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Crónicas do Vodafone Mexefest 2016

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O Mexefest traz-nos sempre as novas tendências da música nos seus mais diversos estilos entre a Avenida da Liberdade numa altura já tipicamente natalícia. O conceito do festival está cada vez mais aprimorado, entre os bonitos passeios por sítios tipicamente lisboetas como a Casa do Alentejo, o São Jorge, e até o renovado Capitólio. Para além disto, o Mexefest significa a última paragem do ano no que a festivais diz respeito, e com a mescla de artistas que vem trazendo torna-se um ponto de encontro comum entre todo o tipo de festivaleiros.

Na noite que marca reabertura do Capitólio, Mike el Nite e Nerve estreiam a sala para uma plateia ainda tímida, mas bem representada pelos manda-chuvasdo hip-hop nacional, não é de estranhar que nomes como Valete ou Fuse queiram ver o que de melhor se faz actualmente por cá e mostrem apoio total a um homem que trouxe uma cara nova e lavada ao hip-hop nacional. Ainda no mesmo local mas no terraço pudemos espreitar Celeste/Mariposa, um projecto maioritariamente direcionado para o afro-beat e afro-house que cada vez mais tem crescido por cá.

A chegada ao Coliseu dos Recreios brindou-nos com uma das maiores surpresas do festival, a britânica NAO. Sempre muito sedutora, veio-nos apresentar o seu álbum de estreia lançado no verão deste ano intitulado For All We Know acompanhada de banda (guitarra, bateria, baixo e teclado). Impressionou um Coliseu composto e bastante efusivo durante 50 minutos com uma voz doce e estonteante, emoldurada pelo seu soul e R&B e uma presença de palco incrível.

 

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Talib Kweli

 

O norte-americano Talib Kweli arrebatou o pódio com uma representação do mundo inteiro atráves do hip-hop nas suas próprias palavras. Evoca Wu-Tang Clan, recorda J Dilla, traz Niko Is como convidado e a sua DJ. O homem de Brooklyn explora um formato ao vivo que permite percorrer quase todo o reportório aproveitando ao máximo o seu tempo não se estendendo nas músicas. A sala lotada para o ver não se conteve quando o rapper pergunta: “Quem aqui gosta de Michael Jackson?” e o concerto parece ir um pouco ao dj set passando depois por Bob Marley e Sister Nancy. Houve tempo para passear pelo Black Star no tema “Definition” com Mos Def antes de deitar a casa abaixo com o seu maior êxito “Get By” que nos é introduzido por um sample de piano magnífico. Houve também tempo para espreitar Diamond D & Large Professor no Capitólio, os dois são clássicos e convidam-nos a participar numa viagem às origens do hip-hop com as suas misturas de sons fabulosos nos pratos, mas falham em cativar o público a permanecer na sala.

E se por um lado o rapper leva o pódio, os Jagwar Ma são sem dúvida a desilusão do festival. O trio australiano chegou com alguns minutos de atraso e antes de subirem ao palco, Carlão (ex-vocalista dos Da Weasel) dirigiu-se à plateia lendo “O Príncipio de uma Boa Queca” num momento Vodafone Vozes da Escrita.

Após bastantes risos a banda acaba por finalmente subir ao palco, e nota-se claramente um formato já gasto pelo primeiro o álbum e uma banda que perdeu claramente o rumo do barco. A utilização excessiva dos sintetizadores parece relembrar-nos a electrónica que se fazia no final dos anos 80/início dos anos 90 com toques de psicadelismo, que compuseram uma actuação que soou a dj set. Como se costuma dizer: muita parra pouca uva a acabar o primeiro dia de festival.

 

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Jagwar Ma

 

Um segundo dia cheio de chuva e mau tempo e que nem assim parou a música ou as enchentes em todos os locais, até os a céu aberto.

Elza Soares, a Mulher do Fim do Mundo era muito aguardada num Coliseu já cheio antes do espetáculo começar. Juntar o Samba e a Bossa Nova não é para todos, mas a diva brasileira dá uma experiência única cheia de músicos excepcionais em seu redor. Sempre alegre e colorida a cantora com a sua voz enérgica e a sua lírica representativa daquilo que sempre foi a vida – amor, ódio, violência e carinho – com um público bastante participativo e interactivo proporcionaram aquele que foi sem dúvida o concerto mais marcante de todo o festival, mais do que a Mulher do Fim do Mundo é a Mulher do Mundo. A Mulher do Mexefest.

Antes tinha actuado Christopher Gallant e a sua banda. É um artista recheado de talento e que tem crescido bastante ao longo dos últimos anos e que traz consigo uma banda essencial para criar um clima quente numa noite fria. O falsetto que é quase uma constante no seu último trabalho, “Ology”, é o elemento que se destaca mais no palco e que nos relembra daquele que é uma das suas grandes inspirações: Seal. Uma performance bastante consistente que leva o público ao climax com o tema Talking To Myself onde a arte do soul e R&B projectam o norte-americano para o estrelato.

 

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Elza Soares

 

Não muito distante do Coliseu, na Garagem Super Bock/Garagem EPAL começava a segunda edição da Ciência Rítimica Avançada com curadoria de Rui Miguel Abreu, onde destacamos tudo o que tem feito pelo hip-hop nacional e pelos jovens artistas que se têm lançado nesse mundo. Aproveitámos para espreitar o ambiente característico de quem vive a cultura do hip-hop e Landim não engana. É cada vez mais uma certeza e não apenas um talento como o demonstrou mais uma vez durante 45 minutos onde fez de tudo: trap, freestyle e rap.

A corrida seguinte foi para ver Kevin Morby, no Rossio, onde o mau som já característico do espaço não impediu que a nova gema do rock alternativo desse um concerto convincente e capaz de afastar a chuva, o que nos faz crer que com outras condições meteorológicas ou uma sala fechada tinha tido uma plateia bem maior, como já teve para os lados do Norte.

Avenida acima até ao Tivoli onde os Whitney – uma banda revelação de 2016 – reduzidos a dois membros tinham tudo para correr mal mas que, apesar de tudo, não foram desastrosos. O baterista da banda fica entregue a guitarra e explica que está nervoso, mas isso não assusta a plateia e mantém a sala cheia, demonstrando que este tipo de bandas são cada vez mais uma aposta segura para os promotores portugueses.

 

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Whitney

 

Os Digable Planets já atingiram um estatuto de quase intocáveis no que ao hip-hop/jazz diz respeito, são um grupo com mais de 20 anos de respeito e não se esperava nada menos do que algo memorável. Não falharam em dar um concerto absolutamente memorável e usar como tema de abertura “May 4th movement” não é certamente para todos, muitos outros grupos ou bandas optariam por deixar músicas como estas mais para o fim. Foi exactamente esse segundo trabalho do grupo, Blowout Comb, que o grupo numa digressão de reunião veio lembrar, a mistura do hip-hop com jazz que se revelou inesquecível para todos aqueles que puderam assistir a um momento histórico. O grupo fez com que as cadeiras da Sala Manoel de Oliveira fossem completamente inúteis e deixaram todos a dançar. Isto já não se faz, já ninguém se atreve a equilibrar os dois estilos e arriscar fazer isto em 2016 numa tour de digressão é arrojado, mas eles melhor que ninguém deram uma lição de como o fazer.

Ainda houve tempo de Branko fechar o festival em jeito de celebração com um djset no Coliseu dos Recreios. O já experiente DJ apresenta-se com alguns artefactos para passar alguns dos seus trabalhos presentes no seu último trabalho Atlas, é o ambiente já tradicional de fecho do festival. E é através da música electrónica que o Mexefest se despede e nos despedimos da vida festivaleira até 2017.

 

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Branko

 

[Este autor utiliza o Antigo Acordo Ortográfico.]

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Por João Neves / 6 Dezembro, 2016

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