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Chick Corea & Herbie Hancock @EDP Cooljazz [19Jul2015]

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Noite esgotadíssima, à semelhança do que havia acontecido no ano anterior, para o primeiro dia de EDP Cooljazz. E, também à semelhança do primeiro dia da passada edição, a noite iniciou-se, igualmente, com percalços: se em 2014 faltavam cadeiras, em 2015 faltavam espectadores.

Eram 21h30, hora agendada para o início do concerto, e ainda nem metade das cadeiras estavam preenchidas. Foi apenas 20 minutos depois, embora o muito público desalojado, que o concerto se havia de iniciar. Chick Corea & Herbie Hancock, tendo sido ambos pianistas de Miles Davis, motivo pelo qual se conheceram, encantaram os magníficos jardins Marquês de Pombal e toda a fauna e flora em seu redor. O sopro do vento nas árvores, o som da pequena ribeira a poucos metros do palco e o canto das rãs conciliados numa simbiose perfeita tornaram a música dos pianistas ainda mais mágica.

Antes de se atirarem aos seus instrumentos, um piano de cauda para Chick Corea e um piano curto e sintetizador para Herbie Hancock, os músicos decidiram dar umas palavrinhas aos fãs portugueses que os esperavam há já algum tempo, enquanto os membros do staff se esforçavam para orientar o público que ia entrando, num vaivém descomunal, até cerca de 30 minutos após o concerto começar, ou seja, 50 após o horário marcado. Facto que perturbou a visão e mais significantemente a audição dos presentes, que foi corrompida durante o concerto inteiro por alguns fotógrafos e membros do staff menos interessados que decidiram meter a conversa em dia durante a atuação dos norte-americanos.

Convém referir que estamos num concerto instrumental, maioritariamente acústico, que exige atenção redobrada, onde o mínimo sussurro interfere com a audição e o bom ambiente do espetáculo. Às tantas, ouvimos um “ai que seca!” vindo de uma rapariga deitada na relva onde, posteriormente, se juntaria aos seus amigos para falarem dos mais variados temas à ordem do dia, enquanto o duo elaborava um dos melhores improvisos da sessão, cheio de contra-tempos e experimentações nos sintetizadores. Sugerimos então que, para a próxima, a senhora permaneça nos seus aposentos de modo a não perturbar aqueles que realmente desejavam testemunhar um momento que, por certo, ficaria para a posteridade.

Os dois pianistas, sempre sorridentes, dirigem-se ao público dizendo que já não faziam uma tourné como esta desde os anos 80, que esta era a última data na Europa e que tinham guardado o melhor para o fim (the best for the least), o que, obviamente, suscitou uma enorme ovação da plateia.

“This is the Lisbon that I know”, exclama Corea em resposta ao barulho feito pelo público. “We don’t know what we gonna play” profere Herbie antes de se atirar ao primeiro improviso da noite. Seguem-se mais uma série de improvisos bastante livres e contemporâneos, sempre com os músicos trocando olhares e sorrisos, tentando conciliar ambas as mentes para que saia algo coeso e não muito disperso que, no final de contas, o free jazz destes dois mestres esteve sempre algo controlado nesta noite.

Já sem casacos e após mais um improviso em que Herbie Hancock domina os diferentes efeitos sonoros provenientes do seu Korg Kronos, fazendo-nos lembrar um falecido Joe Zawinul, os músicos dirigem-se novamente ao público: “We’re having fun! Can you feel the crazyness?” pergunta Chick Corea batendo com o microfone na cabeça. “Never experience an audience so big and so nice. Great energy”, diz o mesmo, com as luzes apontadas ao público que se estendia até à entrada daquele espaço do jardim, que ainda é longo.

A música seguinte foi dedicada ao seu mestre Miles Davis. O smooth impera com “Maiden Voyage”, mostrando a faceta mais “dentro” dos músicos. Despedindo-se, apresentando Herbie Hancock como Herberto Hancolini, em tom de brincadeira, rapidamente regressam para interpretarem o standard Jazz Fusion mais famoso de sempre: “Spain”, de Chick Corea. Desta vez tocada em trio: Herbie, Chick e o público, dividido em dois (lado esquerdo e direito). Os homens, divididos em dois, serviam de tenores enquanto que as mulheres, estas divididas em 3, serviam de sopranos, e eram as últimas a entrar em cena na escala de Dó Menor feita vocalmente a meio da canção de Chick Corea. O público sentiu e manteve-se atento, nunca esquecendo a parte em que entraria em ação, e se porventura se esquecesse, tinha o pianista para relembrá-lo. No fim da canção, os músicos despedem-se com um “Obrigado”, acenando e saindo de palco.

Com a plateia, praticamente, toda de pé e pedindo fervorosamente por mais um tema, o duo sobe ao palco para um segundo encore que, de certo, não estaria previsto, apertando a mão aos muitos que se deslocaram para junto do palco, aplaudindo e dirigindo palavras de incentivo aos músicos. Após uns valentes minutos de agradecimento a apertar de mãos aos presentes, sentam-se, de novo, nos seus pianos para improvisarem em cima de “Acknowledgement”, original de John Coltrane, que o público fez questão em acompanhar. As tão famosas quatro notas em que Coltrane canta “A love supreme, a love supreme” foram entoadas com a mesma graciosidade pelo público português perante dois gigantes do jazz mundial. Coltrane não sairia frustrado, certamente. A sua música ainda é capaz de manter plateias em pé, que após a subida dos músicos para o segundo encore, não mais se sentou.

São estas coisas que tornam os concertos memoráveis. Chick Corea e Herbie Hancock provam o estatuto que detêm perante as massas, assinando um concerto que prevalecerá na memória daqueles que os viram no passado Domingo. Apesar dos solavancos iniciais e dos desinteressados (e desinteressantes) que foram saindo a meio do espetáculo, o mítico duo elaborou um concerto capaz de nos fazer esquecer de todos os momentos menos bons do dia. Tudo está bem quando acaba bem.

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Por Diogo Alexandre / 23 Julho, 2015

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