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Elza Soares - Casa da Música, Porto [24Nov2016] Texto + Fotos

29 de Novembro, 2016 ReportagensGoncalo Tavares

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Casa da Música

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Na fila de espera para entrar na sala Suggia, na passada quinta-feira, o público comentava: “Elza é um fenómeno”; “É uma referência activista”; Teve uma vida muita dura, cheia de altos e baixos, e continua a cantar”. Este contexto, apesar de ser muito relevante, não chega para distinguir Elza Soares. Alguns referiam os eventos traumáticos que assombram a sua biografia - nascida numa favela, foi encaixotadora e operária, casada aos 12 anos, viu morrer cinco filhos e a mãe (em Comigo, poema que fecha o LP Mulher do Fim do Mundo canta “Levo minha mãe comigo, Embora já se tenha ido, Talvez por sermos tão parecidos”). Continua a ser insuficiente.

O seu último álbum, referido anteriormente, é uma colossal mostra de vida. Em 63 anos de carreira, é o seu primeiro registo de inéditos. Há canções de letras negras, sobre o submundo clandestino do Rio de Janeiro, mas nunca mais negras que Elza, que as reenvia para a vida. A sua “negritude”, como lhe chama, é uma presença permanente no seu trabalho.

Aos 79 anos, só entra e sai do palco com ajuda de um roadie e sobe para o seu trono a partir de um elevador, mas ainda veste látex e uma popa roxa como cabelo. Abre o concerto com a faixa homónima do álbum, onde remata “Quero cantar até ao fim”. O público explode em palmas e ela, com um sorriso curto, diz com toda - toda - a sinceridade: “Obrigado meus queridos”. Agora sim.

Ir ver Elza Soares ao vivo não é ir a um concerto, mas presenciar um pedaço da história do Brasil a se esvanecer. Ela é uma defensora acérrima da comunidade LGBT (pode não ser novidade agora, mas era-o nos 80’s) e um símbolo da mulher negra que, apesar de ter tido uma vida de cão, continua a cantar e a desejá-lo violentamente. Emana alegria e é grata, agradecendo muito as rajadas de palmas que o auditório lhe lançava, quase parecendo que ainda tinha algo a provar.

A instrumentação estava aguçada e deliciosamente semelhante à do registo, fora a bateria, aqui uma bomba de energia. O som estava potentíssimo. “Carne”, das poucas músicas que não faz parte de Mulher do Fim do Mundo, foi recebida com entusiasmo. Em “Malandro”, todos os músicos entoavam em coro uma canção de embalar, enquanto Elza fazia festas ao convidado que na música anterior, “Benedita”, imitava um transsexual a quem ela presta homenagem. A sua postura provocadora mantém-se.

Em “Maria da Vila Matilde”, ela cantou “um assunto seréssimo”: o seu relato enquanto vítima de violência doméstica pelo marido, mas com um twist de humor negro e sonoridade suja (segundo a cantora, ela canta “samba sujo”). A partir deste momento, as músicas ganharam um impacto mais físico, com algumas pessoas a saírem das suas cadeiras para dançarem nas laterais da Suggia. O fluxo aumentou até ao encore, onde estes espaços se enchiam de gente em ovação, enquanto Elza cantava “Pressentimento”.

Houve algumas gaffes e desafinação, reveladores da sua debilidade física. Mas, sinceramente, Elza não precisava de fazer mais nada para tornar este concerto num dos mais valiosos do ano.

Ela já fez história. Agora, só precisava de aparecer.

 

por
em Reportagens
fotografia Daniela Lapa

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