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Cro-Mags c/ Dimension + Ground and Pound - RCA Club, Lisboa [10Nov2017]

16 de Novembro, 2017 ReportagensJoão "Mislow" Almeida

“I don't know who started it and I don't give a fuck. The one thing I do know is that we did it harder, we did it faster, and we definitely did it with more love, baby. You can't take that away from us.” - SLC Punk, James Merendino

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RCA Club

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Há semanas que simplesmente acabam mal. Qualquer pessoa já passou por isso na sua miserável vida. Uma rotina de merda, problemas em casa, problemas na escola ou no trabalho, e uma ansiedade sufocante para que chegue o fim-de-semana e se encontre de novo num asilo digno da sua sanidade mental. O hardcore punk sempre foi um refúgio para a juventude incompreendida. Classe baixa, média ou alta, seja de que etnia for e de que educação religiosa adquiriu em casa, os incompreendidos sempre se sentiram bem recebidos neste movimento. Os motivos são essenciais: a passar por uma compreensão política de tudo o que se passa no mundo, e conseguir contextualizar laços e valências entre as falhas morais da sociedade em função de manter o poder político nas mãos dos poderosos. No fundo, não é preciso ser-se anarquista, não é preciso pertencer ou não pertencer a um partido, basta ouvir com atenção:

 

“Things are getting hectic / It's all gonna end / You don't know what's waitin' up around the bend / Open your eyes, perhaps you'll realize / If aids don't get you then the warheads will”

- “World Peace”, Cro-Mags;

 

Este é o exemplo perfeito que desenha, com toda a força, a cruel honestidade do hardcore punk, sempre em forma de protesto. Desde os tempos primordiais de Nova Iorque, Los Angeles, Boston e Washington, até hoje, que sempre se admitiu como uma tradição trocar o conforto por confronto. Para alguns, calha mais do que bem mentiras reconfortantes e falsas esperanças perante um mundo que ainda tem alguma bondade em si, mas para outros, nomeadamente para nós, o nosso destino encaminhou-nos para o RCA Club no bairro de Alvalade em Lisboa, para ouvir o pé assente dos Cro-Mags contra o mundo.

Damos graças à Hell Xis por ser uma das poucas agências a permanecer com gosto e manobra para conseguir trazer nomes tão essenciais como aqueles que têm vindo a confirmar para o término de 2017 e início de 2018. Não conseguimos esconder o entusiasmo, e estaríamos a mentir se disséssemos que haverão mais oportunidades como esta, mas tomando em conta que a última vez que estes rapazes passaram por Portugal, foi em 2006, não tencionamos assumir grandes riscos. A entrada foi imediata, muito ao gosto daqueles que fazem questão de ver as bandas de abertura e no caso destas, a ocasião solicitava-se ainda mais especial. Tomando em conta que dentro de momentos teríamos os Ground & Pound a estrear-se na capital e Dimension a tocar pela segunda vez, não obtivemos motivos para falhar estas duas fortes promessas. Apesar do arranque tímido por parte de uma sala ainda em composição, algo reconhecível em qualquer concerto, isso não impediu os Ground & Pound, oriundos da cidade Invicta, de demonstrar aquilo de que são feitos. Além do som cru e pulsante, encontramos palavras que surgem como uma força positiva e de tremenda luta. Com um mastigar de guitarras arrojadas e bateria sempre a arrastar, muito reconhecível de clássicos como Better Than A Thousand, Ten Yard Fight e Mouthpiece, é com as letras e com os gestos de gratidão por parte destes que vemos que ainda há grupos que fazem isto tão bem como os do antigamente.

Os Dimension elevaram a fasquia a meio da noite com a sua explosão de groove a um RCA rendido. É impossível referenciar tantos outros nomes que surgem à mente quando ouvimos as batidas espaçosas e as cordas aguerridas de um grupo que não tem medo de abraçar a acessibilidade na música agressiva. Os vocais bem iluminados do experiente Poli (Devil In Me e Sam Alone) sobrevoam com toda a facilidade nas bass-lines pujantes. Podemos passar um dia inteiro a nomear a nostalgia com Cruel Hand, Helmet ou até Life Of Agony, mas estes merecem nome próprio, e se servir de alguma coisa, esperemos ver muito mais destes Dimension.

O grande momento chegou. Toda a expectativa de um instante está encapsulada na espera para ouvir a famosa intro dos veteranos, momentos antes de ver a sala do RCA em delírio com a entrada em palco. A arrancar com a famosa “World Peace” e a mover marés de pessoas em plena rendição ao som do baixo a escavar entre ruas de ódio, a velocidade desenvolve-se tão rapidamente que o público luta para acompanhar. Um círculo familiar ceifa o centro da sala em pura demonstração perante o que se erguia no palco, pura desordem. Os momentos inconcebivelmente devastadores passaram pela recolha de lixo humano na “Malfunction”, o refrão gritante na “Street Justice” onde a multidão de punho cerrado empurra o corpo coletivo contra o palco e a suscitar justiça de rua! A “Don’t Tread On Me” excitou tudo e todos na sala com a batida constante e as guitarras fu-di-das, até ao arrastar a meio da faixa que, por força gravitacional própria, empurra as duas abas da sala de um lado para o outro. Não há uma cabeça que tenha ficado por abanar, não houve um sorriso que se tenha escondido, e dá para ver que cada um de nós naquela sala, sente-se como uma criancinha a descobrir o hardcore punk pela primeira vez. Momentos como estes, só foram superados com a eterna cover dos Bad Brains, que elevou todas vozes numa só e em perfeita sintonia o grito a subjugar “We got that attitude!”, e com um encore a fechar a noite com a apoteótica “We gotta know” a martelar os últimos pregos no caixão.

O que se pode dizer acerca de um final de semana como este? Relembrando o que acima foi mencionado, acerca de semanas de merda e que no final destas qualquer um de nós só precisa de um abrigo, algo que compreenda toda a sua revolta e angústia num mundo que o abandona cada vez mais frequentemente, não há que fazer mais nada senão dizer… bem-vindo a casa.
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Cro-Mags c/ Dimension + Ground and Pound - RCA Club, Lisboa [10Nov2017]
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