessoas estão sempre a tentar adivinhar o nome da música seguinte”. E, efetivamente, “Masterpiece” começa a tocar. Lenker e a banda mantêm-se sempre serenos, imperturbáveis, mas comprometidos e dedicados à causa. A energia que se sente é verdadeiramente celestial.

Entretanto presenteiam a plateia com um solo de guitarra disruptivo em toda a sua natureza e extensão, a introduzir a música “Shark Smile”, do álbum Capacity de 2017. A intensidade extravasa o palco e chega a todos. A banda oferece toda a sua concentração e esforço.

Segue-se “Mythological Beauty”. Lenker domina tão bem as oscilações na voz que esta música, em particular, implica. Canta em jeito de grito e, na mesma fração de segundo, sem esforço de transição, retorna ao seu registo delicado. Ajoelha-se para mais um bramido que arranca do peito, e os fãs permanecem enfeitiçados e incrédulos. Toda a envolvência é mística, e até a própria orientação das luzes contribui para a criação de uma realidade paranormal, etérea. A perceção sensorial é promovida e todos os sentidos são simultaneamente estimulados.

Em “Terminal Paradise”, do álbum de 2019 U.F.O.F., Lenker debate-se ligeiramente para afinar a guitarra e depois prossegue, tocando calmamente sobre si e desfrutando deste momento sozinha, mas sendo generosa o suficiente para permitir ao público vivê-lo com ela.

“Eu acho que nunca mais vou usar os headsets, é demasiado doloroso. Creio que vocês acabaram de ver o último concerto da história em que os headsets são usados. Eu realmente não sei como é que a Britney Spears conseguia. Devia ter um couro cabeludo forte. Bem, ela é uma badass!” – partilha já sem filtro e com total espontaneidade. Em “The Toy” sente-se mais movimento e efervescência, mas a consciência vulnerável e poética prevalece sempre. Lenker entretanto já está confortável com a plateia e começa a dançar suavamente, através de pequenos passos, dóceis e delicados.

Com a chegada de “Shoulders” chega também uma expressão mais acentuada e vincada, que remete para um universo diametralmente oposto. James dirige o seu olhar para Lenker e acena-lhe com a cabeça, em jeito de encorajamento, num sussurro que lhe assegura “continua, estás a ir bem”.

Parece que estou num sonho. Talvez esteja mesmo” – Partilha Lenker. E a plateia não quer acordar.

Segue-se “Not”, com a sua violência e robustez. A guitarra ganha vida própria, assim como todos os instrumentos em ebulição. Toda a convicção é aqui marcada por uma tensão prolongada, enquanto se repele terminantemente a dor: “It's not the open weaving / Nor the furnace glow / Nor the blood of you bleeding / As you try to let go”.

Lenker passa novamente para a guitarra acústica. “Oops” partilha em jeito de desabafo involuntário enquanto tenta ajeitar a guitarra. “Talvez precisemos de alguém para fazer a moonwalk”, arremessa, numa tentativa nervosa de manter a plateia vinculada enquanto se debate com alguns percalços. “Tudo aquilo que não é suposto eu dizer no microfone, eu estou a dizer”. Buck intervém: “creio que precisas de um microfone motivacional” e Lenker eleva o espírito sozinha com a conveniente resposta “...e enquanto aprendemos a abraçar os erros que cometemos”. Mas o problema persiste.

Um membro da plateia assevera “Está tudo bem” – e está mesmo. A generosidade de Big Thief ensinou os fãs a serem complacentes com a fragilidade humana e a poetizarem a inevitabilidade das adversidades, a realidade crua. E a banda prossegue em paz com “Cattails” de U.F.O.F., de frente para a plateia, alegre e bem-disposta.

Eis que regressam então à guitarra elétrica. “Mary”, do álbum Capacity de 2017, é introduzida. A lírica, a voz, o sentimento tão doce a perpassar por luzes baixas e silêncios reflexivos e contemplativos, de um público que sucumbe com a banda a uma experiência pessoal e relacionável, nua e simplista, mas tão transcendente que se torna universal, num ambiente profundamente intimista e comovente que tornaria banal um verter de lágrima e desprovido de sentido um sorriso. Ao invés, conduz os fãs a um estado de consciência paralelo, não palpável, e estes acabam por se ver reduzidos à beleza da sua insignificância perante um cosmos emocional em que tão raras vezes o comum dos mortais se permite entrar.

O refrão configura uma pequena maratona que Lenker corre com mestria. A corrida por estes versos é incessante, mas Lenker trauteia-os com a mesma gentileza. As luzes aumentam à medida que a intensidade da música aumenta também, numa parceria bem estabelecida com o espiritual.

Na introdução de “Contact”, do álbum U.F.O.F., a artista, olhando em seu redor, exclama “lar doce lar!”, porque claramente a sua casa é onde o seu amor está. E o seu amor está em cada acorde. “Obrigada por nos apoiarem. É que é tão divertido fazer isto”. 

Nesta música sente-se mais objetivação da parte de Lenker e da banda, que aparece quase como entregue a um estado de apatia, até Lenker gritar descontroladamente e com dor, e todo o seu corpo se descontrolar também, num empurrão que confronta o público com a realidade mais áspera. Bem se demonstra aqui o domínio único de Big Thief na conciliação que fazem dos sons mais robustos com os mais débeis, sem lhes subtraírem a harmonia – o que, de resto, configura um dos traços mais distintivos da banda.

Um “Obrigada” – proferido quase em jeito de suspiro – tão cru e simples quanto isto, dá por terminado o concerto. A falta de adornamentos atribui real sentido ao agradecimento e o público sai em direção a uma noite agora mais cintilante.

Big Thief e Payes
por
em Reportagens
fotografia Inês Leal

Big Thief - Hard Club, Porto [18Fev2020] Texto + Fotos
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