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Blood Incantation - Another Place, Almada [13Out2017] Texto + Fotos

21 de Outubro, 2017 ReportagensJoão "Mislow" Almeida

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Another Place

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“Chief Nakamura - There’s no proof at all that you are a living, thinking life form!
Puppet Master - And can you offer me proof of your existence? How can you, when neither modern science nor philosophy can explain what life is?”
- Ghost In The Shell, Mamoru Oshii

Sexta-feira 13 foi dia de receber dois nomes de elevado calibre em terras lusas. Tanto no caso de Blood Incantation como no de Spectral Voice, temos na nossa mira uma dupla de projetos cuja personalidade, intuição na escrita e entrega do peso lhes tem dado muito que falar. Naturalmente, com um público tão reduzido e muito dedicado às subcamadas do underground da música extrema, não estávamos à espera de ver qualquer um destes nomes a passar tão perto de Portugal. Portanto, foi com algum espanto e rejubilo que vimos a confirmação destes dois projetos em datas duplas, no Porto e em Almada. Apesar do espanto, não nos estranhou ver a marca da equipa da SWR Inc. por trás desta confirmação após aprendermos do retorno de Mayhem a Lisboa. Que melhor forma de passar uma sexta-feira 13 do que na companhia de algumas caras conhecidas com uma trilha sonora verdadeiramente digna de um dia destes.

Coincidentemente, quem não conhece o local da sala de concerto do Another Place, tal o nosso caso, viu-se confrontado com o percurso que segue desde o centro de Almada até à periferia da cidade, onde quase que dá para entrar num universo distópico diante de uma arquitetura industrial plenamente abandonada. Edifícios, torres, chaminés, janelas cimentadas e paredes grafitadas, ilustram o desenho que Starspawn nos ajuda a transcender. Mesmo que não fosse propositado, todo este trajeto privilegiou-nos com uma antevisão digna daquilo que se seguiu mais tarde. O espaço é charmoso e ouvindo o sound check na rua, as condições prometiam jogar a favor da sonoridade das bandas. Após a entrada, pouco demorou para os portugueses Festering começarem a tocar. Apesar do som pujante e do death metal frontal que todos os adeptos da velha guarda sueca aderem, o grupo não fez justiça à sua antecipação. Notou-se algum nervosismo, frustração e falta de química entre os membros. Evitamos presumir o que é que falhou ao certo na banda mas quando a impressão que deixa é aquela de falta de ensaio, então algo não está a bater certo. Independentemente disso, o grupo conseguiu redimir os 40 minutos desinspirados com a fortificada e bem cimentada malha “Exhumed”.

Felizmente, muito devido à nossa expectativa pelos dois grupos que seguem, ficámos satisfeitos ao ver a entrada quase imediata dos americanos ao palco para preparar o set de Spectral Voice. Já com tudo mais ou menos preparado, não houve demoras para se o ouvir a primeira nota assombrosa do estrondo funerário que iria seguir. Este set, tal como o álbum, que coincidentemente ou não, foi lançado oficialmente no próprio dia, separa-se com clara facilidade do resto que paira no género. Não só pela sua capacidade de desenvolvimento e qualidade de escrita, dois aspetos importantíssimos a sublinhar quando se fala em death metal moderno, especialmente num registo que se deixa navegar tão confortavelmente entre secções de absurda tristeza e pulsações de velocidade penetrante, mas também por encontrar uma sequência expansiva de sons sem nunca perder o fio à meada. Malhas como “Threshold Beyond”, “Terminal Exhalation” e “Dissolution” marcaram uma noite de tremendo peso. A destacar uma banda plena em forma, com execuções recheadas de presença e projeção, e que nos colocam em estado de ansiedade constante ao sentir as vibrações das guitarras no nosso mais profundo estado de submissão. A propagação do som, do seu monocromo de impressões orgânicas e pulsantes, ajudaram a descrever um set mais do que memorável de uma banda que promete imenso nos anos que seguem.

Tanto Spectral Voice como Blood Incantation, têm ¾ dos seus elementos a partilhar o alinhamento, somente a mudar o baterista. Algo que permite aos dois projetos alguma rapidez na mudança de som. Para fechar a noite um nome que tem sido colocado num pedestal privilegiado desde o lançamento de Starspawn em 2016. Aqui temos um conjunto de músicos que consegue alcançar tão alto em termos técnicos, de escrita, estética e quase cinemáticos, sem nunca recorrer à falácia da production value. Aqui temos Blood Incantation, um grupo que segura neste momento a tocha da última geração de bandas a conduzir a nova vaga de death metal. Quem ainda não teve oportunidade de se emergir em pleno disfarce metafísico com a indiscutível obra-prima destes americanos, não sabe o que está a perder.

Assumindo um set que conste todas as faixas do último registo, é imperial conseguir refletir a entrega no estúdio quando em palco. Alegra-nos viver a experiência de Starspawn, tal e qual foi desenhado em formato de álbum, mas agora no espaço do Another Place. A performance geral foi uma viagem tremida entre blast-beats de intensa energia subatômica ao leme de um abismo cadavérico pelos mais aterradores cantos do universo. A perspetiva não é otimista e as guitarras interestelares que impactam sistemas solares como se nada fosse, deixam-nos rendidos à astronómica dimensão da moldura e do poderio que é este álbum. Os cavernosos grunhidos entram em vórtices decadentes de assombro em colapso, em impacto constante com a anti-gravidade efervescente dos solos que soam e brilham como uma supernova que ilumina todo um universo devastado.

Observar o público completamente rendido a este concerto de astronómicas dimensões, é aqui que nos apercebemos do despido talento ao ver e ouvir malhas como “Chaoplasm”, “Hidden Species” e “Starspawn” quase sem assistir a falha qualquer. Destemidos, impiedosos e imparáveis, a banda conseguiu elevar a imagem do registo a espectros desumanos. Nem o próprio anel de Saturno se conteria perante tamanha força gravítica, e a contabilizar quase uma hora de espetáculo, mesmo a sublinhar momentos muito memoráveis como a lendária “Vitrification of Blood (Pt. 1)” e uma faixa nova, o grupo encontra meios para pedir erva em troca de encore, e assim o faz. Não houve um momento em que o público, mesmo que pouco para uma entrega deste nível, tenha ficado remotamente desiludido com este final de noite.

Depois de Mayhem e Dragged Into Sunlight, é-nos inevitável admitir a genialidade da família que tudo isto possibilitou. Mesmo que um bocado parciais, e admitidamente grandes adeptos de todas as bandas que tocaram na quinta e sexta-feira, afirmamos com toda a frontalidade que poder assistir a estes dois espetáculos com todo o estilo e vocalidade na experiência, é um talento que muito poucos conseguem alcançar. É por isso que louvamos esta organização, não só pela visão que adotam ao gravitar nomes como estes para um país tão geograficamente e economicamente “ingrato” para as bandas, como pela execução e trabalho dedicado para tornar tudo isto possível. Dando por terminado mais uma noite de grande intensidade e que guardaremos com imenso carinho nas nossas memórias, saudamos até uma próxima!

por
em Reportagens
fotografia Marta Louro

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