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Cat Power @ Hard Club – Porto [1Nov2015] Texto + Fotos

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Em digressão, Charlyn Marshall, actuou no passado dia um de Novembro para um esgotado Hard Club, tendo-se apresentado no dia anterior na Capital. Antes do concerto começar, os rumores que chegavam de Lisboa pairavam entre uma fila imensa que aguardava para entrar na sala maior do ex-Mercado Ferreira Borges. “Um concerto desastroso, com as pessoas a irem embora, ou a estarem ao telemóvel” eram alguns dos mais recorrentes comentários que ouvíamos. Cat Power tem a fama de ser inconstante nos concertos e, portanto, a credibilidade do que se ouvia não era posta em causa.

Quando a Dj Appaloosa subiu ao palco tudo parecia apontar para a concretização dos rumores. Responsável pela abertura, a escolha desta artista parecia tão aleatória como a sua personalidade. Com um som a roçar o electro-dance dos 90’s, a performance que se seguia em palco fez o público dividir-se entre os que estavam irritados por terem gasto dinheiro “naquilo” e os que não conseguiam conter risadas provocadas pela personagem loira e, aparentemente, embriagada. Para este que vos escreve, um amante do “pythonesco”, tudo estava a ser delicioso de tão surreal: se a batida da música acelarava, ela sentava-se; se a música fosse calma, ela desatava a saltar e a fazer estranhas danças. Quando cantava saía do ritmo, quando falava saía do microfone. No fim, deixa o computador a tocar e vai-se embora. Houve quem aplaudisse, mas provavelmente fruto da idade e do instinto maternal que obriga as mães a baterem palmas nas peças de teatro da escola dos filhos.

No intervalo e fruto de uma sala incrivelmente quente, é no bar, ao pedir uma garrafa de água, que percebe que também o público de Cat Power é inconstante como ela: Duas senhoras, a tentarem passar a imagem de alta burguesia, perguntavam “olhe, Cat Power foi isto?” Na realidade, uma parte significativa do público era composto por “patos bravos” que ouviram dizer que praticar cultura era uma coisa in, e portanto acharam por bem ir para ali fazer o que um novo rico faz de melhor: praticar o social. O que levava ao verdadeiro público (sim, não vamos considerar estes outros de público) a olhar para trás com ar reprovador, a repetirem “shhhs” ou (o que aconteceu várias vezes) a irem diretamente mandá-los calar. Uma artista que transpira intimidade, tanto peca por não a conseguir passar ao público, como pela falta de condições do espaço. Nesta vertente, a escolha do Hard Club não foi a melhor, com Cat Power a subir ao palco entre aplausos e o barulho de moedas a chocarem vindas dos excessivos bares abertos na sala para este concerto, som que se manteve mais ou menos constante durante todo o concerto.

Dadas as adversidades instauradas, Cat Power conseguiu demonstrar ser uma artista incrivelmente capaz e com um público que realmente a adora. Já na segunda música do alinhamento, “Fool” consegue arrancar o entusiasmo dos fãs, o que viria a despertar o botão de empatia de Marshall. O piano é inaugurado ao som de “Brave Liar”, música que viu ser excluída do seu último álbum Sun, de 2012. É destes percalços que é feito o sofrimento e, também, a instabilidade de Cat Power. No fim de contas, ela é uma humana como todos nós, o que faz com que a sua dor seja tão fácil de identificar com a nossa. É desta relação que se construiu o concerto, que se desenrolou sempre de forma constante, com público e artista deliciosamente sofridos. Ainda o concerto não ia a meio e já era um sucesso, com Cat Power a conseguir criar uma genuína relação com o público, e este a reagir positivamente a ela. As cabeças abanavam ao som de baladas como “Remember me”, cover de Otis Redding, os aplausos e gritos de apoio ecoavam energeticamente quando se ouviam os primeiros acordes de hits, como foi o caso de “Maybe Not”, onde os sorrisos de satisfação e preenchimento de alma eram uma constante.

Contagiada por ter encontrado no Porto os seus pares, Cat Power não escondeu a sua felicidade presenteando-nos constantemente com o seu belo sorriso e uma crescente confiança em músicas como “Naked if You Wanted” ou “Werewolf”, esta última levando o público a um aconchegante delírio. No entanto, a felicidade é um sentimento difícil de lidar para quem constantemente sofre e as situações caricatas começaram a acontecer conforme ela ia tomando conta da cantora. Primeiramente é o suporte do microfone que perde a força e não se segura. Brincando com a situação entre palavras que não se percebem muito bem, arranca algumas gargalhadas na fila da frente, para seguidamente arrancar uma gigantesca ovação quando mal começa a tocar “The Greatest”. Depois a tentar passar novamente para a guitarra, não consegue levantar-se facilmente para sair do piano, mas tudo isto não foi nada comparando ao que nos tinha guardado (ou não, porque tudo pareceu espontâneo) para o fim.

Depois de interpretar os primeiros versos da aclamada “Good Woman” decide parar a música do nada e desata a conversar com quem quisesse esforçar-se a ouvi-la. Uma carreira recheada de desamores tem muito para partilhar e desabafar, e mais de dez minutos não pareceram suficientes para Cat Power deitar tudo cá para fora. Na dúvida de voltar ao concerto ou continuar a sua palestra, vão se ouvindo alguns acordes da sua guitarra e deste momento, aparentemente, random, cria-se a maior cumplicidade que um público pode almejar da sua artista favorita. Mais do que pagar para ouvir alguém cantar, pagaram por se identificarem com a sua música. A sua personagem aqui demonstrou ser uma bem real. Muito mais madura, a vida ensinou-lhe muito da pior maneira, mas na maternidade encontrou uma nova perspectiva do mundo e é a perguntar ao público que quem dali já tem um filho que se encontra a resposta de tanta empatia gerada naquele concerto, com grande parte dele a levantar a mão.

Como agradecimento por todas as vivências partilhadas, Marshall decide não terminar a canção que havia começado dez minutos antes e improvisa um momento acapella com o qual termina o seu concerto. O público despede-se dela em ovação gigante, cientes de que o gato jovem, irreverente e instável, finalmente acalmou e procura o colo quente de quem o ama para se deitar e ronronar. Cat Power, encontrou esse colo.

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Comentarios

comentarios

Por João Rocha / 5 Novembro, 2015

1 comentário

  1. Pipi

    Concerto foi uma cagada. Ganhem juízo e sejam isentos.

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