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Black Bombaim & Peter Brötzmann @ Hard Club – Porto [27Fev2015] Texto + Fotos

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A noite começou com Jorge Queijo. Uma bateria, voz e maquinaria minimalista deram o mote para o concerto. Sendo definido pelo próprio como música “de improviso”, o concerto do percussionista do Porto – o seu primeiro a solo – encontrou os seus pontos altos quando procurava alavancar o dinamismo da voz e da maquinaria com a sua bateria. Era visível o processo de descoberta no improviso e foi algo incrivelmente interessante na maior parte do tempo. O início de cada tema, no entanto, parecia demasiado arrastado e sem objetivo – devendo relembrar que é o seu primeiro concerto a solo e completamente improvisado, pelo que é completamente compreensível.

Há ainda Black Bombaim + Brötzmann. De forma muito inteligente, o concerto começou com um solo de Brötzmann, permitindo que o público que apareceu chamado por Black Bombaim fosse desde logo introduzido ao trabalho do veterano de 74 anos. O músico alemão é normalmente introduzido como “um dos maiores propulsionadores do free Jazz na Europa”, género originado nos EUA por volta da década de 50. Mas mesmo um elogio desses não passa de uma forma redutora de apresentar quase meio século de carreira.

Depois de estabelecido o luxo que tínhamos à nossa frente, os Black Bombaim começaram, de forma consideravelmente mais caótica do que é habitual, a acompanhar o músico alemão. Um de cada vez foi adicionando uma nova camada ao tema, materializando-se em algo experimental como não poderia deixar de ser. Depois voltamos mais aos moldes da música da banda portuguesa, com Brötzmann a aparecer sempre na música de forma despreocupada quanto ao ritmo mas quase sempre bem enquadrado. O ponto alto, no entanto, é quando Brötzmann equilibra a sua preocupação com a dos Black Bombaim. Ora, isto acontece tanto quanto o saxofonista alemão procura de forma mais ativa a ordem como quando os Black Bombaim se encontram no caos. O maestro, como parece acontecer nas bandas modernas, é Tojo, o baixista. Em conjunto com Senra, o baterista, aparecem no concerto como os mais ordeiros. O duo rítmico do concerto de hoje funcionou quase como a mãe do grupo, mantendo o concerto dentro dos limites do que é experimental sem ser de audição complicada (analogia na qual Brötzmann seria o tio bêbado que instaura o caos das maneiras mais brilhantes criando histórias para serem contadas na noite de natal).

À semelhança da primeira parte do espetáculo, há um importante fenómeno a ter em atenção nos concertos com improvisação envolvida: O público, em grande medida, divide-se em duas expectativas: os que estão à espera de um improviso e de tudo o que isso traz; e os que estão à espera de material novo, não apreciando tanto a natureza do improviso. A reportagem de um concerto tem sempre estas questões subjetivas e que se refletem na perceção de quem as escreve, não havendo, na opinião de quem escreve este texto, problema algum no ocasional processo de descoberta em palco que se tem de dar num improviso. Mas, ao contrário do que aconteceu com Jorge Queijo, esse processo de descoberta mantinha-se sempre interessante, havendo um evidente objetivo na experimentação.

O processo de Brötzmann é particularmente interessante de se ver. Afasta-se um pouco do sítio onde está e é visível a absorção da música que o rodeia. A pouco e pouco parece ir ganhando confiança, assegurando-se de que é altura e volta aquilo que tão bem faz. O que parece quase ridículo de se dizer de alguém com a sua carreira… Fica a esperança de que no dia a seguir se tenha mesmo gravado algo e imortalizado algo semelhante ao que se passou no Hard Club.

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Por João Pedreda / 3 Março, 2016

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